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CICATRIZ NA RETINA

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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No sábado dia três, em Resende (RJ), o instrutor de pára-quedismo da Barra Jump Cláudio Barbosa Cordeiro, 30, se preparava, como já havia feito outras 1200 vezes, para mais um salto de instrução, quando teve uma abertura prematura e inesperada do pára-quedas reserva.
Foi projetado do avião, ficando as linhas e o velame do equipamento por cima e ele por baixo do profundor – aquela pequena asa na cauda do avião. Em frações de segundos o atrito rompeu os tirantes deixando-o sem o reserva, além de comprometer o profundor do King Air, inclinando o avião. Fosse um avião menor, teria caído.
A curva acabou ‘empurrando’ para o ar o cinegrafista Marat Leiras, 27, que iria registrar o salto do aluno, que acabou ficando na aeronave.
Ligado até aquele momento no aluno, ele não havia percebido o que se passava fora do avião e estranhou ao ver o velame aberto já distante.
Mais ainda ao ver o Cláudio em queda livre. Vôou em sua direção e ao alcançá-lo, percebeu o pânico. Saltando com equipamento emprestado, Cláudio procedeu a rotina de emergência, desconectando o principal, para então acionar o reserva, aquele que havia perdido. Ficou sem pára-quedas.
Em queda livre, em velocidade terminal, a mais de 200 km/h, Marat percebeu que o container que levava o principal havia ficado preso nos restos das linhas do reserva. Depois de algumas tentativas conseguiu acioná-lo, enrolando sua mão no disparador e acionando seu próprio pára-quedas.
O esforço foi inútil, pois ao abrir, o tranco fez por soltá-lo das cordas que o mantinham preso ao corpo de Cláudio, que continuou caindo.
Marat registrou imagens que não queria mas não teve escolha. Imagens que poderia leiloar com as emissoras de TV, mas que ele prefere não ver.
Aquelas que registrou no obturador e lente biológicos provocaram uma cicatriz profunda em sua retina e lhe roubam o sono.
Quem sabe, um dia ele as libere. Acho que deveria. Como alerta, da forma apropriada, sem sensacionalismo.
Os esportes que abordamos, em sua maioria, envolvem alto risco. Os mais experientes, apoiados ainda na técnica e na tecnologia, insistem que o risco é calculado.
A tragédia de Cláudio e as cruéis estatísticas dos últimos meses têm evidenciado o contrário. O francês Patrick de Gayardon, pai do skysurf e inventor do wing flight, o norte-americano Dan Osman, especialista em escaladas e introdutor do salto com cordas, os base jumpers Bob Neely, norte-americano , e Xaver Bongard, suíço, o alpinista brasileiro Mozart Catão fazem parte de uma extensa lista de atletas de ponta em suas atividades, vitimados em última instância pelo excesso de confiança.
Diariamente acionamos nossos pára-quedas e buscamos manter o controle sobre nossas vidas, mas como diria Guimarães Rosa, viver é perigoso.

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