por Luiz Alberto Mendes

Luiz Alberto Mendes vive noite digna de rei com direito a camarões e champagne no Fasano

Eles pareciam mais pingüins que os outros, em seus ternos pretos de camisa branca. Restaurante Fasano, Jardins, centro da burguesia paulistana. Havia sido convidado a jantar pelo dono, Rogério Fasano. O tema da revista era alimentação e eu estava ali para apreciar e escrever. Missão delicada.

Enquanto caminhava para o bar, pensava que vivemos duas sociedades. A da informação, que privilegia o racionalismo, pragmatismo, conforto físico e inteligência racional. Outra, a existencial, valoriza histórias vividas, emoções individuais, conforto espiritual e inteligência emocional. Era assim que me sentia naquele palácio da gastronomia: dividido entre dois mundos.

Desde criança já ouvia falar daquele restaurante. Era o que havia de melhor. Fazer uma refeição ali era simbólico. Jamais pensei em chegar perto. Somente os mais ricos e famosos

tinham esse privilégio. Pensava que não podia ser assim tão mais que os demais, afinal era só comida. Parecia marketing. Mas fui decidido a aprender muito, já que estava muito ignorante de todos aqueles prazeres.

Foram extremamente gentis ao nos receber, eu e minha sobrinha, que me acompanhou na jornada. No bar (se é que se pode chamar aquilo de bar) sentamos em poltronas confortáveis. Dentro do balcão, encrustradas dentro de paredes de madeira, estavam garrafas de toda qualidade de bebidas. Uns dez metros de prateleiras de bebidas sem repetir marcas.

O teto de espelhos aumentava a dimensão daquela coleção memorável. Nos foi servido champanhe. A língua efervescia.   

PÉ FRIO

Observava tudo atentamente até identificar a sociedade da  inteligência racional. Algo de frio, um gelo, subia pelos pés. Tudo estava distante de mim, que sou emocional e que gosto de calor humano. As pessoas nem se olhavam, falavam baixinho, discretíssimas. Quase todos formalmente compostos, vestidos em ternos e gravatas. Nenhuma calça jeans ou camiseta, somente eu destoava. Para mim parecia claro; para jantar, deveria vestir algo confortável e despretensioso. Mesmo porque não tenho terno ou gravata. Aboli o formalismo; é caro demais.

A sobrinha, minha cúmplice, estava gostando muito. Fiquei contente em trazê-la. Então chegou mestre Almir. Cearense com 23 anos de casa, dono de sorriso especial e cativante. Nos levou à mesa do restaurante. Por dentro, uma manada de demônios se agitava. Minha timidez me constrangia demais. As pessoas não nos olhavam. Seus olhos eram pálidos e transparentes como a superfície da noite.

Cadeira confortável, mesa enfeitada. Mestre Almir nos trouxe o dono da casa. Rogério foi muito gentil em vir nos cumprimentar. O diálogo, penso, agradou, já que ele ficou conosco durante todo o jantar. Recomendou-nos o vinho italiano que mais aprecia: Montespertoli. Uma delícia! Descia massageando por dentro. A vontade era de tomar várias garrafas e morrer em coma alcoólico. Vontade é algo que dá e passa, então procurei controlar.

Como não conheço comidas sofisticadas, não sabia o que pedir. Quase tudo no cardápio tinha nome estrangeiro. O dono do restaurante nos receitou (sim, porque foi uma receita de conhecedor) primeiro uma crema di funghi. Espécie de cuba de casca abaulada para ir quebrando para dentro de um creme levíssimo. A coisa desmanchava na boca de tão gostosa.

A conversa se prolongava ao sabor do vinho. Rogério é bem simples e agradável, o único vestido informalmente, como eu. Falava da tradição familiar do restaurante, curioso para saber como foi minha vida na prisão. Ao fim e ao cabo, quis mostrar que não era rico do modo que poderíamos imaginar. Quem sou eu para julgar, não é mesmo? De qualquer modo, para mim não é nenhum crime ser rico. O problema é como chegar a essa riqueza e o que dela se faz. 

REPÚBLICA DOS CAMARÕES

Chegou o prato principal: gamberoni rosa con lardo di colonnata al vapore. Camarão com creme de espinafre e uns tomatinhos com batatas ao vapor. Deliciei-me imediatamente. Realmente, quem tem dinheiro vive bem. Muito melhor do que eu imaginava. O gosto era divino! “Gostoso” e “delicioso” não expressam o sabor que se abriu na boca quando mastiguei o primeiro pedaço. Aquilo corrigia o dia da poesia que não aconteceu.

Acomodei palavras de admiração. Na minha extensa ignorância, voltei a pensar na comida da prisão. Nos últimos tempos já havia perdido prazer em comer. Alimentava-me somente. Aquele arroz empapado ou cru, feijão duro a fazer tim tim na bandeja. Pedaços inteiros de músculos com carne sem tempero, cheios de gordura e sebo que não dou nem para meus cães. Isso quando não passávamos meses só de salsicha, ovo ou repolho cozido. “Ovo no almoço, ovo no jantar, ovo está virando rotina alimentar...”

SAIDEIRA(S)

Demorei horas mastigando e dando voltas na boca com aqueles pedaços de camarão. Jamais comi algo tão saboroso. Delicioso demais. Mas, quando minha acompanhante me mostrou o preço, quase cai de costas. Caríssimo, acima do imaginável. Aliás, o que se percebe ali é que preço não conta. Em seguida, a sobremesa. Souflée di Grand Meunier (até agora não sei o que é isso) com uma bola de sorvete. Outra delícia, mas nada comparável ao gamberoni rosa.

Depois da agradável despedida de todos, ao andar noite adentro eu senti o vinho. Havíamos tomado duas garrafas. Mas foi a mistura com o cherry brandy no final que me deixou de cabeça girando. Foi quase um “Boa noite, Cinderela”. Cheguei em casa, caí na cama e desmaiei. Somente hoje, agora pouco, é que voltei ao mundo querendo lembrar aquele gosto e sentindo a boca amarga da bebida.

Não há críticas e muito menos censuras. Antes eu estava como ultrajado espectador da vida, confinado nas pontas de meus desejos impossíveis de serem realizados. Agora estou a viver e muito bem, mesmo que de vez em quando.

Ao fim e ao cabo, quis mostrar que não era rico do modo que poderíamos imaginar. De qualquer modo, para mim não é nenhum crime ser rico. O problema é como chegar a essa riqueza e o que dela se faz. 

Créditos

Imagem principal: Rubens Amatto

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