Audino: um pensador para os becos e vielas

por Nathalia Zaccaro

No YouTube, Marcelo Marques traduz Marx para os termos da favela, define Nietzsche como um mano ”roba brisa” e democratiza o conhecimento que transformou sua vida

Marcelo Marques, de 18 anos, quer dar a visão pra molecada da quebrada. Cursando o quinto semestre de história, ele percebeu que os livros e teorias que estudou transformaram sua vida. E que podem transformar a de seus parceiros também. "Eu mudei completamente quando comecei a enxergar a filosofia fora dos livros e dentro da minha favela, na minha religião e nos meus amigos", conta.

Em seu canal do YouTube, Audino, como é conhecido na internet, traduz o que aprendeu para a linguagem das resenhas com os amigos. "Se você entender o pensamento de uns caras como Nietzsche, Platão e Spinoza você vai ter uma visão para lidar melhor com seus problemas. E o que não falta na favela é a molecada tendo problema pra resolver, só os corre de mil grau. Se você passa uma visão de uma forma que eles entendem, com a linguagem que eles gostam, você transforma vidas e abre mentes. A molecada precisa ter uma filosofia própria", diz.

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"O mito da caverna para becos e vielas" e "Nietzsche: o famoso roba brisa" são dois de seus últimos vídeos que, juntos, somam quase 90 mil visualizações. Trocamos uma ideia com Marcelo sobre sua trajetória e os planos para o futuro: "Quero explicar a escravidão no Brasil pra molecada entender por que eles moram na periferia, por que a maioria na periferia é negra. Tenho um projeto de trazer explicado certinho o processo histórico do racismo e por que isso persiste até 2020." Se liga: 

Trip. Onde você nasceu?

Audino. Sou nascido e criado em Paulínia, no interior de São Paulo. Sempre morei em bairro popular e estudei em escola pública. Desde criança sempre gostei muito de dinossauro, de múmia, de uns bagulho assim... Então sempre gostei muito de história, foi paixão de infância.

Você já pensava em ensinar? Na sétima série conheci o melhor professor da minha vida, o Caco, de história. Ele levava um projetor e dava aula por slide, ele era muito firmeza. Quando meus vídeos bombaram ele ficou muito feliz. Ele é minha inspiração. Comecei a me enxergar no lugar dele. Pensar que, se um dia eu fosse professor, queria ser igual a ele. Essa ideia começou a amadurecer na minha cabeça. 

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E quando você começou a colocar isso em prática? No Ensino Médio comecei a me politizar, ler Marx, Adam Smith, pá e pum. Daí entrei pra umbanda. Eu fui criado em ambiente cristão, mas a umbanda mudou a minha vida. Comecei a ler várias coisas. Os primeiros filósofos com quem simpatizei foram os existencialistas, Nietzsche, Camus. Do Schopenhauer nunca cheguei a ler um livro, mas já li alguns resumos. Prestei vestibular e comecei a cursar história a distância, consegui uma bolsa e era o que podia pagar. Comecei nessa jornada para seguir meu sonho, quero ser o professor que vai trazer didática pra molecada. Quero ser espelho, que nem o Caco.

Como rolaram os vídeos no YouTube? O canal eu tenho desde 2016, mas postava vídeos de anime e videogame. Mas aí essa fita começou porque eu tava conversando com os moleques sobre um game que tem personagens históricos e eu falei que um deles parecia o Lula. E a molecada cascou o bico e falou: "Caralho, você pensa uns baguio nada a ver!". E falaram pra eu gravar um vídeo falando disso. A molecada embalou na minha. E eu era como? Era desvirtuado! E aí o vídeo deu uma pipocada. E aí tive essa ideia de postar um vídeo em que eu comparava o Bolsonaro com um personagem de Naruto. Depois eu tava instigado e pensei em traduzir Karl Marx do jeito que eu falo, o jeito da quebrada. Esse é um puta de um assunto em alta, gera polêmica e a molecada nem entende as ideias. Marx defende os trabalhadores e esse conteúdo não chega na periferia. Gravei e o bagulho estourou, vários professores na minha bota do nada! E aí gravei mais e a molecada abraçou, várias pessoas querendo me mostrar projeto. O diretor de uma escola me pediu para eu gravar vídeos e fazer palestras porque ele estava perdendo alguns alunos pro crime. Eu tô fortalecendo.

Você fala de filosofia também. Por quê? A minha visão é a seguinte: a filosofia é muito elitista no Brasil, as traduções dos livros usam um vocabulário inacessível para a periferia. Tem um livro de São Tomás de Aquino que não consigo entender duas páginas. Se eu, que tento me letrar o melhor possível e que graças a deus tô tendo condição de cursar universidade e me esforço para estar no meio acadêmico, não consigo entender, imagina a rapaziada. A filosofia vem pra mudar as pessoas. Se você entender o pensamento de uns caras como Nietzsche, Platão e Espinosa você vai ter uma visão pra lidar melhor com seus problemas. E o que não falta na favela é problema. O que não falta é a molecada tendo problema pra resolver, só os corre mil grau. Se você passa uma visão de uma forma que eles entendem, com a linguagem que eles gostam, você transforma vidas e abre mentes. A molecada precisa ter uma filosofia própria. Quem é da periferia e chega no ambiente acadêmico fica tão vidrado na bolha acadêmica que esquece de como traduzir. O favelado que entra numa USP começa a andar com a molecada do ciclo da academia e perde o jeito de se comunicar com a periferia dele. Como que ele chega numa resenha, num baile com os amigos favelados que não terminaram o Ensino Médio e foram pra vida do crime? Como ele vai explicar o eterno retorno de Nietzsche?

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Como a filosofia e os livros mudaram a sua vida? Se você começa a pensar, você começa a resolver seus problemas. A forma como eu lido com meus problemas hoje é muito diferente. Platão viveu há 3 mil anos, mas o que ele fala está no nosso 2020. Eu mudei completamente quando comecei a enxergar a filosofia fora dos livros e dentro da minha favela, na minha religião e nos meus amigos. Mudei meu caráter e comecei a lidar de forma mais inteligente com os problemas.

Quais são os planos para o canal? Meu plano é trazer uma sequência de vídeos de filosofia e depois de história e sociologia. Quero explicar a escravidão no Brasil pra molecada entender por que eles moram na periferia, por que a maioria na periferia é negra. Tenho um projeto de trazer explicado certinho o processo histórico do racismo e por que isso persiste até 2020. E não posso deixar de fora a história da religião afro, porque ela sofre fortemente no Brasil.

E os planos para o seu futuro? Meu plano principal é seguir a formação acadêmica na história, lecionando pro Ensino Médio, e continuar meu trabalho no canal. E também seguir minha religião, virar um babalorixá. O sacerdócio é importante pra minha vida, sinto que eu devo abraçar.

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