por Carlos Messias
Trip #276

Às voltas com dois filmes, uma peça e a direção do seu primeiro documentário, Maria Flor manda a real sobre sexo, desejo e casamento: “Todas as mulheres deveriam ter um vibrador, é muito libertador”

Na tarde de 12 de junho, Maria Flor não estava preocupada em comprar presente nem ansiosa para jantar com o marido, o ator e dramaturgo Emanuel Aragão, com quem vive há um ano e meio no bairro do Horto, no Rio de Janeiro. “Acho uma bobagem Dia dos Namorados, janto com o meu marido todas as noites”, dispara a atriz de 34 anos. Na tarde em questão, ela estava na Trip, em São Paulo, onde falou abertamente, durante duas horas, sobre casamento, consumo, masturbação e seus novos trabalhos, relembrou a primeira vez que sentiu desejo sexual e comentou o teste para interpretar uma Bond girl em 007 – Operação Skyfall (2012). “Só de imaginar que contracenaria com Daniel Craig, não consegui me levar a sério”, comenta a atriz, que dividiu a tela com Anthony Hopkins no filme 360 (2011), de Fernando Meirelles.

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A indiferença com o Dia dos Namorados reflete seu atual desapego com o consumismo. “Lembro quando fechei o contrato para a novela Eterna magia [2007], fui para Nova York e enlouqueci, comprei 17 pares de sapato”, recorda. “Hoje em dia, que tenho compromissos mais sérios com dinheiro, sou zero consumista. Perdi o deslumbramento de ficar fazendo compras. Só gasto dinheiro com vinho, comida e viagem.”

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Mas a atriz reconhece que já abriu mão de trabalhos que lhe agradavam para ganhar melhor com uma novela. “Às vezes, você recebe propostas de filmes que te interessam, mas a Globo te oferece um contrato de um ano. Não posso abrir mão disso por causa de um filme de baixo orçamento que vai ser gravado em um mês”, pondera ela, que está na segunda temporada de 3%. Ambientada em um futuro distópico, é a primeira produção brasileira original da Netflix e se tornou uma das séries em língua não inglesa mais assistidas dos Estados Unidos. “Acho que esse sucesso tem a ver com esse momento do mundo, que está muito louco.”

Além disso, Flor trabalhou em três filmes que devem chegar ao cinema em breve. Em fase de finalização, o documentário Filme Ensaio, que marca sua estreia na direção de um longa, mostra o processo criativo da peça Nômades, que estreou em 2014 no Rio. “Comecei superdespretensiosamente porque três atrizes muito fodas, que são Mariana Lima, Andrea Beltrão e Malu Galli, foram fazer uma peça que não tinha texto – ele iria ser construído nos ensaios. Aí eu perguntei: ‘Será que vocês me deixariam filmar, sozinha, mesmo, com uma câmera e um tripé?’. Acompanhei o processo por três meses e fiquei com cem horas de material”, conta. Também este ano deve estrear Albatroz, filme de Daniel Augusto, com roteiro de Bráulio Mantovani, no qual ela contracena com Alexandre Nero e reencontra Andrea Beltrão.

Sem pudor

No Dia dos Namorados, ela chegou para a entrevista direto da primeira diária de filmagem de Maior que o mundo (ainda sem previsão de estreia). O longa, escrito por Reinaldo Moraes, se passa na região do Baixo Augusta, em São Paulo, homenageia a Boca do Lixo e tem Eriberto Leão e Luana Piovani no elenco. No filme, Flor protagoniza cenas de sexo com a atriz Gabi Lopes. “Geralmente, é uma cena bem incômoda porque você não tem intimidade com aquela pessoa, não quer fazer sexo com ela, o ambiente não te permite sentir tesão e tem que fingir algo que supostamente deveria ser natural e orgânico.” A atriz não tem pudor em ficar nua e revela já ter sentido atração por mulheres. “Já beijei algumas amigas, sempre num clima de festa e Carnaval. Mas nunca transei com uma mulher, talvez por falta de oportunidade.”

Formas femininas contribuíram para a primeira vez que Flor sentiu desejo sexual, aos 11 anos. “Minha mãe tinha várias HQs no banheiro. Uma delas, acho que japonesa, trazia umas meninas se comendo e pegando uns caras, era uma putaria. Passava horas trancada no banheiro vendo a revista. Sentia tesão, mas não sabia ainda identificar o que era. Então nem me masturbava. Só entendi isso fazendo análise, foi minha primeira experiência de sentir desejo.”

Masturbação foi pauta em um trabalho recente da atriz, o espetáculo de stand-up Tudo que você sempre quis dizer sobre o casamento, no qual ela e o marido dividem o palco, discutem e revelam questões íntimas do casal. “O Emanuel conta que todos os homens se masturbam, aí eu falo: ‘As mulheres também se masturbam’. A plateia fica meio em choque. Ninguém fala sobre a masturbação feminina, é meio que um tabu. Se uma menina fica muito tempo no banheiro, ninguém diz: ‘Você tava se masturbando, né?’, como acontece com os meninos”, compara. “Todas as mulheres deveriam ter um vibrador, é muito libertador.”

Flor acredita que o recente levante feminista que o mundo tem testemunhado é fundamental para que as mulheres passem a expressar seus próprios desejos. “O sexo é uma coisa meio animal. A gente cresce com um monte de imagens estereotipadas dos filmes, das novelas, do que deveria ser o sexo ou o prazer. Mas não deveria ter regra.” Ela mesma revela que precisou se esforçar para se desvencilhar do papel de “boa moça”. “Aos 25 anos, estava saindo de um casamento, tinha atuado em uma novela que não tinha feito sucesso e percebi que eu não era uma princesa vivendo um conto de fadas. Por outro lado, isso foi libertador.”

A atriz tenta também não sucumbir a cobranças referentes à maternidade, convivendo com o enteado, Martin, 4 anos. “Ter filhos é uma questão serís­sima para mim neste momento. Rejeito a ideia de que as mulheres são obrigadas a ser mães. Ao mesmo tempo, sinto muito medo de chegar aos 60, olhar para trás e me arrepender. Mas a real é que eu nunca pensei em ser mãe. Só agora, que tenho 34 anos, estou me colocando a questão porque sei que tenho um deadline.” Para ela, é fundamental que a mulher se aceite como é. “Parei de me cobrar para ser uma mulher perfeita, gata, sarada, bem-sucedida e em um casamento perfeito. Sei que nunca serei essa pessoa.”

Créditos

Imagem principal: Bispo

Coordenação geral Adriana Verani/ Beleza Gabriel Ramos/ Agradecimentos Tica Bertani/ Maria Flor usa Intimissimi

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