por Ramiro Zwetsch

Acompanhamos o encontro de Mano Brown com o jamaicano Horace Andy e desvendamos a história da música que fez a cabeça do rapper nos anos 80

O baú dos bailes de periferia do Brasil sempre terá uma história guardada a ser redescoberta. Recentemente, mais uma foi desvendada. Tudo começou com um vídeo postado no Instagram por Mano Brown em outubro de 2016. Como quem não quer nada, bem despretensiosamente, o rapper postou uma imagem em que ele aparece dirigindo seu carro e fumando um baseado ao som de um tipo de funk eletrônico com um refrão que diz “Get down, oh yeah/Get down, on the floor”. A legenda: Equipe Bossa 1.

Como qualquer coisa relacionada à principal voz dos Racionais MC’s, o post repercutiu e chamou atenção especialmente da imensa legião de fãs de reggae no Brasil. Nem o próprio Brown sabia, mas o som era “Get Down”, que o jamaicano Horace Andy gravou em 1985 e lançou em um single de vinil 12 polegadas. Aos 68 anos, ele já acumula mais de 50 anos de carreira, é reconhecido por ter uma das vozes mais marcantes da história do reggae e tem participações em todos os discos do grupo de trip hop britânico Massive Attack.

No dia 30 de maio, uma quinta-feira, os dois artistas se conheceram. Horace se apresentou no sábado, 1º de junho, em São Paulo, e recebeu a visita do MC brasileiro durante um ensaio no Estúdio Passo Som, em Pinheiros, bairro da zona oeste de São Paulo. A reportagem da Trip presenciou o encontro, conversou com Mano Brown e entendeu, finalmente, de onde vem a relação do rapper com esta música.

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“O vídeo deu uma viralizada e alguém descobriu o nome do cara que cantava – porque eu mesmo nem sabia, não vou mentir. Alguém escreveu: ‘Esse aí é o Horace Andy’. Eu nunca nem soube o nome desse cara”, admitiu o rapper. “Só uma equipe de baile em São Paulo, e provavelmente no Brasil, tinha esse disco. Era uma equipe que chamava Bossa 1. O baile era na Vila das Belezas, no Capão Redondo, Zona Sul. Era o baile que os caras da minha quebrada frequentavam. E a música ficou ligada especificamente ao pessoal daquele bairro, porque só aquela equipe de som tinha. Era um orgulho, a gente ostentava: ‘Ah, essa música é lá da minha quebrada’. Virou o ‘Melô do Bossa 1’. Isso foi no longínquo ano de 1986. Esse som era o maior sucesso desse baile e da região, porque era só lá que tocava.”

Brown nunca soube que a música era de Horace Andy por causa de um hábito antigo entre os DJs das equipes de baile: raspar o rótulo do vinil, para que os organizadores das festas concorrentes não descobrissem que som era aquele e, assim, a música se tornava um hit exclusivo de uma única equipe. Curiosamente, para o autor da música, o sucesso da faixa na periferia de São Paulo é uma surpresa. “Nunca alguém me falou que gostava dessa música, eu nem me lembrava dela”, comentou o artista durante o ensaio. Ou seja: o som jamais foi um hit nas festas de reggae e sequer frequentou os setlists dos shows do jamaicano. Acompanhado da banda Leões de Israel, ele teve de recorrer ao YouTube em seu celular para se lembrar da música e cantá-la para o rapper brasileiro. Horace Andy até convidou Brown para dar uma canja – ele, porém, timidamente recusou.

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O exemplo do improvável sucesso na periferia paulistana se soma ao imenso leque de proezas jamaicanas na música contemporânea mundial. Uma série de elementos popularizados nos ritmos eletrônicos e no hip hop surgiu nos estúdios e soundsystems (sistemas de som das festas de rua) da pequena ilha caribenha, nos anos 1970: o gênero dub trouxe efeitos digitais como ecos e delays, com técnicas inovadoras; o que hoje conhecemos como remix é algo tradicional na Jamaica há mais de quatro décadas, com versões normalmente instrumentais e que acrescentam outros elementos na regravação de uma determinada música; os chamados “mashups” também já rolavam por lá, uma vez que era normal uma mesma base ser reaproveitada em diversas gravações diferentes; a figura do MC (curiosamente, lá batizado como “deejay”) apareceu nas batalhas entre soundsystems; e até mesmo a manipulação do vinil no atrito contra a agulha do toca-discos em uma técnica conhecida como “rewind” é, de certa forma, um recurso parecido (embora bem mais rústico) com os chamados “scratches” associados ao rap.

Mano Brown deu seu palpite sobre o motivo de “Get Down” virar sucesso nas festas do Bossa 1. “Essa música dele se encaixou que nem uma luva no repertório do Bossa 1. Tem uma batida mais cadenciada, que combinava com os bailes de São Paulo nos anos 1980. E o refrão é bem marcante – o brasileiro gosta disso, aquele refrão que repete sempre”, disse. Antes de se despedir da reportagem, ele falou: “Fala pro velho caprichar nessa música no show, é importante”. A faixa, no entanto, não constou no repertório da apresentação – e, verdade seja dita, quase ninguém que estava ali sentiu falta.

Créditos

Imagem principal: Arte de Heitor Loureiro

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