por Nathalia Zaccaro

Bárbara Wagner usa a luz artificial para tirar das pessoas o que têm de mais original, linguagem que chamou a atenção de vários museus importantes do país para o seu trabalho

Na zona da mata pernambucana, a igreja católica, assim como no país todo, vem perdendo espaço para a evangélica, mais especificamente para a Assembleia de Deus. Os templos se tornaram alguns dos únicos espaços onde adolescentes da região têm acesso à música, dança, arte.

Essa transformação chamou a atenção da fotógrafa brasiliense Bárbara Wagner, que, desde 2014, volta seu olhar artístico para essa realidade. Entre novembro de 2016 e fevereiro deste ano, ela se misturou à cena de música evangélica local, mais especificamente na cidade de Palmares, e propôs aos jovens cantores e compositores a gravação de um curta musical. “Eles articulam muito bem a própria imagem, a própria representação, esse é nosso assunto.” O resultado dessa imersão é o documentário em curta-metragem Terremoto Santo parceria com o artista alemão Benjamin de Burca —, parte da mostra Corpo a corpo, que inaugurou a nova sede do Instituto Moreira Salles em São Paulo e segue em cartaz até 30 de dezembro.

No filme, os adolescentes se apresentam — cantam, dançam e pregam — em ambientes externos, misturando o discurso evangélico a natureza cheia de história da zona da mata pernambucana. “É tempo de despertar! Toquem as buzinas em Sião, anunciem aos povos, Jesus está voltando”, diz uma cantora-pastora no rádio nos primeiros minutos da obra.  

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Terremoto Santo explora com poesia, e com uma direção de fotografia autêntica, a cultura evangélica no país, um dos temas mais potentes e importantes do Brasil de 2017. “O que é a música pentecostal para quem vai a uma galeria de arte? Não existe pretensão de eliminar as diferenças, elas existem e são fundamentais, mas buscamos um olhar horizontal de compreensão do que esse outro é capaz de fazer e da força que existe ali.”

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O musical é a segunda incursão de Bárbara no universo evangélico. Em 2014, por encomenda da Magnum Photos, ela lançou a série Crentes e Pagadores, ensaio fotográfico em que investigou a relação entre o surgimento da “nova classe média” do país e a expansão das igrejas evangélicas. A percepção de que o neo-pentecostalismo se insere de forma direta na lógica imediatista de consumo e sugere soluções para questões mais ordinárias da vida, ao contrário do catolicismo, guiou a pesquisa da artista.

“Me impressiona a habilidade de Bárbara de mesclar a linguagem artística e jornalística de uma maneira criativa e sem preconceito”, diz Thyago Nogueira, curador do Instituo Moreira Salles, onde Bárbara está expondo, além de Terremoto Santo, uma galeria de retratos chamada A procura do 5º elemento, em que fotografou jovens que participaram de um concurso para se tornarem MCs. "Assim como os adolescentes evangélicos da zona da mata pernambucana, os aspirantes a funkeiros estão buscando maneiras de se posicionar socialmente por meio da imagem", compara a artista.

O trabalho da fotógrafa chamou atenção de diversas instituições este ano. Ela está em cartaz até janeiro no Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil com Faz que Vai, vídeo de 2015 em que quatro bailarinos misturam movimentos do frevo a outros ritmos contemporâneos como funk e electro – durante o festival, ela e seu parceiro Benjamin de Burca foram contemplados com o Prêmio de Aquisição Acervo Sesc de Arte. A obra agora integra o acervo de arte contemporânea da instituição. A dupla recebeu o valor de 25 mil reais.

No MAM carioca ela apresenta uma pequena retrospectiva que integra a exposição dos finalistas do prêmio Pipa. No Panorama de Arte Brasileira, em cartaz no MAM paulista até dezembro, Bárbara e Benjamin exibem Como se fosse verdade, trabalho gráfico em que entrevistaram pessoas em um terminal de ônibus e, a partir das respostas, construíram o que seriam capas de CD baseadas nos desejos dos entrevistados. Antes disso, o MASP já tinha comprado algumas fotos de Bárbara para sua coleção. Ou seja, ninguém quer tirar os olhos do trabalho desta brasiliense radicada em Recife.

Bárbara começou a conquistar seu espaço no mercado de arte nacional com Brasília teimosa. Durante dois anos, sempre aos domingos, ela foi até o bairro popular de Recife que deu nome ao ensaio e fez retratos em que começou a desenvolver seu interesse na maneira como as pessoas pensam e defendem suas imagens. “A forma como cada um escolhe se fazer visível é muito reveladora”, resume.

A estética ensolarada que marca o trabalho da fotógrafa revela uma tática cheia de significados: o uso do flash na luz natural. “O flash é um elemento que está ali marcando a bidimensionalidade da fotografia, mas mais do que isso ele dispara nas pessoas a vontade de performar e isso é muito poderoso”, explica. 

Créditos

Imagem principal: Bárbara Wagner/Divulgação

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