Débora Falabella: trabalhar para não pirar

por Redação

A atriz, que tem mantido uma produção artística intensa sem sair de casa, fala sobre trabalho, pandemia, envelhecimento e da satisfação de levar debates importantes para a televisão na série Aruanas

Uma das mais brilhantes atrizes de sua geração, a mineira Débora Falabella tem encarado uma quarentena produtiva em seu apartamento em São Paulo. Sem sair de casa, a atriz está produzindo, atuando e gravando as séries Cara Palavra, junto das atrizes Bianca Comparato, Mariana Ximenes e Andréia Horta; Se eu estivesse aí com seu companheiro Gustavo Vaz; e Depois a louca sou eu, em que interpreta a personagem do filme homônimo que deve estrear ainda este ano.

Entre um trabalho e outro, Débora contou à Trip como encontrou nessa rotina intensa de criação uma válvula de escape para não enlouquecer com as incertezas que vivemos em relação à pandemia e ao futuro do país. Ela fala também sobre o trabalho em Aruanas, série da Globoplay que trata da ameaça ao meio ambiente, e o gosto por defender uma causa através do audiovisual: "A TV junto de uma questão social é muito potente".

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Trip. Oito anos depois de ir ao ar, rolou agora o reprise de Avenida Brasil, novela na qual você foi uma das protagonistas e que foi um sucesso estrondoso. Como é assistir a esse trabalho agora? 

Débora Falabella. Eu acho muito mais legal ver depois de um tempo. No caso da Avenida Brasil, na época em que a gente gravou a novela eu estava tão envolvida que assistia de uma maneira mais crítica, para ver como que os personagens estavam se relacionando, para ver a atuação, se estava no tom ou não da novela. Agora posso ver um pouco mais de fora, com um certo distanciamento. Eu acho muito mais divertido ver depois de um tempo. Tem toda uma história que estava acontecendo naquela época, tanto no mundo, no país, como com a gente também, e eu acho interessante ver esses momentos que ficaram marcados na nossa vida através dos trabalhos. Os atores são um dos poucos profissionais que conseguem ter esses registros de imagem de uma época. Eu já relaxei a ponto de gostar de vê-los hoje em dia.

A gente vê que, de lá para cá, muita coisa mudou no meio da dramaturgia. Vemos agora a força do streaming, da internet, das séries. O que essa mudança representa para o artista? Na época de Avenida Brasil eu já enxergava a novela de uma maneira diferente. Mesmo sendo uma obra de teledramaturgia, ela tinha uma pegada mais parecida com as séries, e por isso fez sucesso. João Emanuel Carneiro, apesar de escrever uma história que durava meses, conseguia fazer capítulos que tinham começo, meio e fim, e com um gancho muito forte para o próximo episódio. Então eu já achava que essa novela tinha uma pegada um pouco diferente. Depois disso, eu fiz praticamente só séries. As séries na Globo também aumentaram de tamanho, surgiu a Globoplay. Fora isso a gente tem Amazon, HBO, Netflix. Acho isso saudável para todos, tanto para os atores quanto para as próprias emissoras, e a relação do ator com as empresas também vai mudar. Hoje em dia você consegue circular de uma forma mais tranquila, sem ter uma hegemonia. A própria Globo tem feito isso com as suas séries. Tem muita gente que faz série em outro lugar e volta para a Globo, tem contratos menores. As novelas também vão se modificando, ficando um pouco mais curtas. No Brasil a gente foi criado com uma cultura muito forte ligada à telenovela, então é algo que não vai acabar tão cedo, mas eu acho que elas vão se modificar um pouco.

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No ano passado você atuou na série Aruanas, uma produção para o streaming que acaba de ser veiculada também na TV aberta. É uma série que trata da questão ambiental e do massacre de povos indígenas. Para você, o que representa trabalhar nesse tipo de ficção, que envolve um ativismo? Como eu tenho uma vida muito ativa no teatro, quando eu faço um trabalho na TV que me desperta algo que eu também queira dizer no âmbito social é muito importante para mim. No teatro a gente faz isso. Eu tenho uma companhia e a gente escolhe os textos, a gente quer dizer algo. Nós somos artistas para isso também: para nos expressarmos e para ocupar algum lugar no mundo e fazer as pessoas enxergarem o mundo através da arte. Eu acho que Aruanas é tão impactante e importante por conta disso. Além de tratar de um assunto extremamente importante que não pode ser deixado de lado, ela tem um roteiro muito bom, uma dramaturgia muito boa e que leva essa história pra milhares de pessoas. Você estar dentro da casa de milhares de pessoas que não estavam habituadas a falar sobre ativismo ambiental é muito precioso, e falar disso através de personagens muito bem construídas, que também se conectam com o público. Quando a TV, o audiovisual, consegue juntar essas duas coisas eu acho muito potente, é o lugar onde eu gosto de trabalhar. Claro que fazer uma série que conte uma história e seja também entretenimento ocupa um lugar muito importante na vida das pessoas, porque a gente precisa disso, precisa de respiro, e a arte dá isso pra gente. Mas eu gosto muito dessa onda do audiovisual ligado a algum tipo de ativismo social. Eu fiz isso muito cedo, uma personagem que se chamava Mel [na novela O Clone], que falava sobre uma questão de dependência química. Claro que são assuntos completamente diferentes, mas a TV junto de uma questão social é muito potente.

Você está fazendo uma websérie junto do seu companheiro, Gustavo Vaz, na qual vocês produzem gravam e editam tudo juntos de casa. Como surgiu essa ideia e como está sendo fazer tudo só entre vocês? Esse projeto, chamado Se eu estivesse aí , foi algo que a gente começou a pensar no início da pandemia, de uma forma um pouco despretensiosa, para fazer um trabalho juntos. Eu já estava gravando a segunda temporada de Aruanas, o Gustavo estava apresentando uma peça no Canadá, mas teve que voltar antes por conta da pandemia. A gente se viu com uma vontade de, além de nos ocuparmos criativamente, gerar algum tipo de conteúdo durante esse período. E o Gustavo trabalha muito na companhia dele com o áudio binaural, que é o áudio 3D e que dá a sensação de presença física. A gente juntou essa questão do áudio com imagens e criou uma série dentro de casa, só os dois, um trampo enorme porque a gente teve que exercer determinadas funções que a gente não exerce. A gente faz as vezes de toda uma equipe. Como é importante ter uma equipe com a gente durante uma gravação! Mas foi a maneira que a gente teve de fazer esse trabalho, que tem exibição no site do Gshow e também nas nossas redes sociais. É um trabalho muito diferente do que eu já tinha feito. E estar ocupado criativamente, desenvolvendo um trabalho, é um lugar mais saudável do que se a gente não estivesse fazendo nada, porque tá difícil. Claro que tem dias muito piores do que outros, mas eu acho que o trabalho nos movimenta, em todos os aspectos, e acho que é imprescindível continuar ativamente em algo.

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Como você tem encarado esse momento da pandemia e lidado com a incerteza do que vai ser o mundo depois que ela passar? A gente lida com incertezas durante a nossa vida inteira, mas uma incerteza geral e mundial eu nunca tinha presenciado. Acho que é o que acontece em guerras também. Eu tento ter uma visão otimista, de esperar que a gente aprenda algo com o que a gente está vivendo agora. Mas, ao mesmo tempo, me assusta muito o país em que a gente está vivendo e como a gente está lidando com isso. Por mais que eu tenha essa visão otimista, de esperar que depois que tudo isso passar a gente aprenda algo, que a gente consiga seguir em frente com mais cuidado com os nossos e com a vida no planeta, ao mesmo tempo eu tenho uma insegurança enorme que me faz ficar ali do outro lado, o lado do desespero, desses momentos difíceis, do país estar lidando com isso dessa forma. A gente vê coisas acontecendo e a gente acha que as coisas vão se resolver e elas ficam na mesma. As pessoas agora estão voltando às ruas e o número de mortos continua aumentando. É meio desesperador, tem uma hora que fica complicado mesmo você ser otimista, por mais que queira. Apesar de toda a vontade de ver isso com uma certa esperança de que a gente saia melhor dessa, eu não sei o que vai acontecer. Essa insegurança é global, mundial, mas aqui no Brasil tá puxada mesmo, pesada.

Como é você imagina o pós-pandemia? Que panorama você gostaria de ver? Principalmente falando do nosso país, gostaria que a gente tentasse compreender e entender um pouco mais o abismo social no qual vivemos. É um país muito desigual, a gente bate cabeça o tempo inteiro, e eu acho que esse abismo está muito mais forte para todo mundo. Mas eu espero que a gente consiga um pouco mais de igualdade nesse sentido, e também consiga enxergar e entender como construir algumas pontes para esses abismos diminuírem um pouco.

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Em uma entrevista em 2016 para a Trip você reivindicava o direito das mulheres envelhecerem. Agora você está com 41 anos. A chegada aos 40 mudou em alguma coisa a sua percepção, o seu sentimento em relação a isso? Talvez 10 anos atrás me assustasse fazer 40, mas hoje em dia realmente eu não vejo muito esse lugar. As mulheres estão muito fortalecidas, não acho que enxerguem isso como um caminho para um outro momento, ou pra um lugar em que elas tenham que ser diferentes. Pelo contrário. Hoje em dia, a liberdade que se tem e a vontade de continuar sendo do jeito que se quer ser com 40 anos, ela é enorme, a gente alcançou isso. Fazer 40 nessa época em que a gente está, pra mim, tem sido extremamente saudável. E ao mesmo tempo o que eu acho que eu ganho é uma tranquilidade em relação à vida, ao trabalho, às coisas que eu já fiz, uma ansiedade um pouco menor e uma vontade de experimentar coisas que não tenha experimentado. Eu estou com mais vontade de ir para outros caminhos, tenho mais possibilidades. Isso talvez seja algo que a gente ganhe, uma atriz com 40 que tem papéis muito melhores e isso me deixa num lugar de uma atividade forte, me deixa pulsante em relação a isso. Eu não vi os 40 como um momento de crise, eu enxerguei como um momento de mudança mais pelo número, e pelo que isso representa. Talvez como um ritual de uma passagem para uma vida um pouco mais adulta. Mas em nenhum momento acredito que eu tenha que agora me privar de algo, ou que algo vai acontecer de muito diferente em mim, ou no meu corpo, no meu rosto, no meu pensamento. Eu me sinto até com uma cabeça um pouco mais jovem, no sentido de estar mais aberta a algumas coisas do que eu estava a 10 anos atrás.

Falando de Aruanas, como foi gravar na Amazônia? A primeira cena que gravei foi a cena do massacre indígena. Foi muito impactante. Primeiro porque a gente chegou em Manaus, pegamos um barco e fomos para esse lugar que era também uma aldeia onde os personagens e os atores indígenas estavam ali maquiados e prontos para aquela situação horrível relacionada a esse massacre. E esse calor, esse lugar que é realmente diferente na maneira como você lida com o clima. Tem uma hora que a gente entende e se acostuma um pouco. Mas, no primeiro momento, ele realmente é assustador, é abafado. Eu já tinha ido para Amazônia há um tempo, fui com a minha filha. E começo a gostar desse clima, não é uma coisa que me incomoda. Claro que tem hora que é um calor insuportável, mas eu me sinto bem ali. É impressionante como é forte a presença da natureza, como a gente fica tomado por aquilo. E gravar no lugar, no ambiente do qual você está falando sobre, é muito importante também para o ator entender. A gente gravava cenas depois em São Paulo como se fosse na Amazônia e tinha que ficar todo suado, passar maquiagem, num frio de 14 graus.

Como é para você fazer cenas difíceis? Uma frustração, um massacre, uma tristeza. Você precisa recorrer a memórias pessoais? Isso vai de ator para ator. Tem muitos momentos da vida de um ator que ele precisa buscar algo nas suas memórias para viver determinadas cenas. Mas eu acho que, hoje em dia, eu consigo separar mais as coisas e embarcar mais na história, principalmente quando tem um roteiro muito bom, uma personagem que é bem construída. Você está junto dela, anda com ela de mão dada e na hora que ela sofre você sofre também. Fora a troca que você tem com o outro ator em cena. Quando você tem um ator que também joga com você, que te ajuda a embarcar naquela história e viver aquele momento, é imprescindível. 

Além das telas e dos palcos você agora também é uma atriz das redes sociais. Queria que você contasse um pouco sobre essas séries que você está fazendo durante quarentena, Cara Palavra, Se Eu Estivesse Aí e Depois a Louca Sou Eu. As três coisas foram surgindo juntas. A série Depois a Louca Sou Eu começou com uma  ideia de fazer os vídeos dessa personagem super rica, que sofre de ansiedade. Ela tem muitas nuances interessantes para se explorar. E o filme [Depois a Louca Sou Eu] teve o lançamento adiado, então foi uma forma de continuar falando disso, falando de cinema, através das redes sociais. Foi muito legal o resultado, e o que teve de retorno. O Cara Palavra é um projeto com três atrizes queridas e amigas, Andréia Horta, Bianca Comparato e Mariana Ximenes, e surgiu de uma ideia de trabalhar juntas anteriormente. A gente pegou textos para interpretá-los durante esse período e tem vídeos muito legais que a gente tem produzido e feito cada uma da sua casa. E Se Eu Estivesse Aí é essa série que eu faço com o Gustavo aqui dentro de casa. Arrumei essas encrencas, mas eu acho que sem elas eu estaria muito pior, não estaria bem para passar por tudo isso. A gente precisa continuar querendo dizer, querendo estar ativo no nosso trabalho, principalmente os artistas. Está todo mundo sem previsão. Como que a gente vai voltar, quando? Os teatros vão reabrir? Acho que a última coisa que vai voltar é cinema e teatro, lugares onde se aglomeram pessoas. E vivemos num país que não dá uma importância tão grande para a cultura, infelizmente, então não vai ter um pensamento para essa volta tão cedo. Eu fico vendo nas redes sociais os artistas se movimentando e isso me enche de alegria. Uma das grandes coisas que eu tinha vontade era fazer uso da rede social de uma forma ligada à dramaturgia, com algo que pudesse ser encenado. E, nesse momento, acabei aprendendo quase que obrigada, teve esse lado bom. Vejo as pessoas usando as redes sociais de uma maneira um pouco mais interessante nesse momento.

Você está à frente do grupo 3 de teatro, que tem 15 anos. Como ficou a situação desse grupo com essa paralisação? A gente tem um núcleo de criação, são poucas pessoas, mas tem uma estrutura de trabalho que a gente precisa manter. Até porque tem pessoas que trabalham com a gente, que fazem os projetos e essas pessoas ainda estão ali junto da gente. Temos tentado sobreviver em meio a esse caos. Depois que isso passar, apesar de achar que vai demorar a voltar, a gente vai ter que entender outras formas de chegar no público.

A pandemia levou muita gente pra cozinha também, com a impossibilidade de sair para comer fora, e também como uma forma de se distrair e se cuidar. Como tem sido isso para você? Eu gosto de comer coisas saudáveis, orgânicas. Tenho tentado diminuir um pouco o consumo de carne. Tenho cozinhado aqui. Em princípio me empolguei, inventava pratos, mas agora já cheguei na parte que cansei. Uma coisa é a gente cozinhar quando está com vontade, outra é cozinhar no dia a dia. Mas tenho filha em casa, tem que ser uma alimentação balanceada e saudável.

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A gente viu que cresceu muito o volume de doações no Brasil após a Covid-19. Como é a sua relação com o dinheiro, e mudou alguma coisa nessa relação nesse período de pandemia? Dentro de casa, sem sair, sem comprar coisas para o nosso divertimento, a gente tem notado muitas coisas das quais a gente não precisa. Muda a relação com o que é realmente necessário. Eu nunca fui uma pessoa muito consumista. Minha relação com o dinheiro estava muito mais ligada às coisas básicas que eu tinha que ter na minha vida, na escola que a minha filha estudava, as pessoas que trabalhavam comigo. Mas a relação com dinheiro, de coisas maiores, eu nunca tive. Gostei sempre de viajar, mas nunca tive uma relação não-saudável com o dinheiro. A gente tem percebido o que realmente é essencial, tem coisas nem usamos mais, coisas que a gente esqueceu. E é muito louco que a gente parou de manipular o próprio dinheiro. O que a gente pede para entregar a gente paga com uma transferência, não estamos mais na rua lidando com isso. É um momento bem estranho. Eu sempre economizei o que eu pude e sempre estive ligada a alguns movimentos que eu achava importantes. Acho que agora isso foi potencializado, muitas pessoas estão mais ligadas a esses movimentos e esse dinheiro está chegando nesses lugares. A relação mudou mesmo e espero que também seja algo que as pessoas pensem de uma forma mais saudável. Essa relação que a gente tem com consumo, com capitalismo, eu acho que também não estava nem um pouco saudável. 

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