por Giuliana Mesquita

Desfiles como o de Isaac Silva, que trazem verdade e luta para as passarelas, foram destaque na SPFW. Mas nem todos seguiram essa lógica

A moda de passarela, em sua melhor versão, é catalisadora de seus tempos. Há desfiles que refletem e colocam em roupas e histórias o que está acontecendo no mundo em âmbitos políticos, sociais e comportamentais – esse é o jeito mais interessante de analisar um desfile. Na São Paulo Fashion Week N48, que rolou neste mês, muitos dos problemas mundiais foram colocados em pauta de formas verdadeiras e emocionantes, mas, em alguns casos, algumas questões contemporâneas acabaram ficando esvaziadas. Olha só o que mais chamou a atenção durante o SPFW nos destaques aqui embaixo:

Verdades ancestrais

O destaque da semana com certeza foi a estreia de Isaac Silva, estilista baiano que desfilou sua moda ancestral na sexta-feira. Para sua primeira apresentação no SPFW, ele escolheu deixar de lado as cores alegres que marcaram sua história para criar uma narrativa toda em branco. “Estamos passando por um momento difícil no Brasil e é obrigação de todo mundo que usufrui de um palco como a São Paulo Fashion Week falar sobre isso. O branco representa guerra e funeral para as religiões afro-brasileiras. Eu não via sentido em fazer uma coleção colorida e alegre em um momento como esse”, explicou Isaac no backstage.

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É preciso entender a importância de ter um estilista negro que não nega nem maquia suas origens, e, sim, as celebra na maior semana de moda da América Latina. “Sempre sonhei em ser estilista, mas o mercado de moda não me recebeu bem. Então, tive que criar minha própria marca e, agora que estou aqui, trouxe muitas pessoas que sempre sonharam em participar do evento comigo”, conta.

Seu desfile é, mais do que um vai-e-vém de roupas, um manifesto político. A diversidade de  modelos negros trans, gordos e baixos escolhida por Silva é essencial para mostrar que sua moda é feita para aqueles que não são aceitos pela sociedade sem um pedágio de preconceito. Colocar diferentes tipos de corpo e tons de pele na passarela sem ranço oportunista é difícil, mas tudo ali pareceu natural. Há força em seus desfiles como nas escolhas de sua moda. A renda richelieu, escolhida para os vestidos do primeiro bloco, era usada pelas mulheres negras para confeccionar suas roupas enquanto suas patroas brancas usavam a renda francesa. Os búzios, hoje usados como acessório de moda, eram moeda de troca e carregados como símbolo de proteção. Tudo é pensado, estudado e, mais importante, sentido por Isaac na pele antes de ser colocado na passarela.

 

Sustentabilidade: moda ou compromisso?

Essa sensação de verdade foi artigo raro e difícil de encontrar na SPFW. Abrindo o evento, a Ellus volta às passarelas com uma manifestação sustentável a favor da Amazônia, mas sem apresentar iniciativas concretas para diminuir seu impacto ambiental. Focada em jeanswear, uma das indústrias mais poluentes da moda, a marca continua a produzir o denim de forma clássica – sem oferecer uma alternativa para essa prática com tanto desperdício – tornando seu protesto leviano frente ao problema real.

Novas marcas, novos ares

No entanto, a sustentabilidade não apareceu somente de forma maquiada durante o SPFW. Na Beira, Lívia Campos olhou para seu estoque para encontrar os tecidos que usaria nessa coleção e criou um linho tingido que emula um jeans. Na Korshi 01, o estilista Pedro Korshi não apresentou nenhuma peça do zero: tudo o que foi colocado na passarela já esteve ali. Sua moda modular mostra que uma peça pode ser várias: a bermuda vira calça, o macacão vira vestido, o top vira saia, que vira corset. Já na Aluf, os tecidos sustentáveis são a base da moda da estilista Ana Luísa Fernandes, que reciclou o plástico que jogaria fora durante um ano e criou peças transparentes que cruzaram sua passarela, além do vidro reciclado que foi transformado em brincos e fivelas de cinto. De uma forma ou de outra, as iniciativas sustentáveis apareceram principalmente nas marcas menores e independentes.

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Em sua versão mais enxuta com apenas 26 desfiles e ainda na ressaca da morte do modelo Tales Cotta na última edição, a São Paulo Fashion Week busca nos novos nomes da moda brasileira uma forma de se reinventar e trazer relevância para o evento. Em tempos em que repensar os hábitos de consumo é essencial, fica cada vez mais evidente que se destacam as marcas que falam com verdade, levando em consideração seu público, seu entorno e o que está acontecendo no Brasil e no mundo.

 

 

 

Créditos

Imagem principal: Marcelo Soubhia/Fotosite

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