por Luisa Alcantara e Silva

A trajetória de João W. Nery, primeiro homem trans a fazer uma cirurgia de readequação sexual no Brasil, é contada em dois livros recém-lançados

"Continuem a luta por nossos direitos, se unam, não oprimam os nossos irmãos", escreveu o psicólogo, escritor e ativista LGBT+ João W. Nery, em seu Facebook, um mês e meio antes de morrer de câncer, em outubro passado. Agora, um ano após sua morte, dois livros que chegam às livrarias e plataformas digitais contam sobre essa batalha – que muito se deve a ele.

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Nery foi o primeiro homem trans a se submeter a uma cirurgia de readequação sexual no Brasil, em 1977, quando havia pouquíssimas informações sobre o procedimento. E foi o primeiro a publicar essa história, abrindo caminho para outras pessoas transgêneros.

Os detalhes – e as dificuldades – estão na obra Viagem solitária - A trajetória pioneira de um transexual em busca de reconhecimento e liberdade, escrito em 2011 e relançado pela editora Leya. "João era uma força combativa grande, e sabia que ajudava muitas minorias com sua atuação", conta a museóloga Sheila Salewski, 59 anos, viúva do escritor. Companheira de Nery em seus últimos 22 anos, Sheila ainda chora ao falar do marido. "Ele era um homem muito sensível, e fico triste por ele ter ido assim, com 68 anos. Ele queria continuar a luta." 

A obra conta a história de João, desde sua infância como Joana até a maturidade de seu  filho, passando por momentos complicados, como quando começou a perceber que não estava no corpo adequado, ou quando, aos 16, cansado de tanta rejeição, tentou ser mulher, já que todos queriam que ele seguisse esse papel. Nery também mergulha em temas como a menstruação, apelidada de "monstruação", e narra em detalhes o momento em que decidiu abrir mão da carreira de professor universitário no Rio de Janeiro, que não o aceitaria como homem, para fazer sua transição. No capítulo "O primeiro aventureiro", sabemos da epopeia que ele e sua companheira na época viveram. Era 1977 e, em plena ditadura militar, a cirurgia, que não existia oficialmente no Brasil, foi feita às escondidas. "Havia a sensação de estarmos ilhados. Não podíamos comunicar a ninguém onde estávamos", ele escreve.

Dividido em quatro partes (Desencontros, Descobertas, Metamorfose e Paternidade), o livro emociona quando o carioca conta como se tornou pai   – "Lola estava realmente grávida! Fiquei na maior felicidade, mesmo sem saber qual seria meu lugar nessa paternidade". E continua tocando o leitor ao narrar o que ele viveu nesse papel. São especiais as passagens em que conta ao filho que não é seu progenitor e quando a mãe e ex-mulher, quebrando um acordo, diz ao filho: "Seu pai já foi mulher". Assim, cheio de reviravoltas, o livro é uma história de coragem e pioneirismo.

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Em Velhice transviada, lançado pela editora Objetiva, João continua desenvolvendo a narrativa de sua vida. "Falar da velhice é complicado, sobretudo quando ela é transviada". Isso porque, ele explica em seguida, muitos transgêneros somem do mundo após terminarem suas transições, mudando de nome e até de cidade. "A diferença fundamental em relação aos cisgêneros é que morremos, muitas das vezes, pela nossa identidade, pelo que somos. Não só de bala perdida, mas sobretudo de bala bem dirigida", escreve, informando que a estimativa de vida de um travesti no Brasil é de 35 anos.

Para entrar nesse universo da idade avançada, João conta de seu primeiro contato com a velhice foi aos 7 anos. Foi em uma viagem para o nordeste para visitar o avô, que não gostava de ser chamado de "vovô" por ter horror de ser visto como velho, como lhe contou a mãe. E segue revelando como foi se descobrindo, sem entrar em detalhes já narrados em Viagem solitária, até descobrir o câncer. Estão ali situações de preconceito, como quando foi fazer um exame e o anestesista perguntou qual era seu nome antigo depois de ficar sabendo que ele era trans por conta das cicatrizes no corpo. Assim, entre passagens de preconceito, o processo de envelhecimento está sempre presente – seja no trecho "Sentia minha dignidade cada vez mais abalada" ou em "De uma só vez, todos os pelos do meu corpo caíram, inclusive os pentelhos. E foram 40 anos de hormonização para consegui-los".

Na segunda parte da obra, Nery traz nove entrevistas que fez com pessoas transgêneras. Destas, seis são com mulheres (as "transidosas"), que foram mais receptivas para falar, como conta o escritor. Mas negaram alguns detalhes, como a idade. Há a história de Anyky, que, expulsa de casa aos 12 anos, logo se prostituiu. Ou do homem que fez a transição aos 48 anos e se deu de presente de 70 uma experiência com uma prostituta. Era seu sonho de adolescente fazer isso sem ser descoberto como trans, e ele conseguiu usando uma prótese, já que "não era doido de ir trepar 'desapetrechado'". Para fechar os depoimentos, João publica uma texto que Márcia Rocha, amiga e primeira advogada trans do Brasil, lhe enviou. Sabendo da doença terminal de Nery, ela faz um comovente depoimento sobre a morte, falando sobre a vida. "A compreensão da minha transgeneridade, aliada a essas sensações da efemeridade da vida e necessidade de seguir em frente, foram as responsáveis pela minha 'coragem' ao me assumir aos 45 anos, colocando em risco tudo o que construí. Há riscos em tudo o que fazemos", Márcia escreve.

E foi assim, com uma vida cheia de riscos, que Nery construiu sua trajetória. Importante símbolo nessa luta, ele dá nome a um projeto de lei que garante o direito de reconhecimento de todos os trans do país sem a necessidade de autorização judicial outras exigências. Ao mostrar sua história, desmistificando as pessoas trans com os livros Viagem solitária e Velhice transviada, o ativista segue seu próprio conselho: "Continuem a luta por nossos direitos, se unam, não oprimam os nossos irmãos".

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