por Lia Hama
Trip #262

Aos 22 anos, a cantora Gloria Groove mistura rap com o universo drag queen, subverte os conceitos de masculino e feminino, esbanja autoestima e dá o recado: “Eu vim pra ficar”

"Eu não ligo quando me chamam de ele, mas vou gostar muito mais se me chamarem de ela. Porque, afinal, levo bastante tempo pra me tornar ela”, explica Gloria Groove. A drag queen faz sozinha sua maquiagem (“aprendi em tutoriais do YouTube”), encaixa a peruca de cabelo loiro platinado e cacheado (“Beyoncé é uma referência”), coloca as unhas e os cílios postiços, veste a calcinha hot pant ao contrário (“a parte de trás eu uso na frente, pra segurar a barriga”), a meia arrastão, o vestido cheio de brilho e sobe, poderosa, no salto alto. 

Aos 22 anos, Gloria Groove é uma mistura improvável do rap, um universo predominantemente masculino e machista, com o imaginário colorido e cintilante das drag queens. Nascida como Daniel Garcia e criada na Vila Formosa, zona leste de São Paulo, a drag rapper lançou este mês seu primeiro álbum: O proceder, com oito faixas de trap (gênero que mistura rap com batidas eletrônicas), a maioria de sua autoria. Diferentemente de outras drag queens, ela canta de verdade – não faz lip sync –, e, nas letras de tom autobiográfico, fala de militância LGBT, cultura drag e autoestima.

“Gloria foi maravilhosa em todos os números que fez. Tem humor, carisma e aquela potência de voz ”
Fernanda Lima

“Sou a Gloria Groove do Brasil/ eu vim pra ficar/ Contar a história da mina que mudou tudo/ que veio da zona leste pra virar dona do mundo/ Eu sou a dona, dona da festa toda/ dona, dona da porra toda”, canta, sem falsa modéstia, no hit “Dona”, cujo videoclipe lançado em março de 2016 no YouTube teve mais de 1,7 milhão de visualizações até agora.   

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Há cerca de um ano Gloria chamou a atenção na televisão, ao participar do programa Amor & sexo, da Globo. “Havia um quadro chamado 'Bishow', no qual três bofes tinham o desafio de se transformarem em drag queens com a ajuda de madrinhas. Eu era uma das madrinhas e o meu afilhado, Cláudio Lima, foi o vencedor do concurso”, conta a rapper,  que foi convidada para participar este mês da nova temporada do programa de Fernanda Lima. A apresentadora faz elogios à drag: “Gloria foi maravilhosa em todos os números que fez. Tem humor, carisma e aquela potência de voz. Temos muito orgulho de ter feito esse quadro, que trata de temas que precisam ser discutidos, como homofobia e transfobia”.

Nasce uma estrela
Criada numa família de artistas – a mãe, Gina Garcia, é backing vocal do grupo de pagode Raça Negra e os avós maternos eram artistas de circo –, Gloria começou cedo sua trajetória em frente às câmeras. Aos 6 anos, ainda como Daniel, fazia comerciais de salgadinhos Elma Chips. Dos 7 aos 9, participou de uma das formações do grupo musical infantil Balão Mágico. Aos 10, fez parte dos jovens talentos do Programa do Raul Gil e, aos 11, foi ator mirim da novela Bicho do mato, da Record. Também dublou Justin Bieber no documentário Never say never (2011). Mas foi só aos 18 anos, quando participou de uma montagem independente do espetáculo musical Hair, que Daniel descobriu o que chama de seu “melhor eu”.

“As coisas teriam sido mais fáceis se eu tivesse tido uma Gloria Groove em quem me espelhar. ”
Gloria Groove

Produto da contracultura hippie dos anos 60, a peça Hair, dos dramaturgos americanos James Rado e Gerome Ragni, fala sobre liberdade, sexualidade e faz uma crítica aos valores da sociedade conservadora da época. “Aquilo foi uma libertação pra mim. Com 14 anos eu já tinha assumido ser gay para minha família, mas continuei me vestindo como homem, mesmo sem nunca ter me identificado com a estética masculina. Com a peça, percebi que poderia me vestir como eu quisesse. Foi então que nasceu a Gloria Groove, cheia de glamour.” O nome soma a louvação da igreja evangélica frequentada até a adolescência com o ritmo da música negra americana dos anos 70.  

Fora da caixinha
Gloria conta que sempre se sentiu diferente dos primos e dos colegas de escola e era vítima constante de bullying. “Eu era a bichinha da turma. As coisas teriam sido mais fáceis se eu tivesse tido uma Gloria Groove em quem me espelhar. Não me sentiria tão sozinha”, conta a drag, que sonha em ser um exemplo para outros garotos gays afeminados da periferia, com seu discurso de autoafirmação.

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Há dois anos, a drag namora o professor de artes Pedro, que foi o diretor de arte dos videoclipes das músicas “Dona” e “Império”, este último lançado em outubro. Da zona leste mudou-se para um apartamento no centro da cidade. Fugindo de todo e qualquer rótulo, Gloria não descarta a possibilidade de, no futuro, voltar a se vestir apenas como homem ou até mesmo de se apaixonar por uma mulher. “A cada momento descubro novas camadas dentro de mim. Me sinto como uma massa de modelar e deixo as coisas fluírem. O importante é seguir sendo autêntica, sendo ele ou sendo ela.”   

Com reportagem de Gregory Prudenciano

Assista entrevista com Gloria Groove ao Trip TV:

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Créditos

Foto principal: Pablo Saborido

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