por Caio Ferreti
Trip #211

Do fotojornalismo para as galerias de arte, conheça o trabalho de Enrique Metinides

Essas fotos são do mexicano Enrique Metinides. Ele passou a vida perseguindo desastres para as páginas do jornal La Prensa. Décadas depois, seu olhar inconfundível levou o fotojornalismo para as galerias de arte

“Fui a milhares de acidentes”, diz, com orgulho, Enrique Metinides, sem medo de estar inflacionando os números. “Quase virei perito. Em geral, só de ver, eu já sabia quem era o responsável.” Desde os 11 anos, quando ganhou a primeira câmera do pai, Enrique é figura constante diante dos montes de ferro retorcido nas ruas. Tornou-se o maior repórter fotográfico policial do México. Suas imagens ilustraram por décadas as páginas do jornal La Prensa. Depois de sua aposentadoria, nos anos 1990, passaram também a ocupar galerias de arte. A edição mais recente da revista de fotografia Zum, publicada pelo Instituto Moreira Salles, destacou seu trabalho.

O gosto de Enrique por acidentes vem de sua infância. Adorava ir ao cinema ver filmes cheios de perseguições policiais e trombadas. Hoje, aos 78 anos, ainda é fissurado por filmes de ação, gosta de acompanhar as notícias policiais na TV e cultiva uma grande coleção de carrinhos de bombeiros, ambulâncias e viaturas, com os quais remonta as cenas de alguns acidentes. E, sempre que tem a oportunidade, empunha sua câmera para registrar as batidas que acontecem perto de sua casa. Mas apenas como hobby, como conta na entrevista a seguir.

Nas suas fotos tem sempre muita gente olhando as batidas. As pessoas gostam de ver acidentes?
Eu os chamo de “mirones” (algo como “olheiros”). Além de olharem o acidente, por curiosidade ou por interesse na desgraça, eles gostavam de sair nas fotos. Se você reparar, muitos até posam e olham fixamente para a câmera para sair bem. Eles subiam nos caminhões e nos carros batidos para ajudar, mas também para sair nas fotos.

E o que você acha disso?
Pessoalmente gosto bastante das fotos em que aparecem os “mirones”. Se você olhar os rostos deles verá que expressam tantas coisas... Chamava-me muito a atenção como eles se angustiavam com os feridos.

O sucesso das suas imagens também passa pelo gosto das pessoas em ver acidentes, já que muita gente compra suas fotos para fazer quadros, não é?
Sim, existem colecionadores que gostam de fotos de batidas e compram várias imagens minhas. Isso me faz pensar que eles gostam da forma como tirei a foto. O ângulo que eu fazia era especial.

Depois de ver tantos acidentes, você tem medo do trânsito?
Já faz muitos anos que deixei de dirigir, o trânsito está muito intenso e as pessoas não trafegam com precaução. Quando eu trabalhava sofri mais de 25 acidentes entre batidas e capotamentos em viaturas, ambulâncias e caminhões de bombeiro em que eu viajava para cobrir as notícias. Inclusive fui atropelado duas vezes.

E a comparação de carros com armas?
Considero quem dirige muito valente, principalmente no meu país. Estatísticas mostram que a maioria dos motoristas usa seus veículos para extravasar sua raiva do dia, descontando em pedestres, ciclistas, motociclistas, buzinando... Assim, o carro vira uma arma, já que por um descuido pode-se causar um acidente grave.

Hoje, aposentado, você ainda procura batidas para fotografar?
Tenho tirado fotos de acidentes somente quando são próximos de onde vivo. Quando acontece, eu chamo o socorro e subo no telhado da minha casa para fazer as fotos. Depois, guardo para mim.

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