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VOCÊ É UM ANIMAL

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Qualquer um que trabalha passa por isso, em maior ou menor medida. São os chamados compromissos. Obrigações assumidas contra a sua vontade. Dizem até que o stress negativo, aquele que corrói vísceras e faz alegria da medicina ortomolecular, é fruto não do excesso de atribuições ou do corre-corre, mas única e exclusivamente das atividades feitas contra sua própria natureza e as leis do prazer.
Não como carne há muitos anos, mesmo assim aceitei um churrasco na sede da empresa de um cliente em plena quinta-feira à noite. Clássico evento que não me pega. Desta vez não houve escapatória. Além da amizade pelo cliente, era um momento profissional em que não havia chance de dizer não. Minha presença à beira da grelha seria fundamental e indispensável.
Oito da noite. Saio do último compromisso formal do dia. A Avenida Paulista está bombando. Os bares das calçadas cheios de homens enchendo os buchos de chopp, pedaços de linguiça, batatas fritas e outros venenos, pareciam uma prévia do ambiente que me esperava. Na contra-mão do que me dizia a consciência, ouvi a fala da razão e segui para o Paraíso. Ao menos o nome do bairro era mais sugestivo que a cena que me aguardava.
Cheguei. Previsões confirmadas. Num quintal grande da casa, uns vinte ou trinta marmanjos reunidos em torno da grelha. Agrupavam-se em rodas de quatro ou cinco. Felizmente fazia frio, o que tornava o ambiente um pouco menos oleoso.
Recepção calorosa pelo anfitrião, apresentações de praxe, sou colocado numa das rodas.O assunto, corridas de automóveis. Fórmula Indy, eu acho. O Boesel está acabado, o Cristhian isso, o Emerson aquilo, o Bob Rahal (acho que é assim que se escreve, mas fala-se Reirál) aquilo outro. Enquanto os pilotos frustados formulavam suas teses, pude olhar em volta e constatar a duríssima realidade. Nenhuma mulher num raio de um quilômetro. Não que estivesse procurando ou que esperasse que a Valéria Mazza saísse de biquíni de trás de uma das pilhas de garrafas de cerveja. Apenas em nome do equilíbrio químico e dos bons fluidos, esperava que houvesse pelo menos uma ou duas mulheres para aplacar aquele desequílibrio berrante. Nada. Nem uma faxineira que fosse. Apenas homens. Altos, baixos, gordos, magros, carecas, cabeludos, todas as modalidades físicas. Incrível o fenômeno que se dá quando se reúne um bando de machos de uma mesa espécie. Há uma espécie de regressão automática. Liberam-se os idiotas que adormecem dentro de empresários competentes e honestos. Despertam os boçais que repousam no interior dos pais de família exemplares, acordam os ogros que cochilam de senhores educados. A reunião transforma-se rapidamente numa profusão de risos grosseiros e tensos, piadas sujas, preconceitos afloram, fala-se de mulheres de um jeito escroto, come-se demais, bebe-se um exagero. Uma regressão quase visível que torna fácil imaginar caras de mais de trinta anos encolhendo, vendo suas calças se transformando em bermudas, suas botas de couro em botinas ortopédicas e seus celurares em pirulitos.
Enquanto ouvia as conversas que gravitavam entre Harley-Davidsons, Ultimate Fights, as coxas da Letícia Spiller, me vinha em quadro a imagem do bando de chimpazés que vi há uns dois anos no Kruger Park, uma reserva natural de vida selvagem cravada na África do Sul.
Havia uns trinta animais e, mesmo guardando certa distância, era fácil distinguir machos e fêmeas. Os machos deixavam o acampamento em grupos de quatro ou cinco. Saiam andando meio em zigue-zague, sem rumo definido, fazendo uma espécie de levantamento das novidades, pesquisando cantinhos do mato, cheirando frutos, apalpando e cheirando fêmeas diferentes que cruzavam pelo caminho. De quando em quando interrompiam a caminhada e um aplicava um tapão ou um empurrão sobre o companheiro mais próximo. Se enrolavam numa falsa briga de 15 segundos e retomavam a caminhada. Se pudessemos ouví-los e entedê-los, certamente teríamos os últimos resultados da luta entre Dan Severn e Mark Coleman ou opiniões desencontradas sobre a Fórmula-1. As fêmeas, enquanto isso, ficavam perto do ninho. Em grupos de seis ou sete, cada qual com seu filhote nos braços, olhavam atentas em volta, farejando qualquer perigo iminente. Como não havia nenhum, relaxavam e punham-se a catar piolhos nas cabeças de seus filhotes, enquanto comunicavam-se descontraidamente. Sobre o que estariam falando? Combinando a compra de um apart-grill para fazer churrascos em seu próprio apartamento ou estariam comentando a capa de Caras desta semana com Abílio Diniz fazendo ginástica. Somos todos uns animais.

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