Estava voltando para casa de ônibus, maior trânsito ferrado, quando observei, na calçada, uma rapaziada de costas, braços erguidos, em um paredão. Era uma blitz policial. O clima estava no máximo grau de tensão. Os soldados apontavam armas embaladas para os jovens. Provavelmente efetuavam identificação, mas aquilo mais parecia guerra. Deixava a impressão de que tudo explodiria de uma hora para a outra. De repente, Paulinha, uma linda e hiperativa garotinha de três anos sentada no banco do ônibus à minha frente, perguntou alto: “É ‘gospe’, pai? Estão todos louvando ao papai do céu?”. A tensão dentro do coletivo rendeu-se ao inevitável e escorregou para o piso de alumínio. Acho que só os pais não riram. Estavam preocupados em explicar o evidente. A menininha estava acostumada a freqüentar igreja gospel e tudo ali lhe pareceu semelhante.
Conheço a menina e seus pais, são vizinhos aqui de casa. Paulinha é uma graça sem tamanho, mas não foi aí que mais pegou. Quando a mãe procurou contê-la, já que ela queria passear no ônibus, a garota esperneou, tentando escapar do abraço forçado da mãe. Como não conseguia escapar, de repente ela me sai com outra: “Você é violenta. Precisa se tratar, viu?”, parecia confrontar a mãe, e com a maior seriedade do mundo. Claro que todo mundo riu novamente.
Eu, como não poderia deixar de ser, sorri também, mas pensei naquelas sábias palavras. Como somos agressivos! E o pior é que sequer nos damos conta. Não é o outro que é violento. Somos todos nós. Estamos a agredir primeiro a nós mesmos, e depois a todos os outros. Aqueles que mais nos amam são os que recebem maior carga de nossa estupidez. Todos nós precisamos nos tratar, e com cuidados constantes e insistentes. É quase uma revolução o que temos que fazer conosco. Merleau-Ponty falava em revolução permanente. Eu uso emprestado essa expressão para colocar como vejo o auto-tratamento que temos o dever de nos ofertar com relação à violência que mora em nós.
Às vezes é preciso ser agressivo. Encarar a nós mesmos e ter a coragem de usar a agressividade para acabar com nossa própria violência. A violência não é mais aceitável. É preciso agredir, mas no sentido de exigir de si o melhor, admitindo o pior, mas apenas como coisa em si, nunca como fatalidade pessoal. É preciso dar passos adiante.
Não podemos ficar calmos enquanto tudo nos indica que deveríamos estar apavorados. Onde a vontade é fraca, é preciso suprimir a fonte dessa fraqueza, isso é tudo o que sei a respeito. “O que fazer?”, perguntam. Bem, não sei nem o que fazer ao certo de minha vida, como poderia responder pergunta de tal magnitude? Acho que, no máximo, posso dar minha opinião de leigo (e bota leigo nisso aí!). O único método que conheço é a educação. Educação como processo de atualização de conhecimentos, em que o ser é iniciado na solene arte de fazer parte. Educação para todos e auto-educação para cada um.
O que a escola, a família, os amigos oferecem, é quase nada em relação à massa de atuações necessárias de cada um no decorrer da existência. A televisão deseduca muito mais que isso.
Um homem educado é o ponto máximo da civilização humana. A arte, que todos os outros homens dos milênios anteriores até agora construíram com suas existências dolorosas e substanciais, é a memória e o apogeu da raça. Claro, sem dúvida, é uma ficção. Todo modelo é falso. Nos enganam quando afirmam que precisamos de líderes. Precisamos, antes, é de horizontes e ideais. É evidente que o líder é quem descobre e veicula as idéias que sazonam, maduras para serem colhidas, mas ele só produz sonhos, unicamente. Saber é não saber.
Saber é ter deixado escapar a oportunidade, porque o que se sabe é o que já se viveu. Passado não existe, não é possível deixar de esquecer disso também. Saber é não ter necessidade de saber. Ainda bem que somos todos necessitados de saber. Isso mostra que já sabemos alguma coisa; sabemos que não sabemos e que nem imaginamos o quanto nossa ignorância é infinita. Tudo é absolutamente relativo à capacidade de saber que, por sua vez, é relativa também ao tempo e ao espaço, como queria Einstein.
Concluindo a partir do raciocínio da Paulinha, esse serzinho absolutamente encantado e sábio, se estamos violentos, a alternativa é o tratamento. Outras opções envolvem mortes, crimes, prisões… disso sei bem. Daí porque sou meu eterno paciente, o que me dá mais trabalho e dor de cabeça.