por Arthur Veríssimo
Trip #226

Arthur Veríssimo deu um rolê em São Paulo com os dois anônimos mais famosos da publicidade brasileira: o Baixinho da Kaiser e o Sebastian da C&A

Vivemos em um período em que a cultura, diferente do que antes tinha esse nome, deixou de ser elitista, erudita, excludente e transformou-se em genuína cultura de massa. Hoje vivemos a primazia das imagens sobre as ideias. O domínio absoluto de cinema, televisão, espetáculos e internet. Estamos sempre ligados, sintonizados com a novidade não importa qual, contanto que seja nova. Neste universo de modismos passageiros, a publicidade não só é parte constitutiva da vida cultural, como também seu vetor determinante.

Ela exerce influência decisiva sobre os gostos, a sensibilidade, a imaginação e os costumes de todas as camadas sociais. Essa função, que no passado era desempenhada por sistemas filosóficos, crenças religiosas, ideologias e doutrinas, hoje é exercida principalmente nas agências de publicidade. Basta dar uma zapeada pela TV para perceber isso. A maioria dos comerciais é estrelada por atrizes, jogadores de futebol, cantoras, modelos, humoristas e apresentadores de TV. Não digo que isso seja ruim; digo simplesmente que é assim. São raras as campanhas com anônimos. O que vale é o sucesso comercial imediato do produto. Na maioria das vezes, o bom é o que tem sucesso; mau é o que fracassa e não conquista o público. Nesse caleidoscópio de marcas, decidimos conhecer dois ícones da publicidade que saíram do anonimato para o mundo das celebridades: o Baixinho da Kaiser e Sebastian da C&A .

Marcamos um encontro no Mercado Municipal de São Paulo, músculo cardíaco da capital. Já na entrada, vejo o Baixinho envolto por uma pequena multidão de fãs. Como Sebastian está a caminho, aproveito o embalo para conhecer os bastidores e as intimidades da ascensão de José Valien Royo, “nascido em Barcelona, mas brasileiro de coração”. Antes da fama, ele era motorista freelancer. Mas, como prestava serviços para agências de publicidade e sempre esbanjou simpatia, costumava ser chamado para fazer pontas em diversos comerciais. S

ua história com a Kaiser começou em 1986. José Zaragoza, um dos donos da agência DPZ, foi com a sua cara e o colocou no set de gravação de um comercial teste para a marca, que ainda não era cliente da agência. “Todo mundo seguia uma coreografia, mas eu simplesmente não conseguia fazer os movimentos. Pensei até em desistir. Uma hora, o Zaragoza gritou lá do fundo: ‘Pessoal, é isso aí, filmagem acabada. O que é certo dá errado e o que é errado dá certo’.” Não precisamos nem dizer que, de fato, tudo deu muito certo. A Kaiser assinou com a DPZ. E José virou o Baixinho.

A boina, uma das marcas registradas do personagem, também surgiu por acaso. “A luz dos refletores batia na minha careca e refletia. Peguei a boina emprestada do diretor”, conta. O primeiro comercial foi gravado em um banheiro. Um monte de gente usando os mictórios e o Baixinho na dele, urinando sem parar. “Só pode ser Kaiser”, alguém comentava. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Publicidade de Cannes. “Mesmo depois dos comercias, continuei trabalhando de motorista durante um ano. Hoje agradeço profundamente à Kaiser pela minha independência financeira.”

 

“O namoro com a Karina Bacchi me colocou na crista da onda"

 

A relação com a marca durou até 2002. Depois, em 2006, voltou ao ar. Fotos do Baixinho beijando a bombshell Karina Bacchi invadiram as páginas das revistas de fofoca. Golpe de marketing ou amor verdadeiro? O próprio jura que era verdade, sem dar mais detalhes a respeito. “O namoro com a Karina Bacchi me colocou na crista da onda. Depois ainda vieram a Adriane Galisteu e a Danielle Winits. Foi uma loucura na minha vida”, lembra, com um sorriso no rosto.

Sinto uma presença magnética vibrando no ambiente. A energia e a voz de Louis Armstrong provinham da alma do avatar Sebastian. Como uma divindade, ele encantava a todos. Vestia um paletó estilo Jamaica “raggamuffin” e sapatos impecavelmente lustrados. Simpatizei no ato com a figura. De cara, já quis tirar a dúvida: “Sebastian, confundiam muito você com o Jorge Lafond, que interpretava o ícone Vera Verão?”. “Juro que não”, exclamou. “Mas conheci o Lafond, uma pessoa maravilhosa. Ele, no entanto, deixou o personagem ficar maior do que ele. Tento sempre separar uma coisa da outra.”

Tal qual o Baixinho, ele não quis revelar quantos anos tem. “Tenho a idade do amor, da adolescência, da grandeza, da vida...”, desconversou. Mas depois deixou escapar: tem 47 anos, sendo 20 deles como garoto-propaganda da C&A. É casado há 23 anos e tem dois filhos.

Abuse & Use

Observo o Baixinho conversando, ou melhor, palestrando para um grupo de mais de dez pessoas. Suavemente me aproximo e convoco a dupla para seguirmos em frente. Quero saber quais são as referências, os ídolos e mestres da dupla. Sebastian, como um ninja, dá duas piruetas, três parafusos e, com a voz embargada de emoção, posiciona seu panteão: Duke Ellington, Elis Regina, Grande Otelo, Tom Jobim, Toni Tornado, Ella Fitzgerald e Louis Amstrong. Já o Baixinho, com seu jeito de encantador de serpentes e leoas, é mais econômico: o mestre Charles Chaplin. “Arthur, o Baixinho nos comerciais não fala. Sou do cinema mudo”, explica. Sebastian instantaneamente cai no chão gargalhando.

Depois de vinho, frios, frutas, café e queijos, mais uma parada para degustar delícias da culinária árabe. Porções de mijadra, homus e babaganuche são pedidas. Estou estufado de tanto comer e beber. Por incrível que pareça, eis que surge a esposa e um dos filhos do Baixinho. Com uma agenda repleta de compromissos, ele elegantemente se despede e ainda atende uma fila de fãs para outra sessão de fotos. Sebastian está de boa e conta orgulhoso sobre o que é, na opinião dele, sua principal contribuição como ser humano: o Núcleo de Artes Cênicas Sebastian, um centro cultural em Osasco aberto há dez anos que oferece aulas de artes diversas para cerca de 300 crianças e adolescentes. “Essa é uma forma de eu agradecer ao Brasil e ao planeta.” Sua formação é na música, no teatro e no sapateado. Foi convidado para fazer um teste para a C&A em 1989. Passou. O resto da história você sabe.

Fomos recebidos a pão de ló por todos os vendedores do Mercado. E esta matéria quase não aconteceu tamanho o assédio de fãs da dupla que pediam autógrafos e fotos. Aludindo a outro comercial atemporal, “o tempo passa, o tempo voa, mas a popularidade do Baixinho e do Sebastian continua numa boa”. “O namoro com a Karina Bacchi me colocou na crista da onda. Foi uma loucura na minha vida”, diz o baixinho

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