Logo Trip

Ursinho nada carinhoso

Fotógrafo vai clicar urso polar no Ártico e quase acaba jantado

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

texto e fotos Camille Kachani

Setembro de 2000. O pequeno avião Beech 90 pousa na pista de terra da aldeia Qiqiktarjuak, numa ilha perdida do Alto Ártico, chamada Broughton Island. Era o começo de minha quinta expedição no Ártico, sempre com o propósito de fotografar a região. Meus companheiros de viagem eram três franceses, um amigo brasileiro e três guias nativos: o capitão Paloosie, seu filho Looti e um sobrinho. Nosso objetivo: ver de perto o urso polar em seu hábitat, utilizando o velho pesqueiro de Paloosie. Durante o curto verão no Ártico, o mar derrete, e os ursos não conseguem mais caçar as focas. Um nanuk – como o urso polar é chamado pelos esquimós – pode passar mais de dois meses sem comer. O problema é que nesse período o bichinho fica louco de fome e perde o respeito pelo homem.
Longe da aldeia, passamos a noite numa pequena cabana que os esquimós usam como ponto de apoio durante as caçadas. Logo na primeira noite, um nanuk apareceu. Nos dois dias seguintes o urso voltou – e não saiu mais. Ficou claro que o alimento éramos nós. Ficamos sem poder sair da pequena cabana. Depois de dois dias segurando as necessidades, acordei às seis da manhã e olhei pela janela. O animal, a 10 metros da porta, me olhou como se dissesse: vem, vem… Sem chances de sair. No desespero, achei um saco Ziploc e me virei com aquilo. No dia seguinte, o urso não estava mais lá.

DE CAÇADOR A CAÇA
À tarde, procurávamos descansar quando, de repente, o bicho apareceu babando na janela. Looti apontava para sua cabeça; só não atirou porque berramos para que esperasse. À noite, o urso tentou entrar várias vezes na cabana, por baixo, pela janela, forçando a parede. Um dos franceses, agarrado ao seu fuzil, não acreditava no que estava acontecendo: o urso estava nos caçando. Torcíamos para ele ir embora, pois, se entrasse, teríamos de abatê-lo, algo completamente contra nossos propósitos. Mas ele não parecia disposto a ir. Nesse caso, infelizmente é matar ou morrer.
Sorte: de manhã, o animal dormia. Embarcamos rapidinho no pequeno pesqueiro e só voltamos às seis da tarde, com duas focas de 50 quilos. Mal descemos do barco, os esquimós começaram a retalhar os bichos na beira da água mesmo: cortavam pequenos pedaços de gordura, carne e tripas, que comiam ainda mornos, enquanto trabalhavam. A carne crua não incomoda, e fígado cru é gostoso, tem gosto de peixe – só o sangue fresco na boca é que causa uma sensação meio animalesca.

OFERENDA PARA TEDDY BEAR
A idéia era comermos a foca pequena, enquanto a maior seria oferecida ao urso, para que ele se acalmasse. À noite, jantamos costelinhas de foca assadas e fígado cozido. De madrugada, o nanuk veio reclamar sua parte. A foca estava a uns 12 metros, na beira da água, já sem o couro. Quarenta minutos depois o urso ainda estava lá, e eu decidi sair e tentar fotografá-lo comendo. Gastei alguns rolos até o bicho levantar a cabeça, me ver e avançar. Não pensei em nada – só disparei em direção à porta. Clicado, deu meia-volta e foi embora. Aí entendi que ele não me pegou por desinteresse: só queria mesmo mostrar quem mandava ali. No dia seguinte, abandonamos a cabana e seguimos viagem. Minha sede de urso polar estava mais que satisfeita.

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

LEIA TAMBÉM