por Pablo Yuba
Trip #188

Hoje a diversão é cantar no karaoke, os mais empolgados passam horas só no gogó

Em Tóquio, cantar sozinho em karaoke é tendência. Por timidez, para treinar ou desestressar, a prática cresce em uma cidade tão lotada que, às vezes, se tem mais privacidade fora do que dentro de casa

“É impossível cantar alto ou ouvir música no último volume nos apartamentos de Tóquio”, diz a bartender Tame, de 21 anos, fã de riffs pesados. Moradora do movimentado bairro universitário de Takadanobaba, ela faz parte de um grupo cada vez mais comum nas grandes cidades japonesas: os cantores solitários de karaoke. Tame vai ao karaoke no mínimo três vezes por semana, quase sempre sozinha. “É um dos poucos espaços onde tenho liberdade pra ouvir e cantar as músicas de que gosto”, diz a moça. A formação urbana de Tóquio, com uma população semelhante à de São Paulo (12 milhões de pessoas) em uma área menor que a metade da capital paulista, parece muitas vezes obrigar seus habitantes a buscar privacidade fora de casa, e muitas vezes ainda pagar por ela.

Para quem gosta de música, as casas de karaoke são boa opção. Durante a semana, é possível alugar uma cabine por cerca de 400 ienes (cerca de R$ 7,50) a hora. Nos fins de semana e de noite as taxas chegam a dobrar. Geralmente, os usuários solitários costumam aparecer de dia, seja na hora do almoço ou logo após o expediente; mas também não são raras as pessoas que optam pelo pacote “all-night”, para cantar por cerca de seis a sete horas em sequência. Nesse meio-tempo, os cantores podem aproveitar um extenso cardápio de bebidas e comidas normalmente de boa qualidade (grande parte das casas é administrada por redes de restaurantes), a comodidade de poder conectar seu iPod ao potente sistema de som do quarto e ainda jogos, disputas e concursos online para vocalistas.

O perfil dos cantores solitários é diversificado: estudantes entediados, senhores de idade relembrando hits do passado e até músicos (e aspirantes) que levam seus instrumentos e utilizam as salas como estúdio de ensaio. De acordo com o portal de notícias Nikkan Gendai, o público que mais cresce é o de mulheres na casa dos 20 anos. “Minha geração já não sente tanta restrição em ir sozinha a esse tipo de lugar, mas até há algum tempo as próprias casas de karaoke não eram muito receptivas”, explica Tame, que desde a época de estudante criou o costume de cantar sem companhia nas cabines acusticamente isoladas. “Gastava toda minha mesada em karaoke.”

Cantor de chuveiro 2.0

 

 

O programador Kei, de 24 anos, aproveita a hora do almoço de sua empresa para matar a fome e a vontade de cantar. Diz que soltar a voz “ajuda a desestressar e serve para recarregar as energias”. Seu repertório tem como base faixas de bandas britâncias como Oasis e Blur, que, apesar de fazerem muito sucesso no Japão, são pouco difundidas entre seus colegas. “Quando vou a um karaoke em grupo, o normal é cantar sucessos do J-Pop, pra evitar que outras pessoas fiquem entediadas”, conta.

Já nas sessões solitárias, esses vocalistas não precisam se preocupar com o gosto ou desgosto alheio, nem mesmo com uma possível falta de talento. É um raro refúgio que uma cidade como Tóquio oferece para deixar de se preocupar com o olhar e o ouvido de terceiros. Desse ângulo, os solitários do karaoke podem ser vistos como uma espécie de vertente dos cantores de chuveiro dos países ocidentais.

É nessa linha que vai o fotógrafo Kyoiti Tsuzuki, autor do clássico livro Tokyo Style. Segundo ele, a esmagadora maioria dos habitantes da capital japonesa é obrigada a se apropriar dos ambientes públicos como uma extensão da própria casa, que raramente tem mais de 20 m2 e possui paredes finas. Kei concorda. “Claro que o ideal seria ter todo o equipamento de karaoke e uma sala com isolamento sonoro na minha casa, mas o custo seria gigantesco”, lamenta, enquanto devora o resto do almoço para voltar ao batente.

 


Hitokara e timidez

Desde o começo, nos anos 70, karaoke no Japão foi uma experiência coletiva, em bares abertos, como aqui. Nos anos 80, contêineres e carretas foram adaptados, dando origem aos karaoke-box, onde amigos se divertiam sem a presença de terceiros. Enquanto o meio se popularizava, o tamanho dos grupos diminuía. Nos anos 90 as casas no formato atual se espalharam, e as cabines ganharam variações para grupos ainda menores. O uso individual dos quartos começou a chamar atenção nos últimos cinco anos, principalmente depois que figuras populares da TV japonesa se declararam em seus blogs adeptas do Hitokara (karaoke desacompanhado).

 

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