UM BRASILEIRO EM GAZA, CENTRO DA LOUCURA
De atentados suicidas a carros-bomba, passando por bombardeios a quartéis e áreas civis de Israel, Líbano e Cisjordania
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Na semana passada, a parte mais tensa do Oriente Médio – e uma das áreas mais inflamadas da epiderme planetária – abriu espaço de forma especial no noticiário de jornais e televisões. De atentados suicidas a carros-bomba, passando por bombardeios a quartéis e áreas civis, Israel, Líbano, Cisjordania, a faixa de Gaza e redondezas foram assunto recorrente – com direito, inclusive, a imagens de um absurdo desabamento durante uma festa de casamento, que matou dezenas de convidados.
Em meio a esse congestionamento de ódio e violência, o repórter especial da revista Trip, Fernando Costa Netto – com passagens por El Salvador, Bósnia e outros palcos de conflitos sérios no currículo -, era um dos únicos brasileiros presentes às áreas de alto risco, como a própria faixa de Gaza.
Com a tecnologia disponível e com o apoio da Lufthansa, Fernando podia enviar, do centro da loucura, relatos de alguém que seguiu até o local sem a obrigação de redigir tratados de geopolítica, mas com o objetivo de observar e tentar entender o que ocorre, interagindo com as pessoas dos dois lados do conflito. Abaixo, em primeira mão na mídia impressa, o JT revela um desses relatos, parte de um trabalho complexo que a revista mostrará em breve:
Oriente Médio – boletim IV
‘Ontem, 22/5, quase apanhei em Ramallah. Esta é uma das principais cidades da nação palestina, um lugar muito diferente daquele que tinha em mente.
Percebi o quanto a informação que chega aí no Brasil, via agências internacionais, é, de certa forma, carente. Quando lemos jornais e revistas semanais, somos obrigados a engolir o que os repórteres norte-americanos, franceses, ingleses vêem e entendem. O factual, vá lá, mas o olho deles é diferente do nosso. O que é importante para eles, muitas vezes não é importante para nós.
Ramallah é cosmopolita, com um bom comércio, carros importados circulando, algumas famílias ricas e dinheiro rolando. Um dos meus objetivos em Ramallah era encontrar um brasileiro chamado Munir. Viajei quase uma hora com o motorista que adotei como meu tradutor, o Josef Mansour, e chegamos ao principal mercado da cidade, onde o Munir tem uma loja de alimentos. Fui muito observado pela multidão de pequenos comerciantes e transeuntes que não estão acostumados a ver um estrangeiro por aquelas plagas. Fui obrigado a me identificar algumas vezes na rua, mas dando uma volta pelo mercado, fui brutalmente assediado pelo segurança local. Ele era grande e falava alto comigo. Não entendia, e as pessoas começaram a se aproximar. Logo, um tumulto estava formado à minha volta.
Ramallah é onde três soldados israelenses infiltrados foram capturados, linchados e atirados pela janela de uma delegacia que, por coincidência, ficava a alguns metros de onde estava. Bem, queriam ver a minha identificação de jornalista e, como falavam todos de uma vez, eu não entendia. Gritavam e eu levantava os braços. Consegui tranqüilizar o povo e levar o segurança até a loja do brasileiro, que desfez o mal entendido.
Analisando os fatos, eles estavam certos. Se há alguns meses, três israelenses passeavam infiltrados, é de se esperar que a minha presença na rua causasse algumas dúvidas. Pedi desculpas e procurei que eles entendessem que estavam certos. No dia seguinte, o mesmo segurança me viu, se aproximou e me tascou dois beijos na cara. Nada a ver, minha gente, é um hábito muçulmano dois homens circularem pela rua de mãos dadas e se beijarem quando se encontram.’
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