por Camila Eiroa

Viajei quase 600 quilômetros para o festival Psicodália e minha maior ansiedade era entrevistar o eterno ícone da psicodelia

Já faz quase um mês que o carnaval deste ano aconteceu e pela segunda vez fui para o Psicodália, em Santa Catarina. No ano passado, vi shows incríveis e conheci pessoas com histórias curiosas, como o Plá, cantor hippão que vai desde a primeira edição e me disse que parou de contar a sua idade há alguns anos. Foi também quando Moraes Moreira disse que a galera de hoje não quer reviver o passado, mas jogar a utopia dos hippies para o futuro.

Assim que a programação completa de 2015 foi divulgada, o espanto. Baby do Brasil, Ave Sangria, Jards Macalé, Ian Anderson e ele, o mestre da psicodelia, que foi de uma das bandas mais importantes da música brasileira, Os Mutantes: Arnaldo Baptista.

Consegui uma carona pra ida com um amigo e depois de 12 horas de viagem com algumas paradas em lugares desconhecidos, chegamos ao destino: Rio Negrinho, fazenda Evaristo. Minha maior vontade era montar a barraca, encher o colchão inflável que peguei emprestado, comer e curtir os shows. Não foram poucos até que chegasse o dia de ir ao hotel de Arnaldo Baptista. Nesse meio tempo, entrevistei a Baby e o Jards. Mas ainda assim, encontrar com o Lóki era o que mais me deixava ansiosa. 

Chega o terceiro dia na fazenda e preciso achar Matheus, fotógrafo e amigo que estava me acompanhando com as pautas. Descubro que ele nem sequer tinha dormido ainda. Sem problemas com isso, fomos para a pousada. Chegando na cidade, as notificações do celular não paravam de fazê-lo vibrar, já que na fazenda não tem o menor resquício de sinal. Mas agora não era hora pra isso, era a hora de aguardar o ícone psicodélico chegar.

Câmeras e gravadores posicionados e Arnaldo Baptista aparece. Tímido e com roupas coloridas, ele cumprimenta todo mundo com um sorriso afetuoso. Posso jurar que a energia daquele lugar mudou exatamente nessa hora, fiquei vidrada com a presença dele. Começam as entrevistas e logo é a minha vez de fazer as perguntas, é quando descubro uma pessoa totalmente serena e disposta a falar sobre o universo que existe dentro de sua própria cabeça.

"Faz muito tempo que me convidam para vir aqui, mas não tinha a estrutura pra poder tocar com o sarau [Sarau o Bendito? é o nome do show que faz com um piano apenas], então eu desmarcava. Mas agora deu certo e eu vou fazer um show de acordo com o clima que eu sentir. O fundamental é compartilhar", conta.

 "Eu tenho expectativas em função da minha técnica, tenho que estudar bastante bateria, guitarra, baixo e o próprio cantar"

Durante toda a conversa, ele deixou bem claro seu amor pelos amplificadores valvulados, disse, algumas vezes, que isso é uma das chaves da psicodelia na música. "Pode ser uma coisa meio boba da minha cabeça, mas eu penso em fazer uma associação de possuidores de amplificadores valvulados. É tão difícil de encontrar", confessou arrancando risadas dos jornalistas. 

Lembrei de um trecho do documentário Lóki, em que ele diz que ainda há muito o que descobrir e por pra fora como artista. Não consigo enxergar o que mais poderia ter de arte dentro dele, e o questiono sobre isso. "Eu tenho expectativas em função da minha técnica, tenho que estudar bastante bateria, guitarra, baixo e o próprio cantar. Eu faço o possível com o que eu possuo", responde como se não fosse um dos ícones do rock brasileiro psicodélico.

Papo vai e papo vem, Arnaldo se sente bem à vontade pra falar sobre tudo aquilo que acredita, sempre muito doce e com a maior atenção do mundo. Energia solar, vegetarianismo e a psicodelia das guitarras Gibson. Ele também aproveitou para contar que em seu próximo CD, Esphera, que deve ser lançado no segundo semestre, vai defender a energia solar. "O ser humano demorou muito pra fazer o fogo, agora tem que aprender a não poluir tanto a atmosfera."

"Pode faltar água, mas não falta vergonha"

O tempo da entrevista estava acabando, mas antes disso eu precisava muito fazer mais uma pergunta. Na primeira faixa do primeiro CD [também chamado Lóki], ele canta no refrão que vai voltar pra Cantareira. Minha dúvida é: mas mesmo com a falta de água de São Paulo, Arnaldo?

Ele ri muito, e solta: "Pode faltar água, mas não falta vergonha". É inevitável, todos riem. "Mas voltar para a Cantareira tem um lado especial, eu ficava com a minha mãe por lá. Eu tinha um poder de expansão gigante com as árvores, os instrumentos. Me sentia livre, é um lugar muito importante pra mim", termina com um sorriso no rosto, repetindo a pose da capa do disco que foi tirada lá. 

Antes de voltar para a fazenda, pegamos autógrafos e tiramos fotos com ele. Que encanto! Cheio de caras e bocas para as câmeras.

O show, que foi no dia seguinte ao da entrevista, provou que Arnaldo estava certo sobre o clima influenciar na apresentação. O repertório fez jus ao frio e à chuva que caía. O palco estava cheio de flores em volta do piano, desenhos feitos por ele eram projetados ao fundo e além de todos os sucessos como Será que eu vou virar bolorBalada do louco Cê tá pensando que eu sou lóki, bicho?, teve espaço para um cover doce e profundo de Blowing in the wind, do Bob Dylan. 

Teve quem chorou, quem ficou hipnotizado e quem estava com vários LPs para serem autografados. Arnaldo agradeceu emocionado ao fim do show, dizendo que não merecia aquela plateia. Mas quer saber? É claro que merecia. O importante é compartilhar, como ele mesmo disse. E lá, todas as energias foram compartilhadas. Todas mesmo, tanto é que até consegui uma carona para voltar pra São Paulo no final do festival.

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