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por Olivia Nachle
Trip #236

Tirar tudo e entrar no mar tem sido uma experiência libertadora para algumas mulheres

O céu tinha acabado de clarear. Mas o sol estava tímido, atrás das nuvens. Pela janela, o recado: vento zero, mar liso, ondulação entrando. Pegamos o carro e partimos, do Leme na direção do Pontal, pela costa, junto ao mar. Só que, naquela manhã, o pico não seria simplesmente aquele que estivesse quebrando melhor. Precisava ser vazio, nenhum crowd. Jéssica é minha flatmate. Logo que a abordei perguntando se ela já tinha surfado pelada, sua resposta foi não. “Mas, puxa, sempre tive vontade.” 

Aquela quarta-feira nos levou até o meião da Praia da Reserva. Em volta, tudo deserto, só ela e eu. Sempre que viajo, logo penso se vou poder nadar pelada nos lugares”, ela me contou, enquanto passava parafina na prancha. A ansiedade era tanta que não demorou para que largássemos o biquíni e corrêssemos para o mar. Entramos juntas. “Sabe liberdade total?”, ela falou, já na areia, ainda sem roupa. Na avenida que beira a praia, escutamos a buzina e berros vindos de um caminhão que passava. “Foi uma sensação muito natural, um feeling delicioso. Mas tem que se entregar para conseguir sentir isso, eu estava entregue.”

 Do outro lado do globo, Marama Kake também desliza sobre as ondas sem nada cobrindo seu corpo. Só que, diferente de Jéssica, isso é rotina para essa australiana de 34 anos. Ela surfa assim sempre que tem vontade, com chuva, sol ou cem surfistas na água. 

A primeira vez foi em 2003, em Byron Bay, quando na busca por um pico tranquilo acabou indo parar numa praia de nudismo. “Foi uma das experiências mais libertadoras que já vivi: eu era a única pessoa na água, sem nada no meu corpo (nem o strep), cercada pela natureza”, lembra. Marama não parou por aí. Continuou pegando onda pelada e até construiu uma Alaia, tipo de prancha artesanal feita de madeira. “Não tinha como ser mais natural, e supersustentável: eu, pelada, surfando numa tábua de madeira!”

Nem todo mundo, no entanto, encontra prazer em surfar do jeito que veio ao mundo. A big rider Maya Gabeira estampou a ESPN Body Issue de 2012, edição anual da revista em que 24 atletas são fotografados em seus esportes completamente nus, e disse não ter ficado muito à vontade com a situação. “Foi meio desconfortável, tem a parafina, tinha muita gente em volta e estava frio”, resume. Quando pergunto se não deu pra sentir a tal sensação de liberdade que Jéssica e Marama tanto exaltam, ela responde, rindo: “Ah, não, eu fiz isso como um trabalho, não acho que sou o tipo de pessoa que sentiria isso”.


Nudez que inibe
Para a edição deste ano da revista, a surfista havaiana Coco Ho se jogou nua nas águas cristalinas do Havaí, na companhia do seu amigo e fotógrafo Morgan Maassen. “Eu estava nervoso, mas superanimado com o convite”, ele diz. “O clima estava perfeito, as ondas, superdivertidas, e Coco e eu rimos o tempo todo surfando e fotografando, como sempre acontece.” No mar, estavam só os dois – a equipe de produção tinha ficado no barco. “Surfar pelado é só você, a água e o vento. Tão simples quanto parece.”

Marama conta que, depois que começou a surfar pelada, passou a ficar sabendo de vários campeonatos de surf naturista que rolam pelo mundo. Inclusive aqui, no Brasil. Todo 6 e 7 de setembro acontece o Tambaba Open, na Paraíba. Uma das praias de nudismo mais bonitas e conhecidas do Brasil recebe por ano cerca de 40 surfistas que vão pegar onda sem body nem bermuda. “Surfar pelado é muito mais confortável”, diz Marcos, 61 anos, que por anos competiu e hoje vê seu filho participar do campeonato. Para Carlos Santiago, organizador do evento, surf e naturismo têm uma forte conexão. “Ambos trazem à tona o respeito pela natureza, pelo próximo, a interação, a liberdade.”

Durante as seis edições que já rolaram – este ano acontece a sétima –, nunca uma mulher disputou a competição. Carlos garante que não é por falta de incentivo, mas admite que “a questão da nudez ainda inibe as pessoas”. Karine é surfista da região e diz nunca ter tido vontade de participar. “Acho que o preconceito vem da gente também, sempre tem muita gente conhecida e a gente não fica à vontade”, conta. Gil é outra que acha que “o machismo ainda é muito forte”, o que afasta as mulheres do campeonato.

De onda em onda, Marcos diz sentir que a aceitação do surf naturista está cada vez maior. “Já começa a vir gente de outros estados aqui para o campeonato”, diz. “Acho que é uma questão de tempo, as pessoas estão se libertando.” Jéssica concorda. Depois daquela manhã na Reserva, ela garante que vai aproveitar as próximas oportunidades que pintarem para pegar onda livre, leve e solta. “Não é sempre, mas tem que dar pra fazer isso às vezes. Tem que entrar na experiência e deixar o biquíni e todo o resto para trás.” 

 

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