TIM MAIA E O BOATO
O que aconteceria se deixássemos os auto-proclamados especialistas de lado e fôssemos direto à fonte?
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Em novembro passado, convidado pela Isto É a escrever algumas linhas sobre ‘a importância da informação nos dias de hoje’, sem precisar pensar muito, desfiei meu rosário sobre como num tempo em que a tecnologia consegue fatos inexplicáveis, informação pura e simples torna-se commodity de baixo valor. Fixei-me na palavra CONTEXTO para provar a tese de que é necessário, para valorizar a mercadoria (informação), efetuar todas as análises pertinentes, aprofundar investigações para, enfim, poder apresentar não só o quadro, mas a moldura, a parede, os quadros ao lado, o rodapé e, mais importante ainda, a partir de todo este contexto, poder emitir uma opinião que tenha algum sentido e por conseqüência, algum valor.
Se o pedido me fosse feito em fevereiro de 99, porém, a tarefa seria infinitamente mais fácil. Bastaria simplesmente apresentar dados sobre a incrível ocorrência da última sexta-feira. Instantânea e estupidamente, sabe-se lá de onde, uma informação de baixa qualidade navegou com desenvoltura poucas vezes vistas neste país.
Fibras óticas, satélites, cabos subterrâneos, superfícies termo sensíveis, todos e quaisquer condutores carregavam ao mesmo tempo os mesmos bits: ‘O governo confiscará a poupança o os investimentos nos chamados fundos D.I.’, diziam os tambores da era Bill Gates. Em alguns minutos a selva põe-se em polvorosa e por selva entenda-se a mãe do vizinho que guarda seu pecúlio na caderneta e a bolsa do Rajastão. Tudo ao mesmo tempo, no mesmo dia. Assustador é pouco.
Por falar na necessidade de balizamento, pesquisa e conhecimento de causa para emitir opinião, cabe lembrar que não há nada mais irritante do que ler e ouvir ‘críticos de arte’. A maioria (felizmente há exceções isoladas) composta por CDFís que apanhavam na escola e que não foram bem nas aulas de piano e, alguns anos mais tarde, vingam-se da genética e do destino, despejando ódio impresso ou eletrônico sobre nossos ouvidos e olhos.
O que aconteceria se deixássemos os auto-proclamados especialistas de lado e fôssemos direto à fonte, convidando os próprios artistas, que dedicam suas existências aos estudo do assunto além de terem vindo ao mundo com um ‘gift’ especial que os credencia ? Vejamos os comentários destes ‘críticos’ sobre as seguintes obras:
‘TIM MAIA, 1971’ – Tim Maia
Um LP sensacional. Tim rasga a voz em ‘Salve Nossa Senhora’, adocica em ‘Preciso aprender a ser só’ e faz um mix entre o doce e amargo no grande sucesso ‘Você’. Na época, era praxe cantores brasileiros gravarem canções em inglês (Christian, Morris Albert, Mark ‘Fábio Junior’ Davis, etc), e Tim, não fugindo à regra, bancou três faixas assim. ‘Não quero dinheiro’ re-arrebentou em 1995 para surpresa de todos, com o próprio Tim na gravação original… ‘Tim Maia, 1971’ é assim mesmo: ouviu, viajou.
[Ivo Meirelles / músico e compositor]
‘ORQUESTRA BRASÍLIA’ Interpretações de composições do Pixinguinha
Pra mim esse é um disco muito especial. Foi produzido por Henrique Cazes, que toca choro no cavaquinho muito bem. Por acaso, pesquisando na Biblioteca Nacional, ele encontrou uma relíquia: orquestrações feitas pelo próprio Pixinguinha para instrumentos de sopro. Não se sabe como aquelas partituras foram parar ali, estavam simplesmente endereçadas à ‘banda’. Qual banda, ninguém sabe. Henrique Cazes então reuniu músicos de sopro fantásticos e produziu um disco com essas composições. Uma das coisas mais lindas do mundo é o choro ‘Sedutor’; eu me emociono sempre que ouço. É maravilhoso. E porque acho que o Pixinguinha cura até doença, é uma referência permanente pra mim.
[Paulinho da Viola]
‘ONE SIZE FITS ALL’ – Frank Zappa and the Mothers of Invention e ‘HOT RATS’ – Frank Zappa
‘One size fits all’ é um dos melhores discos da segunda fase dos ‘Mothers’, contando com George Duke nos teclados e vocais e o soul/bluesman Johnny ‘Guitar’ Watson. Aqui a influência do Jazz-Fusion é óbvia em temas como Inca Roads, mas sempre unida à simbiose única de blues, rock e musicais da Broadway que Zappa sempre fez brilhantemente.
Já sobre ‘Hot rats’, é possível dizer que não existiria o Steely Dan sem esse obrigatório disco. Foi pioneiro e genial em colocar no mesmo espaço a técnica e competência dos ‘Jazz Kats’ Paul Humpherey (que mais tarde também gravaria no Steely Dan), e Jean-Luc Ponty com Captain Beefheart. Um dos discos mais musicais do Zappa.
[Ed Motta / músico e amigo da casa]
Faz diferença.
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