por Marcus Preto
Trip #210

Atriz e cantora revela: ”Sonhava em ser amplamente desejada, pelada em capa de revista, gata, selvagem, sarada, gostosa”

“Ser Trip Girl no meu aniversário de 38 anos é o presente que me dou, em nome dos velhos tempos, quando sonhava em ser amplamente desejada, pelada em capa de revista, fetiche total, gata, selvagem, sarada, gostosa"

Na adolescência, minha vida sexual já era bem ativa. Mas só perdi a virgindade aos 15 anos, mais exatamente em 8 de maio de 1991.”

Thalma de Freitas não esqueceu nenhum detalhe daquele dia. Faria aniversário na semana seguinte e, pela primeira vez em 16 anos, a sensação de ser e estar menos menina veio na véspera, antes do bolo e dos parabéns.

Não ser mais virgem a tinha tornado outra pessoa – mais encorpada, mais dona da história. O olhar ficou mais quente e suas vontades ganharam um poder inacreditável sobre ela mesma e sobre os outros.

Ah, os outros... Dez anos antes, começou a descobrir a própria sexualidade no sexo alheio. Trocou o primeiro beijo na boca em 1981, com o primo. Era um daqueles primos muito íntimos, que acabou por se tornar uma espécie de namorado, o cicerone das primeiras sacanagens.

"Mostrar meu corpo representava também uma postura de mulher liberal, independente. Linda e sem pudor de se assumir gostosa"

As sessões de brincadeiras com ele eram jogos que não se concluíam, tinham mais reticências do que pontos-finais. Mãos e línguas – as armas que valiam ali – tentavam encontrar o desconhecido, mas se perdiam sempre no caminho. Tudo bem: procurar já era tão gostoso...

Nesse período, seu imaginário de mulher já vinha sendo montado com os estímulos das musas das capas das revistas. Estavam nuas, sempre. Christiane Torloni, em 1984. Lídia Brondi e Maitê Proença, em 1987. Tássia Camargo com os cabelos curtinhos, em 1982. Sônia Braga, Bruna Lombardi, Maria Zilda, Luma de Oliveira, sempre. E Xuxa, em edição especial de “Feliz 1982”.

Ela se lembra das estrelas sem roupas naquelas páginas e revela que, desde a adolescência, cobiçava estar junto com elas, vestindo só o orgulho da própria pele.

“Tinha muita vaidade envolvida naquilo. Um prazer imenso pela ideia de ser desejada por muitos, inspirar punhetas e maledicências. Mas mostrar meu corpo representava também uma postura de mulher liberal, independente. Linda e sem pudor de se assumir gostosa. Autoafirmação, sim – sem vergonha!”

Nesta Trip, Thalma exercita tudo isso de novo. E justamente no mês em que completa 38 anos – 31 desde aquele primeiro beijo na boca.

Nos últimos 15, ela se consagrou como cantora, como atriz, como estrela. As personagens gostam de tê-la dando-lhes corpo – as das novelas, as dos filmes, as das canções.

Apesar de ter nascido carioca, muita gente jura que Thalma é baiana. Acostumaram-se com o sotaque de Zilda, mulher que ela criou para a novela Laços de família, escrita por Manoel Carlos em 2000.

Nesses anos todos, emprestou sensualidade a outras fêmeas da televisão. A Caetana de Xica da Silva (1996), a Marilda de Dona Flor e seus dois maridos (1998), a Baiana de Bang bang (2005), a Berenice de Sete pecados (2007) e a Magali de Caras e bocas (2009).

Em pista paralela, corriam as personas que Thalma imprimia nas canções.

São indiscutivelmente bem estruturadas as figuras criadas por ela em “Cordeiro de Nanã” (Mateus e Dadinho) e “Tranquilo” (Kassin), músicas alheias que sua voz levou ao rádio e à televisão (e estão gravadas em EP de 2004).

Mais primorosa ainda é a personagem de “Não foi em vão”, composição da própria Thalma lançada no primeiro álbum de sua Orquestra Imperial, em 2007, e regravada no ano passado por Mariana Aydar.

“Quem feriu meu coração fui eu, mais ninguém/ quem feriu seu coração foi você também”, ela prega na letra. Sem essa de culpa.

Mas a intérprete e a compositora são só o começo da história.

Thalma teve papel fundamental nos primeiros passos do que hoje consideramos a nova geração da música brasileira quando, lá pelos idos de 2007, trouxe músicos cariocas para suas noites no Studio SP (ainda na primeira versão da casa, na Vila Madalena).

Com espírito agregador, construiu a ponte entre as duas cidades e promoveu uma interação de proporções tais que ainda não fomos capazes de avaliar devidamente.

Observador da cena, eu mesmo só intuía esse movimento, mas não sabia muito bem como prová-lo. Até ver, aqui mesmo na Trip, uma reportagem que trazia um “mapa de afinidades” entre os nomes emergentes da nova música nacional. Só Thalma tinha relações com todos eles. Ela era o sol. Eu estava certo.

Falta a ela fazer mais álbuns seus, para que essa relevância na música se mantenha, se perpetue – é disso que eu sempre reclamo. Mas ela inventa sempre alguma teoria libertária para escapar desse compromisso.

Quando a Orquestra Imperial foi inaugurada, há dez anos, ela já era a famosa Thalma de Freitas e estava na última semana de gravações de O clone, sucesso total no horário nobre. Já era contratada da Globo e ser atriz pagava todas as suas contas.

Hoje, atriz e cantora convivem.

Ao mesmo tempo em que ajuda a compor o segundo álbum da Orquestra, Thalma segue no teatro com Adeus à carne, espetáculo dirigido por Michel Melamed que estreou em fevereiro no Rio e deve ganhar temporada paulistana em julho.

Foi para a peça que cortou todo o cabelo. E isso tem tudo a ver com sexo. Mas a preparação física veio antes, guiada por sua amiga Paula Lavigne.

O mais de meio ano de maromba – que inclui muay thai, ginástica e musculação diária – e mais uma privilegiada genética deram nisso: Thalma brilha agora nestas páginas da Trip como a Lídia Brondi, a Maitê Proença, a Sônia Braga, a Bruna Lombardi de sua adolescência.

“Ser Trip Girl aos 38 é o presente que me dou, em nome dos velhos tempos, quando sonhava em ser amplamente desejada, pelada em capa de revista, fetiche total. E obviamente pelo fato de, 20 anos depois de admirar a beleza glamourosa de La Torloni, euzinha ainda estar em forma. Gata selvagem, sarada, GOSTOSA.”

Feliz aniversário, Thalma de Freitas!

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