por Luis Gervino
Trip #187

Há 50 anos entorpecentes eram comercializados em farmácias sem problemas: eram remédios

A primeira farmácia do Brasil, em Bananal (SP), continua na ativa. Mas o tempo dos remédios à base de heroína, ópio e cocaína ficou para trás

Há 50 anos, seu Plínio Graça faz tudo sempre igual. Acorda cedo e abre as portas de sua farmácia às seis horas da manhã. A rotina desse senhor de 86 anos só não é exatamente a mesma de cinco décadas atrás porque quem visita seu estabelecimento na cidade de Bananal, leste do Estado de São Paulo, não procura remédios. Moradores e turistas vão à Pharmácia Popular conhecer a mais antiga drogaria em funcionamento do Brasil. A história começa em 1830, ano em que o francês Torim Mosnier, um barão do café dedicado à farmacologia, deixou de manipular fórmulas na sua própria fazenda e resolveu abrir a Pharmácia Imperial – o nome mudou em 1889, com a proclamação da república. Nas prateleiras do gringo, frascos de sais de cocaína, heroína, morfina, ópio e maconha. Tudo importado da Inglaterra, França e Alemanha. “Naquela época não existiam os analgésicos de hoje. Só se usavam entorpecentes”, explica Plínio, segurando um vidrinho de morfina, cujo rótulo bordado a ouro anuncia: fabricado em 1860. Uma bancada abaixo, outra raridade. “Este aqui servia para dor de barriga. Chamava-se elixir paregórico, uma mistura à base de ópio.”

Se o mal fosse do humor, uma severa depressão, por exemplo, os médicos não pensavam duas vezes em receitar soluções à base de cocaína. No início a droga era usada apenas para tratar dependentes da morfina, mas sua eficaz ação nos neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer no cérebro chamou a atenção dos psiquiatras. Que o diga Sigmund Freud, usuário e promotor da droga no início do século 19, época em que chegou a publicar o livro Über Coca, sobre suas experiências com o pó branco. Com a palavra, o pai da psicanálise: “O efeito da cocaína é uma exuberante e duradoura euforia que, de forma alguma, difere das sentidas naturalmente pelos seres humanos”. Anos depois, o médico reconheceu estar errado diante dos altos índices de pessoas viciadas no tóxico.

 

Seu Plínio reclama da falta de apoio do governo para manter o local, enquanto folheia o livro de registros dos entorpecentes que eram vendidos na farmácia. “Um dia decidi acabar com o negócio. Mas não tive coragem quando pensei no meu pai, que ficou 34 anos à frente dele, e nas seis décadas do coronel Vareliano José da Costa, proprietário depois do barão francês. Assim como eu, eles dedicaram suas vidas à farmácia.” Sem dinheiro para manter sua drogaria museu, seu Plínio se mantém com o dinheiro das cerca de 500 pessoas que visitam a farmácia por mês. “Na verdade, é o orgulho que me faz levantar todo dia.”

Vai lá: Pharmácia Popular (antiga Pharmácia Imperial), Bananal - SP

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