Sempre no top ten do surf, Rob Machado conta que o mais importante é a busca de sua alma

Rob Machado passou anos entre os top ten do surf competitivo, mas o fato de ser contemporâneo de Kelly Slater nunca permitiu que o cabeludo chegasse ao topo. Sorte dele... Em passagem pelo Brasil, Rob conta por que a busca da própria alma sempre foi mais importante para ele do que um título mundial

“Rob, você sabe o significado de seu sobrenome, em português?” “Não, acho que já me disseram, mas...” “Quer dizer aquela ferramenta que se usa para cortar árvores.” “Sério? Brincadeira...” A entrevista começa bem, pois pelo menos alguma coisa esse monstro do surf pôde aprender comigo. Rob Machado é um dos mais populares surfistas do planeta. Há quase dez anos fora da primeira divisão do surf mundial, e competindo apenas esporadicamente, sua popularidade é impressionante: em menos de 5 minutos parado em frente ao hotel, na calçada em Ipanema, pelo menos dez garotos (e outros não tão garotos assim) param para cumprimentar, tirar uma foto junto, pedir um autógrafo. E o boa-praça Rob Machado não deixa ninguém na mão. Atende todos, sorridente, parecendo genuinamente feliz. E feliz, de fato, está.

Nascido por acaso na Austrália, mas criado na Califórnia, perto de San Diego, Rob começou no surf competitivo muito cedo, nas categorias de base, junto com o amigo Kelly Slater. Chegando rápido ao WCT, a elite do surf, venceu eventos importantes, tornou-se um dos nomes mais respeitados em Pipeline e manteve-se sempre entre os top 10 do ranking, chegando a vice-campeão mundial. A conquista do campeonato, porém, não veio. Em parte, é claro, porque Rob foi contemporâneo de Slater, nove vezes campeão mundial. Há quem diga que Rob, com seu estilo mais relaxado, nunca focou em campeonatos tanto quanto Kelly e por isso não venceu tanto quanto poderia. Pergunto isso a ele, que nega, afirmando que, quando competia, o foco era total e que ele queria sim, e muito, vencer. E tinha, aparentemente, todas as condições para isso. Nascido em família estruturada, com pai que o levava aos eventos e estudando em escola que perdoava as faltas quando ele precisava viajar para competir, foi um atleta dedicado que nunca se ligou em drogas e passou ao largo das megabaladas que costumam cercar os eventos profissionais de surf e que já ajudaram a enterrar um sem-número de carreiras promissoras.

 

Rob ri ao lembrar que Kelly Slater, seu amigo de infância, não gosta de perder nem no pingue-pongue

Revezamento de tubos
Por que então Rob atravessou anos do circuito sem um título mundial? A resposta não é simples, mas é a mesma que explica por que Rob Machado está tão feliz. Em primeiro lugar, claro, a questão do eneacampeão sempre ao lado. Pode-se questionar a afirmação de muita gente de que Slater seja o maior surfista de todos os tempos: há outras abordagens, outros estilos, houve muita gente boa ao longo da história para que o supercampeão garanta, automaticamente, essa posição. Agora, é ponto pacífico que ele é o maior competidor da história do surf. Ou seja, quando se trata de táticas de bateria, de neutralizar o adversário e de surfar o surf que os juízes querem ver, aí sem dúvida o hipercompetitivo Kelly Slater é imbatível.

Rob gosta muito dele e o considera um amigo excepcional, rindo de seu traço competitivo. Uma vez, ainda crianças, estavam na casa dos pais de Rob, na Califórnia, e tinham que ir para a praia para uma competição amadora. Enquanto faziam hora, jogavam pingue-pongue. Rob vencia todas as partidas e Kelly não se conformava. Rob foi ficando preocupado, alertando o amigo de que eles iriam se atrasar para as baterias, mas Kelly queria sempre mais uma partida. Até que Rob o deixou vencer, ele se acalmou e os dois puderam ir para o campeonato. Que, diga-se, terminou com Kelly em primeiro e Rob vice. O mesmo resultado, aliás, de 1995, ano em que os dois disputaram o título até a última onda do último evento, em Pipeline, naquela que é considerada a mais eletrizante final de um evento de surf em todos os tempos.

Ou seja, Rob Machado pode até ser competitivo, mas talvez não tanto quanto deveria para ter sido o número um do tour. E hoje, sem a pressão para vencer baterias, ele pode viajar mais, ousar mais, experimentar os mais diversos tipos de prancha (algo que adora fazer) e, acima de tudo, desenvolver seu estilo muito particular de surf, elegante, fluido e harmonioso. O qual, obviamente, não é o que mais conta pontos num campeonato. Digo que me parece que o surf dele é melhor hoje do que nos tempos das competições e pergunto se ele concorda. “Totalmente”, ele responde. Na verdade, se o critério for estilo e não campeonatos, então Rob Machado pode, com certeza, ser considerado um dos melhores surfistas do mundo. Com relação ao seu surf refinado, especialmente dentro dos tubos, as comparações com Gerry Lopez, o maior de todos em Pipeline até hoje, são inevitáveis. Rob, que desde pequeno admira o havaiano, toma isso como enorme elogio. Pergunto se eles chegaram a surfar juntos, e ele responde que, numa viagem para a Indonésia, por acaso acabaram lado a lado, num barco, por oito horas, quando ficou impossível não se tornarem amigos, e que na sequência compartilharam uma longa sessão na água, revezando tubos numa tarde de ondas pequenas mas perfeitas.

Bali família
Rob Machado veio ao Brasil para lançar The drifter (algo como O errante ou O que está à deriva), filme dirigido pelo veterano Taylor Steele: um projeto ambicioso que levou, em lugares remotos da Indonésia, seis meses para ser rodado e promete, ancorado em imagens belíssimas, ser muito mais o registro da busca pela própria alma do que mais um simples filme de surf. Rob concorda com essa análise e reforça que sim, lá longe, em picos aonde ninguém havia ido antes, interagindo com as populações locais, viveu uma experiência de vida rica e inesquecível. Um dos traços conhecidos de Rob é ser um sujeito família, muito grudado na mulher, Patou, e nas filhas, Macy e Rose. Para fazer o filme, não teve dúvida: mudou-se com a família para Bali, e dali partia para viagens de duas, no máximo três semanas filmando e voltava para se reunir a elas. Longe, em busca de sua alma, mas nunca solitário.

Bem-humorado apesar da maratona de viagens, conversa comigo como se tivesse todo o tempo do mundo. À beira da piscina, no último andar do hotel na avenida Vieira Souto, tem-se uma vista privilegiada da praia. Terminada a entrevista, conto para ele um pouco da história do surf brasileiro e aponto onde era o píer de Ipanema e, ali um pouco mais adiante, o canto do Arpoador, palco de campeonatos lendários, e que em 1976, garoto, peguei um ônibus em São Paulo só pra ir ao Rio assistir ao primeiro Waimea 5000 e ver, de perto, ídolos como Shaun Tomson e Reno Abellira. Ele se diverte com as histórias e diz que gostaria de voltar com mais calma para conhecer, de verdade, o Brasil. Eram quatro da tarde. Ele ainda teria uma sessão de fotos e, à noite, o evento de lançamento do filme, com voo para casa marcado para a manhã do dia seguinte. Nesse ponto, eu parecia mais preocupado com a agenda dele do que ele mesmo. “Cansado?”, pergunto. “I’m cool” é a resposta. Na Califórnia esperavam por Rob a mulher, as filhas e um novo projeto de filme, para o qual ele está compondo e gravando as músicas. Enfim, fazendo o que gosta, no ritmo de que gosta e surfando muito, Rob Machado é, cada vez mais, um cara feliz.

Agradecimento Hurley

 

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