por Lino Bocchini
Trip #204

Na contramão da hipocrisia geral, Wesley T-Lover não esconde seu amor pelas T-gatas

No universo brasileiro de milhares de travestis e clientes ocultos, há pouco espaço para o romantismo e a sinceridade. É aí que se destaca o carioca Wesley T-Lover, técnico em TI e amante das T-gatas. Na contramão da hipocrisia geral, ele assumiu sua paixão na internet e para a família

Íntima de nosso personagem e experiente no mundo trans, a travesti carioca Mayara sabe bem onde a coisa pega de verdade. “As pessoas se surpreendem com a coragem dele de se assumir publicamente na internet, mas o mais difícil deve ter sido contar para os pais.” Era véspera da Parada Gay carioca de 2008, e Wesley tinha acabado de abrir o site Diário T-lover. “Meu pai usa a internet e descobriu”, conta o filho único de 23 anos. “A conversa foi longa, mas ele acabou aceitando. Mais difícil foi com minha mãe. Quando ela soube, saiu de casa nove da manhã e voltou sete da noite, ficou na casa da irmã dela, chorando... Aí meu pai foi lá falar com ela, depois conversamos os três juntos e hoje em dia os dois aceitam, só combinamos de eu não levar ninguém lá em casa.”

Autodeclarado T-lover (amante de travestis), Wesley segue morando com os dois e diz que inclusive conseguiu convencer seu pai do mais difícil: de que não era gay. “Claro que não sou. Gays nunca procuram travesti, gostam é de homem”, explica tranquilo durante a longa conversa que teve com Trip ao lado de sua casa, no shopping das Américas, em Del Castilho, zona norte carioca. “As pessoas se preocupam muito com rótulo, mas eu não ligo pra isso, não. Nunca fiquei com homem, meu negócio é o feminino mesmo, já tive caso com algumas mulheres genéticas. Me considero hétero e pronto.”

Vale o breve contexto: não há censo oficial, mas é fácil constatar que há milhares de travestis espalhados em cada grande cidade brasileira. Boa parte delas vive da prostituição, oferecendo seus serviços nas ruas ou em alguns dos muitos sites especializados. E, óbvio, se há oferta, há procura. Com uma oferta de travestis tão grande, o número de clientes obrigatoriamente também é significativo. E onde eles estão? Raríssimos homens assumem gostar de travestis. Muito mais difícil achar quem se abra para a família. O que torna o caso de Wesley tão singular é que, além de tudo isso, ele coloca rosto e nome reais na internet, mantendo um blog no qual declara toda sua paixão e admiração pelas T-gatas – do inglês T-girls.

“Me atraiu muito o fato de ele ser assumido e não querer só sexo”, explica sua nova namorada, Isabelle, que aparece ao lado dele nas fotos desta reportagem. “Meu namorado anterior me assumia, mas não para a família. Até andava de mão dada e beijava na rua, mas no bairro dele não, tinha medo de que algum vizinho visse”, conta a travesti de 31 anos, que ganha a vida como cabeleireira em um salão de Niterói.

Letícia, amiga de Wesley há três anos, reforça a singularidade de seu modo de vida: “Meu namorado é meio como ele, passeamos em todo lugar, ele me apresenta para amigos e tudo mais. Somos um casal de namorados normal, homem e mulher. Mas da família ele esconde”, conta a moça, que se forma em pedagogia pela UErj este ano e pode usar seu nome social na faculdade. “Ele tem uma visão diferenciada, já namorou uma amiga minha e assumiu numa boa. Tem bastante sensibilidade... Acredito que ele vê que nos expomos – até porque não temos como esconder – e decidiu se expor também. É meu único amigo homem hétero, todos os outros são gays ou mulheres.” Mayara, vizinha de Letícia no bairro de Campo Grande, concorda com a amiga: “Homem quando nos procura é para sexo. Para as travestis não é difícil arrumar namorado. Difícil é achar namorado que assuma”.

Nunca fez programa

Wesley afirma que é um sujeito romântico ou, como prefere, um rapaz respeitador. Jura que nunca fez programas. “Nunca paguei, acho mecânico, não gosto dessa coisa de programa, só sexo e pronto. Nem sei se conseguiria namorar uma que faz... ia dar muito ciúmes, é complicado.” Wesley encontra suas amigas – e eventualmente namoradas – na internet e nos lugares frequentados pelas T-gatas cariocas, como o quiosque Rainbow, em Copacabana, ou a boate Cine, em Bangu, que tem uma noite semanal dedicada às travestis e seus admiradores. Também vai à Parada Gay, onde pode não só fazer novas amigas como tirar fotos com elas sem chamar a atenção. “Tem esse estereótipo de que toda travesti é garota de programa, então os homens olham pra elas só como objeto sexual. Mas eu não. Tenho um olhar de afeto, amizade... Se eu visse só como objeto sexual, faria programas.”

Os lugares que Welsey frequenta são considerados LGBT, o que reforça a patrulha em cima de sua orientação sexual. Seu blog tem em média 50 mil acessos mensais e já chegou a 75 mil. E agressões e ofensas aparecem todo dia. “Esse pessoal quer julgar você o tempo todo, ficam falando que você é gay, que é isso ou aquilo... As pessoas se preocupam muito com a vida alheia, até mais do que com a própria.” Em tempo: seu apelido, Ursão, não tem ligação com a cultura gay de homens grandes e peludos. “Tenho esse apelido há muitos anos, umas amigas lésbicas que deram por eu ser grande e dormir muito.”

Wesley garante que considera e trata as travestis como mulheres, e que isso não é uma questão para ele – inclusive, diz que é sempre ativo na relação sexual. “Acho que os homens procuram essa dualidade num corpo só, um corpo feminino com algo a mais... Saber que ela se tornou uma mulher também atrai muito, no meu caso a atração veio por aí”, analisa. “As pessoas ficam falando muito que fulano é isso ou aquilo, enquanto não conseguem te pôr numa classificação não ficam satisfeitos. Mas já reparou que ninguém questiona se alguém é hétero, por exemplo?”, complementa a amiga Letícia. “E, pessoalmente, gosto que me vejam como mulher, que é o que acontece.”

Viviane Aguilera e Shakira Voguel

O modo natural de Wesley encarar suas preferências desperta admiração entre suas amigas T-gatas. “Uma pessoa como ele ajuda para que tudo isso seja visto como normal, para que se tenha mais aceitação. E olha que ele é bombardeado todos os dias, imagino a barra. Só queremos que nos aceitem como outra pessoa qualquer. E isso o Wesley faz, nos trata como mulheres de verdade”, afirma Mayara. “Com suas atitudes e seu blog ele planta uma sementinha, mas ainda falta muita coisa [para melhorar a situação geral das trans]. De qualquer forma é muito importante seu exemplo, o que ele transmite se mostrando desse jeito”, completa Letícia.

Wesley concorda com essas considerações, mas não cobra o mesmo dos T-lovers enrustidos. “Ninguém é obrigado a assumir, cada um tem sua vida. Mas, se o cara está disposto a pagar o preço, lidar com as críticas, tudo bem.” Aí entra o exemplo do Ronaldo Fenômeno. “Pra mim foi desculpa esfarrapada esse negócio de que não sabia, de que foi enganado. Ele sabia, tava procurando e foi lá. Mas a história só ganhou visibilidade porque uma chantageou ele com o vídeo, queria extorquir. Não fosse isso, ia acontecer e ninguém ia ficar sabendo.”

Tenso no começo da conversa, o T-Lover relaxa aos poucos e deixa o papo fluir. Faz comentários, por exemplo, sobre as travestis que mais admira: Alice de Castro (“muito gente boa, hoje mora na Bahia”); Viviane Aguilera (“muitas usam o nome pra homenagear a musa inspiradora, como ela e a Shakira Voguel.”); Giulia Brun (“muito linda, brinco com ela que parece uma paniquete”); Gisele Vuitton (“tem um site muito bom”); Hilda Brasil (“conhecidíssima, bem amiga, tá na Europa agora.”); e por aí vai. Sem religião – sua família é católica não praticante –, o rapaz hoje é sócio de uma pequena loja de informática num shopping popular na Leopoldina (centro do Rio) e, quando perguntado onde imagina que estará daqui a dez anos, se vê feliz e casado com uma travesti. “Não tenho medo de assumir meu gosto, não preciso ter vida dupla nem esconder nada. Isso é tudo é normal pra mim... Sou um cara livre.”

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