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SUSHI DE OTÁRIO

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Ao que consta, e ao contrário do que muita gente imagina, o sushi não faz parte de nenhum movimento pelo refinamento da cozinha japonesa.
Em verdade, a versão mais fidedigna registra a criação de bolinhos de arroz envolvidos por lâminas de pescados e/ou algas como saída criativa, rápida e especialmente econômica para situações de guerra em que se via metido o império japonês nos distantes tempos de sua formação. O sushi seria assim uma versão barata, ágil, leve, saudável e muito saborosa para o que séculos depois viria a ser batizado como fast food pelos americanos do norte. Faz sentido imaginar os guerreiros famintos e apressados desembainhando suas adagas e fatiando com golpes certeiros atum e pescados recém saídos das águas frias do Pacífico, metendo a mão em seguida num tacho de arroz úmido amassado com as próprias mãos contra a carne do peixe nos poucos minutos entre uma e outra batalha.
Samurais tremeriam nas tumbas sagradas do oriente se soubessem no que se transformou seu alimento artesanal e sagrado, hoje desgraçadamente recheando buchos da burguesia improdutiva e da playboyzada odiosa da capital paulista.
Qual seria o motivo de mais este petardo tão gentilmente classificado por Caco da Veja como iconoclasta?
Resposta: A situação absurda com que se depara hoje o cidadão que aprecia uma refeição interessante e sutíl.
Entre as dezenas de restaurantes que afloram a cada semana nas antes calmas ruas da Vila Madalena, instalou-se recentemente o Kabuki, uma casa de arquitetura simples, na verdade um galpão reformado com bom gosto, onde é fácil perceber cuidado com detalhes importantes como luz, portas e janelas e até na escolha acertada de um músico discreto executando um repertório agradável com seu saxofone.
Depois de lutar durante quarenta minutos com o oceano de Petersons Focas e seus Gols com rack em que se transformam as ruas da Vila nas noites de sábado, cheguei ao endereço, no alto da ainda simpática rua Girassol. Fui recebido por um porteiro esforçado que conseguiu acomodar meu veículo na garagem de um consultório pegado ao restaurante. Entramos e … surpresa: casa cheia e espera de 15 minutos. Assim falou a simpática e também esforçada hostess com seu chapéu preto de feltro escondendo meia testa. Na verdade foram mais de 40 minutos de espera, amenizada por drinks bem preparados. A distração, além da música, ficava por conta das pessoas que lotavam as mesas e o balcão da casa. A grande maioria era visivelmente composta de casais na primeira ou segunda saída. Os mais íntimos pareciam ser os que estavam ao nosso lado. Deu pra ouvir, estavam comemorando seis meses de namoro. Todos muito felizes aparentemente por encontrarem ali uma situação de razoável conforto e um cascolac de requinte mais do que suficiente para ‘ganhar ponto com as mina’. Era fácil identificar estudantes universitários, comerciantes herdeiros da loja do pai, publicitários de segundo escalão e outros filhos de Deus atrás de alguns momentos de ‘charme’ e ‘sedução’. Em quase todas as caras, percebia-se o arzinho de quem está a apenas alguns miutos e dois saquês de uma suíte do My Love onde receberá como prêmio pelo empenho e dedicação, uma hora e meia de carícias e amor.
Um contrato perfeito e bem acabado.
Só um detalhe, quem procura a casa para saborear um sushi, depara-se com uma situação que esbarra no absurdo.
O cardápio oferece no chamado ‘sushi especial’, sete peças entre atum e pescada branca sendo um sushi de camarão e um de salmão mais meia dúzia de rolinhos de arroz com alga, o chamado misto Tekka/ Kapa Maki com tufinhos de pepino recheando três e de atum nos outros três. Algum tempo depois apareceram mais dois rolinhos de algas contendo arroz e ovas de peixes. Ao todo, portanto, quinze bocadinhos comestíveis. Com exeção do camarão com um suspeito gosto de amoníaco, o sabor era honesto. Apenas outro pequeno detalhe: vinte e nove reais.
Vejamos então. Como em todo restaurante pagamos 10% a mais a título de serviço, vamos a 31,90. Uma vez que temos atualmente uma diferença em torno de 5% em relação ao dólar, vale dizer que esta quantia representa hoje cerca US$ 35,50. Divida o valor pelas quinze peças e teremos cada unidade de sushi saindo por US$2,23. Sem entrar em discussões humanísticas ou sociológicas sobre o salário mínimo, a fome na Índia ou os sem-terra, estes números fazem algum sentido?
Quem acha que fugirá da ditadura do sushi de otário, percorrendo as ruelas da Liberdade, supostamente o reduto da verdadeira culinária japonesa a preços honestos, vai dar de cara com ambientes muito menos caprichados e preços tão ou mais escorchantes. Se você ainda se satizfaz com o teatrinho sem graça do velho Tanji e seus gritinhos de Hai! made in Taiwan, vá fundo.
Sim, há uma esperança. Nas quartas à noite, a maravilhosa feira montada no pátio do Ceasa serve junto às barracas de peixe, maravilhosos sushis e sashimis fresquíssimos e a preços não lisérgicos. Se alguém vier com o argumento de que o sushi é uma arte feita num ritual sagrado e que demanda tempo e mão de obra especial, segure bem a carteira. Um amigo japonês que viaja o mundo me disse com a maior calma e segunça: Pouquíssimos sushimem que trabalham em São Paulo têm noção do que seja a universidade erudita onde se ensina a arte no Japão, ao longo de anos e anos de estudos. Nem gás gasta!?

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