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por Kátia Lessa
Trip #248

A imagem e o apelo sensual vêm antes da performance? Com o boom das redes sociais, essa se tornou uma questão-chave no mundo do surf feminino

Desde que Lisa Andersen (quatro vezes campeã mundial) surgiu nas competições dos anos 90 e ganhou o respeito dos marmanjos e as capas de revistas antes só estampadas por eles, o surf feminino nunca mais foi o mesmo. Linda, loira e bronzeada, ela provou que garotas também podiam ter o surf nas veias, como os homens, mas sem precisar agir como eles. As mulheres ganharam uma fatia nos holofotes que antes só iluminavam as bermudas, e o mercado entendeu que a imagem da surf girl vendia, e muito.

De lá pra cá, poucas Lisas surgiram, mas as marcas patrocinadoras, como Roxy, Billabong, RVCA, Volcom, entre outras, aumentaram exponencialmente o número de surfistas em suas campanhas. A briga por espaço cresce a cada ano, e com o boom das redes sociais os próprios perfis das meninas tornaram-se grandes vitrines, que exploram cada vez mais a sensualidade como chamariz para as marcas que as apoiam.

"Hoje em dia as marcas que patrocinam o surf feminino querem, mais do que uma menina que surfa muito, uma modelo para vender biquíni, e isso atrapalha atletas como eu, que querem focar no esporte", critica Silvana Lima, a brasileira mais bem colocada no ranking mundial. "Você nunca vai ver Carissa Moore, Courtney Colongue ou Tyler Whright, que são lindas, se prestarem a esse papel. Elas são atletas de verdade e estão mais preocupadas em acertar a batida ou um aéreo do que em sair bem na foto de fio dental do Instagram", completa.

A terceira colocada no ranking mundial de longboard, Chloé Calmon, concorda com Silvana. Ela diz que existem algumas atletas que optam por explorar a sensualidade em suas redes sociais, mas que jamais escolheria esse caminho: "Isso não sustenta uma carreira. É uma atitude efêmera e temporária. Acho que bons resultados internacionais, uma boa postura profissional e contato com a natureza dão muito mais resultados", diz ela antes de enfatizar que nunca se sentiu pressionada por patrocinadores a aparecer em poses sexy em suas campanhas publicitárias ou em suas plataformas particulares.

Sem medo do sensual
Mas a história mostra que não é bem assim. Não são apenas atletas do baixo escalão competitivo (embora sejam, sim, maioria) as que exploram corpos bem desenhados em anúncios e mídias sociais. Stephanie Gilmore, seis vezes campeã mundial, causou em 2013 um rebuliço no microcosmo do surf ao aparecer acordando de calcinha, em cenas sensuais que não mostravam nem mesmo seu rosto em um vídeo da Roxy que anunciava a etapa do circuito mundial de Biarritz, na França.

As críticas foram duras, mas Steph, a primeira mulher a assinar um contrato multimilionário no esporte, com a Quiksilver, parece não temer explorar sua feminilidade, e o faz sem cruzar a linha da vulgaridade. Em entrevista à revista Hardcore em 2014 ela defende o fato de mostrar mais do que manobras nas telas: "O Tour é composto de meninas jovens, bonitas, competitivas, saudáveis, positivas, inspiradoras, seguras de si. E fazemos tudo isso de biquíni, em locações paradisíacas. É algo sensual. É um estilo de vida sexy. Mas acho que como um todo, o surf feminino já provou na água que tem seu valor, que a performance está lá. Por isso mesmo, não temos que esconder ou tentar diminuir o apelo da nossa beleza, da nossa feminilidade. Somos felizes. Não temos medo de ser sensuais, de sermos femininas."

Modelos que surfam
Há, porém, quem não apenas use, mas abuse do fio dental, das selfies com muito bico e poses para lá de quentes em suas mídias sociais e sejam mais lembradas pela pouca roupa do que pelo que fazem nas ondas.

A americana Alana Blanchard, por exemplo, não perde uma oportunidade de postar imagens sexy em seu Instagram e é lembrada por nove entre dez surfistas homens como a garota que mais abusa desse artifício no universo do surf.

Mas Alana que se cuide, o pódio anda disputado. Tente dar uma busca no nome da surfista Anastasia Ashley. Ao contrário do que aconteceria com Lisa Andersen, o leitor vai encontrar entre as primeiras ocorrências chamadas como "Surfista Anastasia Ashley tentando provar que tem a melhor bunda do esporte". Desde que resolveu aquecer para um campeonato praticando twerking (uma dança sensual) na areia, ela não parou de ilustrar campanhas, ensaios e cada vez mais fotos sexy na internet.

Até a surfista de stand-up paddle Alana Pacelli, que ao lado da irmã Nicole – também atleta – protagoniza o programa Família Pacelli no canal Off, e que já fez ensaio sensual para o canal, reconhece que mostrar o lado sexy pode ser um artifício para aparecer. Mas ela acredita que há um limite: "Acho que toda mulher tem um lado naturalmente sensual, e claro que se a atleta além de surfar é bonita, a marca ganha um pacote que agrega às imagens de campanha. Mas acho que aparecer no Instagram fazendo selfie de calcinha já é demais", diz. "A Alana Blanchard e a Anastasia não são surfistas bonitas, são modelos que surfam, e o apelo sensual não pode vir antes da performance", completa.

Com os homens, a história é diferente. São raros os closes no abdome ou selfies exaltando bíceps torneados. Já pensou num post da barriga tanquinho do Kelly Slater com uma gotinha de água escorrendo e com o pôr do sol ao fundo? A ideia parece estranha? São mais frequentes imagens de manobras ou do surfista deixando o mar como um super-homem aventureiro que realizou um feito inacreditável depois de dropar ondas enormes. Ou de maluquices aquáticas como as do havaiano Jamie O’Brien que desce ondas enormes em boias, stand-ups coletivos e até com trajes pegando fogo, disponibiliza os vídeos na internet e é muito bem pago pelos patrocinadores por isso.

Por isso, Alana Pacelli acredita que o espaço das mulheres em canais que exploram esse tipo de esporte poderia ser diferente. "Na hora de escolher quem vai ter um programa, os produtores ainda optam por mostrar a mulherada bonita porque é isso que os homens querem ver. No Off não existe um programa com a Silvana Lima, que é sensacional, mas tem um programa com garotas do sul que surfam há pouquíssimo tempo. E, se a mídia não mostra o atleta, o patrocinador não investe nele."

Produtor do programa Família Pacelli, Pedro Montes diz que não há nenhum tipo de orientação do canal na direção de explorar a sensualidade nas filmagens com garotas. "Ainda há um machismo incorporado no público do esporte, mas nunca ninguém me pediu para filmar as meninas de forma sensual, com esse foco. Nego ainda prefere ver a Alana Blanchard dando uma rasgada normal ao ver a Silvana quebrando as ondas. Mas o surf feminino só cresce e isso ainda vai mudar", diz. E, aí, a pose na selfie não vai mais importar. Curte quem quiser.

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