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Série de atos de violência obriga a uma reflexão

Vivemos mesmo no país da desonestidade, do crime e da imoralidade?

em 21 de setembro de 2005

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As condições da morte do seqüestrador Fernando Dutra e toda a série de atos de violência obrigam à reflexão imediata sobre a forma como tratamos e entendemos o que são os crimes, quem os comete e como tratamos esses indivíduos. Luiz Alberto Mendes está preso no Carandiru há 29 anos. Autodidata, publicou um livro fundamental para esse entendimento: ‘Memórias de um Sobrevivente’, da Companhia das Letras. Há quatro meses assina uma coluna na revista ‘Trip’, em que publica os pensamentos de alguém encarcerado há quase três décadas. O relato abaixo é inédito.
Honestidade do povo brasileiro
Pela quantidade de denúncias de corrupção de políticos, executivos e funcionários públicos, por conta dos seqüestros relâmpagos e seqüestros transformados em grandes shows, chacinas nas periferias, guerras entre traficantes, e outras mazelas sociais, não te parece que vivemos no país da desonestidade, do crime e da imoralidade? Mas talvez não seja bem assim, se compararmos nossos números com os de países de Primeiro Mundo. Por exemplo: os EUA. No ano 2000 eles estavam com mais de dois milhões de presidiários – correspondendo a 25% dos presos do mundo todo; toda a população da Dinamarca, por exemplo. Nós estávamos com cerca de 204 mil pessoas detidas. Eles gastaram, a título de curiosidade, 40 bilhões de dólares com presos e prisões nesse ano. Nós gastamos cerca de um bilhão e setecentos mil dólares, no mesmo período. A cada 100 mil habitantes, os EUA têm mais de 750 presidiários. Nós, a cada 100 mil, 122 pessoas aprisionadas. Quer dizer, eles, o grande país, onde há pleno emprego, uma economia sempre crescente, assistência social que funciona, educação total sem analfabetismo, apoio social e vigilância ao egresso das prisões, e tudo o mais que pode haver num país de Primeiro Mundo – com tudo isso, lá há muito mais pessoas detidas do que nós, aqui no Terceiro. Só no Estado de São Paulo, temos cerca de 2 milhões de pessoas desempregadas. Nossa economia jamais foi estável – e nem é, por mais que tentem nos enganar. É só a Argentina e a Rússia entrarem em crise para que nós, em efeito dominó, também entremos. Nossas favelas estão crescendo e tornando-se cidades faveladas. As prisões, poucas e superlotadas. A saúde no país, falida. A juventude, abandonada. A educação há muito vem capengando, à míngua de verbas que sempre têm como prioridade o bolso dos políticos e o pagamento da dívida externa – esta excreção. O povo não tem lazer, segurança, habitação digna, como prevê a Constituição do país. O salário mínimo é uma piada. E temos os mais altos índices de má distribuição do mundo. A New Criminology deixou de perguntar por que o criminoso comete o crime. Hoje, eles sabem que o criminoso tem o mesmo perfil social da população de origem mais pobre. Demonstram que nenhuma teoria que defenda uma natureza desumana para o criminoso se sustenta. Questionam, dadas as questões desumanizantes, criminalizantes: por que os demais não delinqüem também? A revista Reader’s Digest, fazendo um teste de honestidade em países europeus, esparramou 200 carteiras contendo 50 dólares e um endereço para devolução. Havia 100% de devolução na Dinamarca e na Noruega. 70% na Suécia; 60% na Alemanha, Espanha, Holanda, França e Inglaterra; 50% na Bélgica e Portugal. O mais baixo índice de devolução, pasmem, foi na Suíça: apenas 20%. É impossível para nós, brasileiros, não nos perguntarmos: se fizesse o teste no Brasil, qual seria o resultado? Alguns, menos observadores da nossa índole, diria imediatamente: sumiriam todas. Pois eu acredito na honestidade e, principalmente, na emotividade do nosso povo. Devolveríamos pensando que iria fazer falta a alguma família pobre. E você, o que acha? Pensa diferente de mim? Vá falar em roubo no Nordeste do país: o povo te lincha. Quanto mais interior, mais lindo e maravilhoso me parece o povo brasileiro.

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