Seriado em HQ
A aventura em quadrinhos Joquempô mostra um Brasil bem diferente num futuro próximo
Capa do primeiro número de Joquempô
Por Diogo Rodriguez
em 18 de fevereiro de 2010
Num futuro não muito distante (2014), Ronaldo Fenômeno está ainda mais rechonchudo e é técnico da seleção brasileira; o PCC e a prefeitura de São Paulo governam juntos uma cidade dividida por um muro que separa o centro da periferia. Em Joquempô, o Brasil é um lugar diferente do que conhecemos, mas nem tanto. Criada por Rogério Vilela, a série promete durar bastante tempo: são onze conjuntos de histórias (o que o autor chama de “arcos”), cada uma com um personagem principal e nomeada por algum passatempo ou jogo. A primeira, que tem Marcel como protagonista se chama “Ligue os pontos” e envolve um jogo com pistas sequenciais numeradas, os tais “pontos”.
O autor Rogério Vilela, 40, diz que não se trata de um exercício de futurologia distópica: “Não é que eu acredite que o Lula vai tentar a reeleição em 2014, mas seria engraçado se tentasse, como seria se o Ronaldo estivesse mais gordo e fosse o técnico da seleção em 2014. É só para criar um panorama para as coisas que eu quero contar”. São Paulo é o cenário e a cidade é mostrada pelo traço realista, “meio Vertigo”, como define o autor, do desenhista Nelson Cosentino.
Longe de ser a típica trama do bem contra o mal, Joquempô tentar criar uma “zona cinza” entre esses extremos. Não há heróis os vilões e “vai chegar um momento em que você não vai saber quem está de qual lado”. Aumentando a confusão, há ainda uma história em quadrinhos parelela correndo dentro de Joquempô, chamada Tribulações, que é de autoria do personagem Marcel.
Não é que eu acredite que o Lula vai tentar a reeleição em 2014, mas seria engraçado se tentasse, como seria se o Ronaldo estivesse mais gordo e fosse o técnico da seleção em 2014
A ousadia já parece render frutos. Há interesse em publicar a história nos Estados Unidos (uma tradução já está sendo feita) e os fãs cobram Vilela da sequência. Até os colegas de Fábrica de Quadrinhos não aguentam mais esperar pelo lançamento do segundo número (para daqui a “dois ou três meses”) e pedem dicas do que vai acontecer. A Trip não resistiu e pediu a Vilela que adiantasse algo que ainda está por acontecer e ele cedeu aos pedidos insistentes: “Um jogador vai ser morto num jogo da seleção no Maracanã”.
Fale um pouco sobre essa distopia que você imaginou. Nela, o Ronaldo é técnico da seleção brasileira…
Aí entra a parte da brincadeira. A ideia não é fazer futurologia, adivinhar o que vai acontecer em 2014, mas brincar com o que pode acontecer. Não é que eu acredite que o Lula vai tentar a reeleição em 2014, mas seria engraçado se tentasse, como seria se o Ronaldo estivesse mais gordo e fosse o técnico da seleção em 2014. E outras coisas: o Brasil vai estar em guerra com a Argentina, os Estados Unidos vão ter problemas bem graves com a China. É só para criar um panorama para as coisas que eu quero contar. Eu vendo a história como se fosse o Lost, são várias temporadas. A primeira, que é o primeiro arco de história, chama-se “Ligue os pontos”, que é do personagem Marcel. São onze personagens principais que estão ligados por algum motivo bem maior – que vai ser explicado bem mais para frente. Cada personagem tem um arco de história, e cada um tem o nome de um passatempo ou brincadeira. Isso ainda não foi explicado, vai ficar claro quando terminar esse arco que é o “Ligue os pontos”. O segundo arco se chama “Jogo da amarelinha” e é de outro personagem, tem “Xadrez”, “Jogo dos sete erros”, até contar a história de todos os personagens.
É difícil fazer quadrinho no Brasil?
Não dá para viver só disso, a não ser que você queira viver mal. A gente tem que fazer uma porrada de outras coisas e fazer o quadrinho. No meu caso, trabalho numa produtora, stand-up, quadro para a televisão, programa de rádio. Adoraria me dedicar só aos quadrinhos.
E conseguir espaço para publicar?
Acho que não. Tendo um projeto bom nas mãos, não é difícil publicar, difícil é ganhar dinheiro com isso. Publicar não é difícil com era quando eu tinha 14 anos, [quando] não tinha quadrinho nacional. Tem muita gente publicando, mas pouco se compra quadrinhos.
Joquempô
Rogério Vilela e Nelson Cosentino
56 páginas
Editora Devir
R$ 19,50
56 páginas
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