por Lia Hama
Trip #218

A volta do big rider Aldemir Calunga a Puerto Escondido, a onda que quase o matou

Depois de quase perder a vida em um acidente em Puerto Escondido, no México, o Big Rider Aldemir Calunga volta a surfar. Seu próximo plano é retornar ao local com o homem que o salvou da morte

Na praia da Cacimba do Padre, um dos cartões-postais de Fernando de Noronha e principal pico de surf do arquipélago, o big rider Aldemir Calunga aguarda a chegada do tubo de seus sonhos. “Vem vindo um swell atípico do continente”, conta, animado. “Você não tem noção de como é bom surfar nele!” O potiguar de 37 anos começou 2013 no chamado Havaí brasileiro menos para surfar do que para recompor as forças, físicas e mentais, depois do dramático acidente que quase lhe tirou a vida na praia de Zicatela, em Puerto Escondido, México.

A história não sai da cabeça de Calunga. Era um domingo, 2 de setembro, quando, após sair de uma onda de 8 pés, foi atingido por sua própria prancha no rosto. A tábua lhe perfurou a bochecha, quebrou três dentes até atingir seu crânio. O big rider apagou na hora e afundou no mar. Ao verem que havia algo errado, três surfistas foram ao local e puxaram Calunga pelo strap (cordinha que prende a prancha ao tornozelo) até a superfície, mas as fortes ondas espalharam todos novamente. Foi quando entrou em ação o bombeiro carioca Marcos Monteiro, que, por sorte, estava por perto. “Remei em direção ao Calunga e segurei o corpo dele. Ele estava desacordado, espumando pela boca e pelo nariz e com sangue jorrando do rosto”, lembra ele. “Por causa do mar agitado, o jet ski não conseguia chegar. Então, com ondas batendo na cabeça, carreguei Calunga nos braços até a areia”, conta o salva-vidas de Saquarema, que também é surfista de ondas grandes.

“O big rider vive nesse edge. De um lado, a busca incessante pela superação. Do outro, a morte”

Da pancada no rosto até chegar à praia foram seis longos minutos. “Calunga tinha função cerebral, mas o coração havia parado”, explica o bombeiro. Monteiro e outros salva-vidas fizeram a reanimação cardiopulmonar. Minutos depois, o surfista voltou a respirar. Uma ambulância o levou até o hospital da região e, de lá, foi transferido para a Cidade do México, onde ficou em coma por oito dias. A notícia correu o mundo e formou-se uma corrente de oração envolvendo fãs, amigos, familiares e alguns dos maiores big riders do planeta. “Calunga é muito querido e admirado”, diz Carlos Burle, ex-campeão mundial de surf em ondas grandes e vencedor da estatueta de maior onda de 2002 no Billabong XXL, a principal competição de surf em ondas gigantes do mundo. “É um surfista com manobras fortes, um excelente tube rider! O acidente nos deixou bastante apreensivos”, acrescenta Burle. Outro big rider, Pedro Scooby, concorda: “Todo mundo orou por ele. Eu orei muito”.

Irmãos de remada

Quando acordou do coma, Calunga não se lembrava do que tinha ocorrido no México. Ainda não se recorda. “Só me lembro da hora em que a prancha bateu e de momentos no hospital.” Nos primeiros meses de recuperação, as ideias estavam confusas e o pensamento era difícil de elaborar. “Mas agora está tudo bem, as ideias não embaralham mais. Só me restou uma pequena fratura no crânio. Preciso tomar cuidado porque posso ter ataques epiléticos. Graças a Deus, não tive nenhum, e espero não ter”, explica. Para evitar crises, passou a tomar remédios e fazer tratamento psicológico. “O psicólogo recomendou que eu buscasse um lugar onde me sentisse em paz e seguro para voltar a surfar. Por isso vim a Noronha.” Ironicamente, nesse período foi registrada uma das maiores ondulações já vistas na ilha. Ondas de 5 metros afundaram barcos e interditaram praias. Quando falamos com ele, Calunga tentava obter passagens para levar o bombeiro que o salvou para pegarem onda juntos no arquipélago.

Fã de Calunga, Monteiro conheceu o ídolo no México. “Sabia que ele era fera não só no surf, mas gente boa também.” Um mês após o acidente, num evento promovido pelo canal de esportes ESPN, os dois se reencontraram em Natal (RN), terra onde Calunga, que mora em Fortaleza (CE), nasceu. Passearam pelas ruas, encontraram amigos e surfaram. “Somos irmãos agora. Temos planos de voltar a Puerto Escondido juntos”, diz o big rider potiguar.

“O mar te devolve o que você dá. É uma troca perfeita e exata”

Sobre o acidente, Calunga afirma não ter restado trauma, apenas os dentes quebrados, a cicatriz no rosto e a fratura no crânio. “Mas tá beleza, não tô nem aí pra isso. O importante é que estou surfando”, diz. A grande lição, diz, é que, além das medidas de segurança, é preciso ter uma atitude de reverência ao mar, sem a arrogância de quem acha que pode tudo. “O big rider vive nesse edge. De um lado está a adrenalina da busca incessante pela superação e do outro lado está a morte. É fundamental ter amor e respeito pelo mar porque ele te devolve o que você dá. É uma troca perfeita e exata. Eu acredito nisso.”

Redução de riscos

A prática do surf de ondas grandes ganha cada vez mais adeptos no Brasil e no exterior. A facilidade de equipamentos como o jet ski – usado para levar o surfista até a onda – ajudou a popularizar o esporte. “Mas tem muita gente querendo pegar onda grande sem o menor preparo. E não é brincadeira. O Calunga é um cara super experiente e olha o que aconteceu”, alerta o big rider Pedro Scooby. E acrescenta: “Se algo sai errado, é a sua vida que está em jogo. Não é um esporte como o vôlei, em que no máximo você torce o joelho. Por isso é fundamental estar preparado”, diz o atleta. Exemplos de acidentes fatais não faltam.

Na mesma praia de Zicatela, onde Calunga se acidentou, outro grande surfista, o californiano Noel Robinson, morreu afogado em 2010 após ser atingido pela prancha.

Calma e força

“Acidentes acontecem, mas o surfista deve se preparar física e psicologicamente para a hora do imprevisto. Ele precisa manter a calma para tomar as decisões certas, ser forte o suficiente para aguentar as porradas das ondas e flexível para não romper ligamentos. Deve treinar força e alongamento”, afirma Carlos Burle. O uso de equipamentos adequados é fundamental. “O que fez Calunga desmaiar foi a pancada da prancha na cabeça. Ele poderia ter evitado usando uma cordinha maior e se protegendo com as mãos. Usar capacete ajuda muito”, recomenda Burle. “Há coletes infláveis usados tanto para o tow-in, surf de reboque com jet ski, como para o surf de remada. Se Calunga estivesse com um, teria ajudado muito no resgate”, diz Marcos Monteiro.

Outra recomendação é estar sempre acompanhado de outros surfistas e de uma equipe de salvamento.

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