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Saia muito justa

Quatro mulheres que destoam do padrão

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Assisti no fim de semana à reprise da divulgadíssima estréia do programa ‘Saia Justa’ do canal GNT. Repetidas vezes mencionei nesse espaço as qualidades do canal, que me parece, no plano geral, uma das melhores coisas da televisão brasileira.
Não tenho nada de especial para comentar sobre o programa. Trata-se de uma conversa entre quatro mulheres que, se destoam do padrão vendido pela média da mídia voltada ao público feminino, o fazem muito mais por demérito dessas revistas, suplementos e programas vespertinos do que por suas qualidades fora de série. São aliás, como elas mesmas fizeram questão de dizer, mulheres comuns, com o que isso possa trazer de bom e de ruim para o programa.
Talvez uma única menção mereça ser feita. Mônica Waldvogel deixa claro como é árdua a luta do profissional forjado numa máquina de refazer e disfarçar mazelas, como a Globo, repleta de salas de maquiagem, retoques, ilhas de edição e videoteipes, diante da crueza do tempo real, onde o brilho tem de ser fruto da própria imperfeição, onde a possibilidade de erro é parte importante do roteiro e onde não há um William Bonner para amparar uma derrapada… Talvez com o tempo seu semblante relaxe e ela possa responder sem corar e fugir do assunto, às perguntas sobre seus próprios orgasmos, disparadas impiedosamente por suas colegas de trabalho.
Arafat e Sharon
Mas tudo isso é pouquíssimo relevante diante da verdadeira saia justa exibida pelo programa. Ela se deu, pasmem, durante os comerciais.
Entre os vários patrocinadores seduzidos pela possibilidade de vincular suas marcas a algo dirigido às mulheres, que não tivesse sua pauta baseada nas edições semanais de Contigo e Caras, havia dois comerciais de um antagonismo inconciliável. O Arafat e o Sharon da publicidade.
O primeiro, um filme da marca de cosméticos Natura, falava de forma clara e direta sobre um assunto que certamente toca de maneira mais funda a qualquer mulher, do que a mais quente das discussões perpetradas pelas apresentadoras do programa em questão: a escravidão velada a que estão submetidas todas as mulheres ocidentais (e em boa medida as orientais). Uma escravidão que vincula felicidade a magreza e idades tenras. O comercial deixa no ar a idéia de que temos de aprender a ver a beleza em todas as suas formas, sob pena de vivermos num mundo de mulheres (e homens, por conseqüência direta) amargas, frustradas, espalhando sua infelicidade pelo mundo como resposta possível diante da inexorabilidade do tempo e frente à condição imperfeita de suas próprias existências. Na seqüência, sem sequer uma placa ou slide de advertência, como aqueles do ministério da saúde para os anúncios de cigarros, vem outro filme, de uma marca de iogurtes, que por elegância e pela crença de que isso possa ser construtivo, vou omitir. O filme nada mais é do que uma sucessão de longos 30 segundos de meninas magérrimas, excepcionalmente magras e bonitas, com menos de 22 anos (várias possivelmente com menos de 18), saltitando em cachoeiras belíssimas e outros cenários idílicos, ao lado de rapazes igualmente magros e imberbes de tão novos. A câmera foca apenas as regiões abdominais dos adolescentes e jovens contratados, enquanto a locução vai pregando em tom proverbial frases que levam a audiência a crer que tomando potes daquele iogurte com 0% de gordura, a mulher brasileira finalmente será inteira, completa e se livrará absolutamente de todas as tensões da dolorida existência, através da conquista de uma barriga com 0% de gordura e músculos aparentes que, de tão perfeita, ainda, como numa promoção de supermercado, lhe restituirá de brinde o rosto e o tônus vital dos 20 anos.
Não achei o programa ruim, e acredito inclusive que, por ser ao vivo, tende a melhorar a cada semana. Mas, se o objetivo é levar à tela as ‘saias justas do universo feminino’, por enquanto, prestaria um excelente serviço se substituísse um ou dois blocos por séries ininterruptas intercalando os dois comerciais. Sem parar.

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