por Plínio Fraga
Trip #238

Racismo, CBF, Dunga, Neymar, Travesti Thalita: nada escapa da mira do baixinho

Modéstia nunca foi a de Romário. Aos 48 anos, o craque que "dava dez sem tirar" e para quem não adiantava nada "dormir cedo e não jogar porra nenhuma" se tornou o senador mais bem votado da história do Rio de Janeiro, com 4,7 milhões de votos. Apesar do decoro da nova função, ele segue afiado - e solta o verbo. Racismo, CBF, Dunga, Neymar, Travesti Thalita: nada escapa da mira do baixinho

Há cerca de um mês, na Câmara dos Deputados, em Brasília, Romário caminhava com a calma do craque que domina a grande área. Os passos eram curtos. Em vez de calção e chuteira, vestia paletó e gravata. Tapas nos ombros e sorrisos surgiam pelo caminho, detendo-o por instantes. Havia um burburinho de estádio de futebol. 

Às 15h42 do dia 8 de outubro de 2014, Sua Excelência Romário de Souza Faria, 48 anos, comemorava os 4,7 milhões de votos que recebera três dias antes: “Não é todo dia que um ex-favelado é eleito senador da República”, discursou da tribuna da Câmara, onde cumpre mandato desde 2011 pelo PSB-RJ. “Eu me permito deixar a modéstia de lado e afirmar que a minha vitória é um feito na história do parlamento e na do meu estado: com muita honra, tornei-me o senador mais bem votado da história do Rio de Janeiro.”

Modéstia não está entre as qualidades de Romário. Foi uma “vitória do caralho”, resumiria depois, longe dos microfones. Resultado de um mandato de deputado do qual “gosta pra caralho”, afirma. Apesar de reclamar que “tudo o que tem a ver com o Romário, nego fala pra caralho”. A verdade é que Romário está cheio de tesão para o novo mandato. Um caso em que confundir eleição e ereção não parece fazer tanta diferença assim.

ESTRELA DO ESTRELINHA

Nascido em 1966 na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, Romário mudou-se em 1970 para a Vila da Penha, outro bairro do subúrbio. Cresceu entre campos de terra batida e malandros ingênuos – se comparados com os traficantes que dominam a venda de drogas hoje na região. Filho de seu Edevair e dona Lita, nos primeiros anos da infância não tinha geladeira em casa, muito menos televisão. O país era embalado pelo milagre brasileiro do general Médici e pela comemoração do tricampeonato mundial de futebol. Na casa de Romário o que existia era o rádio. Seu Edevair buscou o nome do filho ali, ao pé do aparelho. “Romário, o homem dicionário” era um quadro do programa César de Alencar.

Em 1979, a estrela do Estrelinha, time de várzea criado por seu pai, foi levada por olheiros para treinar no Olaria Atlético Clube. Tinha 13 anos, era magrelo e franzino. O apelido Baixinho se associaria à sua vida a partir daí, mesmo chegando a respeitável 1,68 metro na vida adulta (não muito distante da altura média do brasileiro, 1,72 metro). 

Às vezes, Romário faltava aos treinos porque não tinha dinheiro para a passagem do ônibus. Para a escola ia sempre. Caminhava 6 quilômetros para ir e voltar de Cordovil, onde estudava. Em poucos anos, entraria no juvenil do Vasco. Profissionalizou-se em 1985 e três anos depois, aos 22, foi jogar na Europa. Em 2000, a Fifa o escolheu como um dos cinco maiores jogadores da história do futebol. Tostão afirmou que foi o maior atacante que viu jogar. O holandês Johann Cruyff chamou-o de “o gênio da grande área”. O escritor uruguaio Eduardo Galeano comparou-o a um tigre que aparece do nada, dá seu bote e se esfuma. 

Encerrou a carreira em 2007. Contabilizou 1.002 gols. Jogou por 12 clubes. Depois de Estrelinha, Olaria e Vasco da Gama, vieram PSV Eindhoven, Barcelona, Flamengo, Valencia, Fluminense, Al-Sadd, Miami, Adelaide United e, realizando o sonho do pai, o amado América, pelo qual disputou uma única partida. O América será a próxima novidade na vida de Romário. Deve assumir neste mês como presidente do clube.

UM CARALHO DE DIFERENÇA

Nos últimos quatro anos, como deputado, Romário apresentou 130 proposições legislativas. Foi autor de projetos de lei que limitam a reeleição de dirigentes esportivos em federações estaduais, além de fiscal renitente dos abusos nos gastos com obras da Copa do Mundo. Apresentou projetos de lei variados. Da lei que tipifica como crime a chamada pornografia de vingança (revenge porn) até a que aumenta penas de violência sexual e crueldade contra pessoas com deficiência. Fez a defesa constante das pessoas com doenças raras. Ivy, sua caçula, tem síndrome de Down. É a maior inspiração na vida pessoal e política do pai.

Todo craque pensa rápido. Antecipa-se ao marcador. Romário é assim. “Quem precisa ter boa imagem é aparelho de TV”, respondeu a quem cobrava por seu comportamento fora de campo. Sobre um técnico novato que o repreendeu, disse: “O cara entrou no ônibus agora, não está nem em pé e já quer sentar na janela.” Nos últimos dias da recente campanha eleitoral, Romário gravou mensagem de apoio a Aécio Neves – depois de dez dias de negociação em que o tucano teve de contornar atritos passados entre o senador eleito e Ronaldo, centroavante campeão mundial e amigo de longa data de Aécio. Ex-amigos, Ronaldo e Romário trocaram críticas quando o primeiro integrava o comitê organizador da Copa, alvo da acidez do parlamentar. Ronaldo queria ouvir um pedido de desculpas de Romário, o que não aconteceu. Mas essa não foi a primeira vez que o Baixinho não arredou pé e envolveu-se em polêmicas, sem medir o tamanho do oponente. “O Pelé calado é um poeta. Era bom colocar um sapato na boca dele”, atacou ao ouvir que o rei do futebol tinha dito que era hora de ele se aposentar. 

Em vez de parar, Romário se reinventou. É pai de seis filhos, com quatro mulheres. O que o obriga a pagar quatro pensões e visitar três casas diferentes. Apenas dois moram com ele em Brasília. Afirma que está de novo solteiro: “Estou namorando uma pessoa, mas ela não sabe ainda”. Continua a colecionar polêmicas. Outro dia foi tema de colunas de fofoca ao ser fotografado de mãos dadas com Thalita Zampirolli. Quando lhe perguntei sobre o tema, chamei Thalita de travesti. Romário me corrigiu: “Ela é transexual. Não confunda as coisas, porque elas ficam bravas”. Entre uma e outra coisa, há um caralho de diferença, ensina o senador eleito.

"Eu sou negro. Se o Neymar não se acha negro, não é negro. Ele é quem decide. Eu sou preto. E está tudo certo."

Trip. E a CPI da CBF, sai ou não sai?

Romário. Segundo a presidência da Câmara, está na fila, depois de eu ter conseguido as assinaturas necessárias para aprovar sua instalação. Era a oitava na fila de instalação cinco meses atrás. No mês passado, já era a quarta. [O Congresso tem um limite máximo de cinco Comissões Parlamentares de Inquérito em andamento simultâneo. Os demais pedidos de instalação de CPI entram em uma fila, aguardando que as anteriores terminem seus trabalhos para que as novas sejam instaladas.] Espero que saia. Seria um grande orgulho presidir ou ser relator da CPI, mas politicamente sei que é difícil porque não acham interessante que isso ocorra [os cargos de presidente e relator são designações das maiores bancadas do Câmara, atualmente PT e PMDB.] O correto seria que eu fosse, no mínimo, o relator.

O que você quer investigar na CBF? Aquilo é uma caixa-preta. O Brasil precisa saber o que acontece na CBF. São as contas em geral. Quanto ganhou, quanto pagou, para quê. Quantos ficaram ricos e por quê.

A CBF terá um novo presidente, Marco Polo del Nero, a partir de abril. Mas você acha que nada muda, porque já o chamou até de “rato”. Del Nero e [José Maria] Marin [atual presidente da CBF] são dois dos piores profissionais e administradores do país. Definitivamente não são o tipo de administrador que a CBF precisa. A CBF precisa de diretores de perfil moderno e profissional.

Você sempre foi próximo ao Dunga, técnico da seleção, quando era jogador. Você troca ideias com ele? Ele sabe o que penso. Primeiro de tudo: não era hora de ele voltar ao comando da seleção. Já que voltou, boa sorte, espero que faça um bom trabalho.

Quem você preferia como técnico? Algum estrangeiro? Não. Temos condições de escolher alguém jovem, com ideias novas. A CBF é tão atrasada que colocou o Gilmar Rinaldi para ser coordenador de seleções. Ele não tem a mínima condição de assumir nada. Nem em clube, imagina na CBF. Infelizmente a seleção vai se transformar num banco de negócios. Espero que não, mas é o que vai acontecer. Só espero que o Dunga não se meta nisso.

O que achou do Dunga nesses primeiros jogos no comando da seleção? A primeira passagem do Dunga pela seleção foi boa. Só perdeu o que era mais importante, a Copa do Mundo [risos]. A seleção precisava de algo novo. Já que é o Dunga, meu amigo, espero que se dê bem, que faça um bom trabalho.

Neymar vai superar Romário? Vai. Em relação a gols na seleção, vai. [Neymar tem 40 gols pela seleção, sendo o quinto maior artilheiro. Romário, com 55 gols, é o terceiro, atrás de Ronaldo (62) e Pelé (77).] 

Será maior do que Romário, então. Romário é insuperável. Vai fazer mais gols, só. Talvez chegue aos mil gols. Mas ser igual a Romário ninguém vai ser, não [risos]. Ele tem tudo para ser maior do que o Messi. Messi já está na história de alguma forma. Neymar pode entrar para a história de um jeito mais completo. Messi talvez nem tenha mais uma Copa para disputar e vencer. Neymar tem mais três ou quatro para disputar.

Você assiste a jogos de futebol hoje? Não vejo porra nenhuma.

Por quê? Porque o América não aparece. Infelizmente.

Em novembro, você assume a presidência do América-RJ. Existe essa possibilidade. Há 90% de chance. O novo conselho já foi eleito. Sou o presidente da chapa única. Eu sou América. Os primeiros dez jogos de futebol a que assisti, com meu pai, foram do América. 

Como será o Romário gestor? Como conseguir dinheiro para o América? Vou correr atrás de patrocinador. Hoje é mais difícil arrumar patrocinador do que jogador. Os empresários infelizmente têm muita desconfiança – e com razão – em relação a onde colocam o seu dinheiro no futebol. Ainda mais em um clube fora da primeira divisão. 

Como vê a atuação da Caixa Econômica Federal, um banco público, como maior patrocinadora do futebol do país? Se o América conseguir seu certificado de adimplência em relação ao governo federal, vou atrás da Caixa. Nesse caso, não vejo problema ser dinheiro público. É investimento no esporte. E, se eu for presidente, uma coisa não vai ter nada a ver com outra.

Você declarou patrimônio de menos de R$ 2 milhões quando se lançou candidato ao Senado. Para quem já
teve vários carros importados, vários apartamentos à beira-mar e atuou nos principais clubes do mundo, é um patrimônio pequeno. O que aconteceu? Costumo dizer que dor de barriga dá em todo mundo. Eu tive a minha. Tudo o que perdi na Justiça e tive de pagar, paguei. Tenho a receber de três clubes brasileiros: Vasco, Flamengo e Fluminense. Somando tudo, dá R$ 70 milhões no mínimo. Tive problemas financeiros num período da vida. Mas consegui pagar o que devia. Sou um cara feliz com o que tenho. Vivo numa situação confortável, feliz.

Por que gosta de Brasília? Já disse que “gosta pra caralho” de ser deputado. Isso vem desde 1995, quando jogava no Flamengo. Jogávamos muitas partidas aqui. Arrumei muitos amigos. A qualidade de vida de Brasília é muito boa. Todo mundo reclama do clima seco, mas para mim sempre foi muito bom. Jogo meu futebol e até futevôlei. Na minha casa, montei uma quadra de futevôlei. A cidade tem bons restaurantes e noites animadas. Muita festa na casa de amigos.

"Sou 100% a favor da criminalização da homofobia. Cada um tem sua forma de expor suas preferências. [...] A reação violenta só tem um nome: babaquice."

Houve uma festa na sua casa de Brasília que saiu em todos os jornais, com vizinhos reclamando de que o barulho foi até o amanhecer. Quem eram os convidados? Tudo que é do Romário, nego fala pra caralho. Sou até feliz por isso. Chegaram a dizer que havia convite à venda, mas não era pago, não. Se alguém vendeu, foi de forma indevida. Convidei várias pessoas de Brasília. Alguns amigos do Rio e de outros estados foram também. Na minha rua, já houve várias festas como aquela em outras casas. Como era a festa do Romário, há sempre quem queira aparecer em jornal e site. Muitos vizinhos foram na minha festa.

Suas assessoras são muito bonitas [duas delas acompanhavam a entrevista, uma foi eleita musa da torcida do Atlético e trabalha como jornalista no gabinete do deputado]. É critério de contratação? Antes de serem bonitas, levantamos os currículos delas. São profissionais. A Márcia Magalhães, a musa paranaense, é formada em jornalismo e fez carreira no jornalismo esportivo. Por acaso, é linda. Parabéns. É ótimo ter mulheres bonitas por perto. Mas o mais importante é o currículo. 

Existe mulher bonita no Congresso? Minha musa lá é a deputada cadeirante Rosinha da Adefal (PTdoB-AL). Ela e a Mara Gabrilli (PSDB-SP), também cadeirante.

A política é arte mais difícil do que o futebol porque dá menos alegria?Este governo do PT não tem dado

muita alegria. Todo mundo enriquecendo ilicitamente, prisão que o cara entra hoje e sai amanhã. Nossos velhos sofrem pra caramba com aposentadorias diminuídas pelo fator previdenciário. Os deficientes que recebem o Benefício de Prestação Continuada do governo ganham um terço do salário mínimo. Se roubarem menos na política, meterem menos a mão e elaborarem uma política pública mais direcionada, pode-se melhorar, dar mais alegria ao povo. 

Quais são suas principais bandeiras como político? O básico é obrigação. Saúde, escola e emprego. Além disso, precisamos de centros de excelência para diagnóstico e tratamento de pessoas com doenças raras e deficiência física. Rodo muito o Brasil. Isso não existe. E tem o crack, que invadiu o país. Temos vários centros de reabilitação no Rio, mas 80% deles são mantidos pelas igrejas evangélicas e católicas. Os governos federal, estadual e municipal não agem. Se o esporte chegasse às comunidades e locais carentes, se os moleques tivessem condição de praticar esporte, haveria muito menos dependentes. Conheço essas porras todas. E não vou lá só nesses três meses de campanha. Eu vim de lá. E ainda vou lá. A maioria dos meus amigos continua vivendo nas comunidades. Jogo futebol com eles. Compareço no aniversário dos caras. Vejo como é. Minha ideia de melhora não é teórica. É prática. Vejo isso todos os dias.

E a internação do viciado em crack tem que ser voluntária ou não? Cara, tem de ser compulsória. O dependente, criança ou jovem, perde a noção das coisas. Crack é a única droga que pode viciar desde a primeira vez, segundo os especialistas. O cara não tem noção. Tem de pegar e internar. Mas num lugar que tenha condição de essas pessoas se curarem e se tratarem. Não pode colocar todo mundo num caminhão e levar para um lugar qualquer, sem a mínima condição, onde o cara vai ficar pior lá do que na rua. É preciso uma política pública direcionada. O governo tem de gastar. Deixar de gastar R$ 1 bilhão ou R$ 2 bilhões em estádios e colocar dinheiro nisso. O pessoal tem de parar de roubar R$ 25 bilhões da Petrobras e colocar dinheiro nisso. Se não as coisas não vão acontecer.

Esporte é um tema pouco abordado pelos políticos. Ninguém falou em esporte nos debates presidenciais. Os dois assuntos que fazem parte da minha vida política não foram tratados na campanha presidencial: pessoas com deficiência e doenças raras e esporte. Foi uma falha grande dos dois candidatos no segundo turno e da Marina Silva também no primeiro. Eles tinham de repensar isso.

Esperava uma vitória tão fácil para o Senado? Só entrei na disputa quando vi que tinha ao menos 50% de chances de ganhar. Vi as pesquisas e aceitei a candidatura. Os pré-candidatos eram, além de Cesar Maia, Sérgio Cabral e Wagner Montes. Mas as pesquisas mostravam que eu podia ganhar de todos eles. Foi uma votação muito expressiva. Tive mais votos do que realmente esperava. Em relação há quatro anos, da minha votação de deputado para a de senador, tive muitos votos nas classes A e B. Na primeira eleição, não foi assim. Os caras estão vendo que meu trabalho é mais para o pobre, para as pessoas que necessitam, mas também para o Rio em geral.

Você agora está preocupado com a pornografia de vingança, por exemplo. Como surgem suas ideias de projeto? Os problemas com vídeos íntimos colocados na internet têm crescido muito. Eu e a galera que trabalha comigo vamos conversando e percebendo os temas que surgem e são importantes, como esse. É falta de respeito expor uma relação desse jeito. 

Você já gravou suas relações sexuais? Eu não. Tudo o que fiz todo mundo já sabe.

Você tem uma agenda moderna em alguns pontos, mas é conservador em outros. Por exemplo, é crítico da união civil entre pessoas do mesmo sexo? Quero que as pessoas sejam felizes da sua forma. Mas, se você me perguntar se eu quero que meu filho case com homem, a resposta é não. Se quero que minha filha case com mulher, também não. Mas, se casar, que sejam felizes assim. O Estado é laico. Não tem de haver abordagem religiosa sobre esse ponto. 

É a favor da criminalização da homofobia? Sou 100% a favor da criminalização da homofobia. 

O futebol é um universo homofóbico? O Emerson, quando estava no Corinthians, foi hostilizado pela própria torcida depois de aparecer dando um selinho num amigo. Cada um tem sua forma de expor suas preferências, de dizer que está feliz, de comemorar algo. A reação violenta só tem um nome: babaquice. 

Há jogador que entra em campo e a torcida chama de gay. Existe muito atleta no armário no futebol? A pessoa tem o direito de escolher se quer falar da sua intimidade. Se ela não quer se expor, se acha que assumir vai expô-la de alguma maneira, tem o direito de ficar na sua. 

Você jogou com jogadores gays? Acredito que tenha jogado. Mas nunca vi ninguém dando na minha frente não.

"A CBF é um mal para o futebol e para a seleção. [...] Aquilo é uma caixa-preta. O Brasil precisa saber o que acontece na CBF."

E o racismo no futebol? Como acompanhou o caso do goleiro Aranha, xingado de macaco por torcedores do Grêmio? O racismo é evidente, está no dia a dia da nossa sociedade. Em todos os segmentos. No esporte não é diferente. Eu chamar alguém de macaco porque a pessoa é preta vai depender da forma, do motivo e do momento para poder dizer que é racismo. O caso do Aranha foi racismo. Só acho que não é o clube que tem de pagar, não é a torcida. São aqueles torcedores específicos que praticaram o racismo que têm de ser punidos. Os torcedores que chamaram o Aranha de macaco foram identificados e têm de pagar por isso. 

Já enfrentou episódios de racismo, seja no Brasil ou quando jogou no exterior? Não. Nunca tive barreira de cor nem no começo da carreira. Com 22 anos fui jogar na Holanda. Passei seis anos lá. Não aconteceu nada disso. 

Neymar já disse que não se acha negro. Você é negro? Eu sou negro. Se ele não se acha negro, não é negro. Ele é quem decide. Não acredito que ele fale isso por ter vergonha de se admitir negro. É porque realmente não se acha negro. Eu sou preto. E está tudo certo.

E no parlamento? Há preconceito? Lá me relaciono com todo mundo. Menos com os corruptos e ladrões. Falo até com alguns desses, mas porque ainda não divulgaram provas contra eles.

Conseguiu fazer amigos entre os deputados? Sim. Domingos Neto (PROS-CE), Julio Delgado (PSB-MG), Valadares Filho (PSB-SE), José Antônio Regufe (PDT-DF), Silvio Costa (PMNPE). Às vezes, a relação de amizade independe da política. Tenho muito boa relação com o Miro Teixeira (PROSRJ), com o Chico Alencar (PSOL-RJ), com o Rubens Bueno (PPS-PR).

Estudo sobre suas votações e discursos feito por um grupo de pesquisadores mostrou que você está no centro. Suas posições não são de esquerda nem de direita. Suas votações em plenário também não são nem de apoiar o governo nem de ser oposição. Entrei na política por meio de um partido de esquerda, o PSB. Mas tenho consciência que preciso votar naquilo que eu entenda que seja bom para a população. Por isso é que não se consegue identificar se sou de direita ou de esquerda. Quando tem um projeto de lei, projeto de emenda constitucional, medida provisória para votar, independentemente do que meu partido peça, eu voto com minha consciência. Muitas vezes contra meu partido. Um exemplo: na votação do novo Código Florestal votei a favor, porque o partido pediu. Depois percebi que o projeto prejudicava o Rio de Janeiro. Então me arrependi. Comecei a agir de modo mais individual na votação. No Código Florestal, foi unanimidade no partido. Depois vi que estava errado. O Código Florestal era bom para alguns estados, mas não para o Rio.

Qual será seu posicionamento em relação ao novo mandato presidencial? Oposição ou situação? Vou votar com a minha consciência. Meu partido não me deu porra nenhuma. Eu dei muito mais para meu partido. Quatro anos atrás, o PSB teve 4 mil votos na legenda. Neste ano, teve 120 mil votos. Eu fiz um deputado federal e um deputado estadual. Fiz porque fui para a televisão pedir voto. O partido não me deu nenhum real para fazer campanha. Nenhum tipo de ajuda. Nada. Esse é mais um motivo pelo qual vou votar como quiser.

Seu partido encaminhou dinheiro. Você recebeu financiamento de campanha da Ambev, patrocinadora da CBF. É algo que contradiz seu discurso, porque já condenou o que chama de “bancada da bola”, financiada pela CBF e por seus aliados. Como explica? Recebi da Ambev porque o partido nacional mandou, é verdade. Se aparecer em oito anos algum projeto relacionado a beneficiar a Ambev, ou aos bancos Santander e Bradesco, que me ajudaram também, se for contra minhas ideias, contra a população, eles já sabem: não tenho rabo preso com eles porque me ajudaram. 

E sua posição em relação à CBF, da qual a Ambev é patrocinadora? Isso aí principalmente. A CBF é um mal para o futebol e para a seleção. Não vai ser uma patrocinadora que mudará minhas opiniões. Faço questão de deixar isso claro. Quero que as pessoas me cobrem ainda mais quando houver votações em jogo para beneficiar bancos, cervejarias ou coisas assim. A pauta de oito anos de mandato será extensa. Muitos assuntos polêmicos cairão lá, e as pessoas, eu sei, vão me acompanhar.

O STF deve determinar a proibição do financiamento privado de campanha. Você é a favor do financiamento público de campanha? Tem de haver uma reforma política geral. Não só acabar com o financiamento privado de campanha. Por exemplo, o que sou totalmente contrário são essas placas de propaganda dos candidatos. O país ica três meses com esse lixo na rua. Essa porrada de placas de campanha na rua tem de ser proibida na reforma política. Sobre o financiamento público de campanha, ainda não tenho opinião formada. 

Outro tema polêmico: é a favor da redução da maioridade penal, a idade mínima pela qual um jovem pode ser condenado por um crime em patamar equivalente ao de um adulto? Sou a favor. O cara que vota tem consciência de muitas coisas que faz. Se cometer um crime, tem de pagar por isso. Mas tem de haver uma reforma geral. Que se mude a educação. Sou contra também o massacre a crianças e jovens, principalmente pobres e negros. Essa lei não pode servir apenas para preto e pobre. 

Uma das posições mais modernas no Brasil sobre drogas, hoje, é do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele defende, ao lado de outros líderes mundiais, a descriminalização das drogas. Qual sua opinião? Não sou a favor. Tenho seis filhos. Não acho bonito que meus filhos fiquem usando droga por aí. Mas um jovem preso com baseado não deve ir para a cadeia. Na Holanda, a droga não é liberada. Em Amsterdã, permitese comprar maconha, mas não é em todo o país. Nosso país tem problemas em muitas áreas. Tem muita coisa que precisa ser feita antes disso. 

Você morou em Amsterdã. Nunca entrou num daqueles cafés e fumou maconha? Nunca. Nunca fumei maconha, nem cheirei pó. Nem loló [droga caseira à base de clorofórmio e éter] nem nada.

"Não era hora de o Dunga voltar à seleção. [...] Infelizmente, a seleção vai se tornar um banco de negócios. Espero que não, mas é o que vai acontecer. Torço para que o dunga não se meta nisso"

Bebe? Até o último dia em que joguei, nunca bebi. Passei agora a beber um pouco de champanhe ou de prosecco. Mas sou fraco pra bebida.

No seu tempo de jogador, você gostava de ficar na noite. Era sem bebida, só atrás de mulher? Só atrás, não. Na frente também [risos]. Conheço muitos jogadores hoje que fumam e bebem. É uma coisa ruim para o corpo.

No futebol, repreender os jogadores, trancá-los em concentração, esse tipo de coisa ajuda para mantê-los na linha? Não adianta. Muitos clubes que acabaram com essa história de concentração têm resultados positivos. Outros mantêm e também têm. Vai depender da consciência profissional de cada um. Da forma como a responsabilidade é passada para o grupo, da liderança do treinador, dos jogadores mais experientes, dos diretores. 

Como é sua relação com smartphones, redes sociais e mundo digital? Noventa por cento das mensagens das minhas redes sociais são escritas por mim. O restante fica por conta da equipe. Não sou totalmente voltado para essa porra de rede social, não. Mas olho todo dia, porque é uma obrigação. Em plenário também, porque passa o tempo. Às vezes tem nego falando um monte de merda. E aí fico na rede social.

O Romarinho, seu filho, está com 20 anos, no Brasiliense. Ainda tem chance de estourar? Infelizmente, 20 anos no futebol para muitos já é velho. Ele tem crescido bastante. O Brasiliense é uma boa escola. 

Mas deve ser um peso ser filho do Romário. Pergunte a ele. Eu não vejo isso, não. Ele leva na boa.

Mas o considera um craque? Ele joga bem. Mas Romário ele não vai superar, não. 

"A Thalita não é travesti. É transexual. Não confuda as coisas porque elas ficam bravas. [...] Mas não fiz nada. Hoje tenho dúvida se infeliz ou felizmente não fiz nada, porque bonita ela é..."

Você disse que Pelé calado é um poeta. Como senador eleito, como vê as polêmicas em que já se meteu? A frase é boa, né? Pegou mesmo. Mas sempre falei com o Pelé. Não tenho nada contra ele. Depois disso falei várias vezes com ele. 

Tem algum inimigo? A única pessoa que não consegui voltar a ter uma relação foi o Zagallo. Também não quero. Deixe ele para lá e me deixe para cá. 

Ainda dói não ter disputado as Copas do Mundo de 1998 e 2002? Lembro delas, mas não guardo mágoa. Tenho outras coisas para me preocupar.

Quer sair candidato a prefeito do Rio em 2016? No momento, quero cumprir meus oito anos de mandato de senador. Se nesse período a população entender que deva ser candidato a prefeito ou a governador em 2018, pode ser. Mas não é o que penso agora.

Imagina-se candidato a presidente? Não.

A preparação para a Olimpíada repete os erros da Copa? Já estão gastando sem nenhum controle nem transparência. É obra cara demais, gastando onde não tem que gastar. São erros dos governos federal, estadual e municipal. Não precisa gastar R$ 27 bilhões para fazer uma Olimpíada. Temos outras prioridades, problemas seríssimos a resolver. O evento tem de acontecer? Claro. Um puta de um evento. Mais uma chance de mostrar ao mundo o que é a brasilidade. Foi o que ocorreu na Copa do Mundo. Esse foi o legado positivo. A capacidade de receber, de ser carinhoso, amigo, mesmo com todos os nossos problemas. Como senador, vamos convocar audiências públicas para que os responsáveis pelas obras apareçam e deem explicações.

O Comitê Olímpico Internacional é melhor do que a Fifa? Qualquer um é melhor do que a Fifa. A Fifa é a entidade mais corrupta do mundo. Se o COI fosse pior do que a Fifa... Puta que pariu! Pior do que a Fifa só a CBF e a Conmebol [confederação de futebol sulamericana]. As passeatas de junho de 2013 tinham de continuar. Meus filhos foram, com os amigos. Elas deram uma sacudida nos políticos. 

A última pergunta: o que é aquela foto em que você aparece de mão dada com uma travesti na noite do Rio? As pessoas me conhecem. Há poucas pessoas públicas tão transparentes como eu sou. Se eu tivesse ficado, saído, dado um beijo, seria o primeiro a dizer. Diria: fiquei porque não sabia. 

Não sabia o quê? Que era travesti? Não sabia aquele dia. Agora, a Thalita não é travesti. É transexual. Não confunda as coisas porque elas ficam bravas. Mas, depois do momento daquela foto, ela pegou o carro dela e eu fui para o meu. Não aconteceu porra nenhuma. Depois rolou um papo que ela disse que me namorou um ano... Porra nenhuma. Quis aparecer. Não vejo dificuldade em assumir uma coisa que tenha feito. Diria: não sabia, mas fiz. Mas não fiz nada. Hoje tenho dúvida se infeliz ou felizmente não fiz nada. Porque bonita ela é...

Créditos

Imagem principal: Thelma Vilas Boas

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