por Ricardo Calil
Trip #202

Fera brasileira volta ao UFC e declara: ”Minha agressividade é natural. Nasci com isso”

Ele é manso: lenda viva do MMA, Rodrigo Minotauro Nogueira volta ao UFC; espetáculo que explora a animalidade dos lutadores ou modernização das nobres lutas marciais? Com a palavra, Minotauro: “Instinto é importante, mas estratégia ainda é mais. A fera tem que estar sempre sob controle”.

Em uma tarde quente de julho no Rio de Janeiro, o lutador Antônio Rodrigo Nogueira, o Minotauro, faz uma sessão de fisioterapia dentro do octagon do centro de treinamento Team Nogueira, no Recreio dos Bandeirantes. Depois de uma derrota por nocaute, três cirurgias (duas nos quadris e uma no joelho esquerdo) e dez meses parado, ele luta contra o tempo para estar pronto para sua luta contra o norte-americano Brandon Schaub, na etapa do Ultimate Fighting Championship que vai acontecer no Rio de Janeiro em 27 de agosto, a primeira vez do UFC no Brasil.

Quando a fisioterapia acaba, Anderson Silva, campeão mundial na categoria peso médio do UFC, pede permissão para entrar no octagon e conversar com Minotauro, abaixando a cabeça em discreta reverência. “Ele é um mestre”, explica Anderson depois. Mais alguns minutos e Junior Cigano, que em novembro disputa o cinturão dos pesos pesados no UFC, sobe ao ringue para disputar um round de treino com Minotauro, no papel de sparring para seu ídolo. “É uma lenda viva”, comenta Cigano. No round seguinte, Antônio Silva, o Pezão, que está perto de conquistar o título dos pesados no Strikeforce e veio dos Estados Unidos especialmente para ajudar no treinamento de Minotauro, substitui Cigano como sparring. “Para nós, ele é o exemplo máximo de superação”, completa.

Não é preciso ser especialista em Mixed Martial Arts (MMA) para entender a cena: em meio a alguns dos lutadores mais cascas-grossas do mundo, Minotauro é, sem sombra de dúvida, o macho alfa, o líder natural do grupo.

A fama de Minotauro foi conseguida nos ringues. Com um cartel de 33 vitórias e seis derrotas, foi o único peso pesado a ser campeão nos dois maiores eventos da história do MMA: o Pride e o UFC. Ele ficou famoso por virar lutas dadas como perdidas contra rivais muito maiores, finalizando a luta com um golpe de jiu-jítsu depois de ser duramente castigado – o que lhe valeu o apelido de Rocky Balboa. Por outro lado, nunca foi finalizado em 12 anos de carreira, ou seja, nunca pediu para sair de uma luta.

Mas a liderança de Minotauro foi construída essencialmente fora dos ringues. Rara unanimidade em um esporte envolto em polêmicas, visto como um sábio entre falastrões, Rodrigo é conhecido – ao lado do irmão gêmeo, Antônio Rogério Nogueira, o Minotouro – por ajudar outros lutadores. Quando Anderson Silva rompeu com sua academia em Curitiba, Minotauro abrigou-o no Team Nogueira. Foi ele também quem forneceu estrutura para que Cigano, Pezão, Rafael Feijão, Fabio Maldonado e outros membros de sua equipe deslanchassem no MMA.

Agora é a hora de retribuição. No momento em que o mestre mais precisa de ajuda, seus seguidores estão ali reunidos no centro de treinamento do Recreio dos Bandeirantes para deixá-lo em forma para a luta contra Brandon Schaub. Aos 35 anos, Minotauro reconhece que não será tarefa fácil derrotar um adversário sete anos mais novo depois de dez meses parado. Ele diz que a primeira cirurgia no quadril foi traumática, que ficou deprimido quando se viu sozinho depois da operação e chorou ao pensar que não conseguiria voltar a lutar nunca mais.

Por outro lado, a superação tem sido a marca da vida de Minotauro. Nascido em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, Rodrigo quase morreu ao ser atropelado por um caminhão quando tinha apenas 11 anos. Permaneceu quatro dias em coma e oito meses internado, e ficou com uma cicatriz nas costas em forma de buraco que o acompanha até hoje. Três anos depois, ele voltaria a competir no judô; depois viriam boxe, jiu-jítsu (foi campeão pan-americano antes de receber a faixa preta), luta olímpica e finalmente o MMA.

Apelidado de Minotauro na adolescência por um primo por causa de seu tamanho e de sua força, Rodrigo começou a lutar profissionalmente em 1999, primeiro nos Estados Unidos e depois no Japão – lugares onde se tornou ídolo bem antes do que no Brasil. De lá para cá, viu a imagem do esporte mudar radicalmente: de carnificina humana proibida em vários estados americanos e vetada na TV para negócio bilionário, disputado a tapas pelas emissoras, nas mãos dos irmãos Fertita, empresários de Las Vegas, e do ex-boxeador Dana White.

Minotauro soube cultivar a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Junto com o irmão Minotouro, tem uma academia em San Diego e outra no Rio, mais quatro franqueadas; lançou um suplemento de proteína e terá em breve uma linha de acessórios para MMA, em associação com a marca líder do mercado nos EUA.

Depois de anos desconhecido pela imprensa e pelo grande público em seu país natal, ele virou ídolo pop aqui também. Participou de um clipe do Detonautas e será tema de um documentário com roteiro de Pedro Bial; seus fãs vão de Zezé di Camargo a João Gilberto; os frequentadores da sua academia incluem de Wagner Moura a Fernanda Paes Leme.

Curiosamente, sua primeira luta como profissional no Brasil será a do UFC Rio contra Brandon Schaub. Com a explosão do esporte no país, ele pretende passar cada vez menos tempo em sua casa em San Diego e mais tempo em seu apartamento no Rio, onde vive com o cachorro Temaki e onde recebeu a Trip para esta entrevista. O lutador, aliás, fez questão de tirar as fotos ao lado de seu carismático buldogue francês.

“Quando eu fiz a primeira cirurgia no quadril, briguei com minha namorada, e ela foi embora levando o Temaki. Eu chorei de saudade dele. Comentei a história com um amigo advogado e ele entrou com um processo de US$ 35 mil contra minha ex, alegando que o cachorro era meu apoio psicológico depois da operação. Uma semana depois, ele estava em casa de novo.” Ao lado de Rogério Minotouro, Anderson Silva, Cigano, Pezão, Feijão e Maldonado, Temaki foi fundamental para a recuperação do macho alfa do bando.

“Uma ex-namorada foi embora levando o [cachorro] Temaki. chorei de saudade dele”

Quando você começou a fazer artes marciais?
Comecei a fazer judô com 4 anos de idade, em Vitória da Conquista. Meu pai era contador. Mas minha mãe tinha uma academia de ginástica. Eu ficava lá quase o dia inteiro, cresci nesse ambiente. Numa época tinha até arte marcial na academia dela. Mas eu comecei com o judô numa outra academia, lá perto.

E você mostrou vocação desde cedo?
Total. Todo campeonato que tinha eu ganhava. Meu pai gostava de viajar comigo para as cidades perto de Vitória da Conquista quando tinha competição. Meu irmão e eu começamos juntos.

Vocês já se enfrentaram?
Meu pai nunca deixou. Às vezes o pessoal dos campeonatos botava os lutadores da mesma academia para se enfrentar. Mas meu pai nunca deixou que criasse uma competitividade entre os dois. Quando viramos profissionais, nós naturalmente fomos para categorias diferentes. Ele sempre foi um peso abaixo do meu.

Você quase morreu atropelado por um caminhão aos 11 anos. Você se lembra de como foi o acidente?
Lembro sim. Nós estávamos na festa de aniversário de um primo meu, brincando na porta da casa. Tinha um caminhão parado na frente, de um amigo dos meus tios que estava bebendo lá na festa. Uma hora a molecada subiu na carroceria. O cara saiu da festa, não viu a criançada e começou a andar com o caminhão. Todo mundo pulou pelos lados, e eu pulei por trás. E ele engatou ré. As rodas passaram pelas minhas pernas e pelo meu peito, só não pegaram a cabeça. Me levaram para um hospital de Vitória da Conquista e fizeram a primeira cirurgia. Depois de três dias, uma UTI móvel me levou para Salvador. Fiquei oito meses no hospital. Recebi alta três, quatro vezes. Meu diafragma tinha sido rompido, e eu não conseguia respirar direito. Daí tinha que voltar para o hospital. Na última vez, fizeram uma reconstituição do diafragma e pude voltar de vez para casa.

Quais foram as outras sequelas?
Quebrei as costelas, meu fígado se rompeu e quase o perdi, machuquei os rins e os pulmões, o tendão de aquiles da minha perna esquerda também se rompeu. E perdi uma parte de músculo nas minhas costas. Até hoje tenho um buraco lá.

Esse acidente pode ter ajudado você a se transformar no lutador que é?
Não sei se uma coisa tem a ver com a outra, mas acho que ajudou a me deixar mais forte psicologicamente. Minha resistência à dor é muito alta. O mais importante foi o apoio da família nessa hora de dificuldade. Situação pior que aquela acho que não passo não.

Como você voltou à atividade física?
Antes de pensar nisso, tive que voltar a andar. Foram oito meses só para isso. Era difícil fazer qualquer coisa normal do dia a dia. Depois de um ano e meio, consegui voltar a jogar bola, praticar algum esporte. Passei um tempo sem competir no judô, com medo de me machucar. Fiquei anos sentindo dor nas costas, no lugar onde perdi o músculo. Só fui voltar a treinar para competir com uns 14 anos, quando já tinha mudado para Salvador. Depois, comecei a treinar outras lutas, boxe com 15 anos, jiu-jítsu com 17, luta olímpica com 20.

Quando você decidiu se tornar um lutador profissional?
Com uns 18 anos comecei a competir no jiu -jítsu e a ganhar todo campeonato em que entrava. Aí fui morar nos EUA, comecei a treinar o MMA com 21 anos e abri uma academia lá com 22.

Quais foram seus mestres no jiu-jítsu?
Primeiro, o Guilherme Assad, de Salvador, e depois o mestre dele, o Ricardo de la Riva, aqui no Rio. O De la Riva é conhecido no mundo inteiro, tem várias academias com seu nome. Mas ninguém diz que ele é lutador: é magrinho, humilde, do bem. Entender o estilo de vida do cara foi mais importante do que aprender a luta.

Quais foram os preceitos do jiu-jítsu que você trouxe para sua vida?
Disciplina, se regrar ao máximo. O esporte te ensina isso. Equilíbrio entre o físico e o mental. Uma boa dieta. Humildade, amizade, você também aprende no tatame. Superação. Tem que se superar o tempo inteiro para atingir metas.

“Antigamente, quando eu falava que fazia jiu-jitsu, o cara olhava diferente. Hoje já vê como um esporte profissional”

Por um tempo a imagem do jiu-jítsu no Brasil ficou associada com brigas de rua, como as da turma do Ryan Gracie (morto em 2007). Você pegou essa má fama causada por alguns lutadores?
Antigamente, quando eu falava que fazia jiu-jítsu, o cara olhava diferente. Hoje já vê como um esporte profissional, deu uma mudada. Tinha cem lutadores fazendo bem para a imagem do país, e uns poucos fazendo merda. O pessoal começou a diferenciar quem era quem. E não era só o Ryan, que era meu amigo. Tinha vários caras. Era uma tribo que tinha uma marra, que deu uma desvirtuada na filosofia e na imagem da luta. A filosofia é ser atleta, lutar pelo resultado, pelo país. Profissional mesmo não briga na rua.

Você nunca entrou em uma briga dessa?
Nunca. Quando vinha ao Rio para competir, várias vezes puxaram briga comigo. Às vezes me batiam por trás na balada. Ou o cara vinha pra cima quando eu estava surfando com meu pranchão. Eu olhava, dava uma respirada e saía de perto. Nunca perdi a cabeça.

Como é sua relação com os Gracie?
Tenho muito respeito pelos caras. O Royce é o cara que começou o UFC. Se hoje está todo mundo empregado, todo mundo é lutador profissional, isso se deve a ele e ao irmão dele, o Rorion. Eles criaram esse movimento de MMA no Brasil, no Japão. Temos uma dívida com eles. Lá por 1993, a gente conseguia a fita das lutas com o amigo do amigo, ficava vendo e se perguntando: “O que esses caras estão fazendo?”.

A imprensa brasileira demorou a perceber esse movimento, não?
Muito. A coisa só começou a mudar na Copa do Mundo no Japão, em 2002. A TV brasileira tava lá e todos os jornalistas japoneses perguntavam por mim, pelo meu irmão, pelo Wanderlei Silva. Nós éramos ídolos lá, mas ninguém do Brasil conhecia. Depois da Copa, a TV brasileira começou a nos procurar. Mas demorou para quebrar o preconceito. Hoje somos o segundo maior mercado do UFC no mundo, atrás dos Estados Unidos. Mas, em termos de exposição na mídia, acho que somos o primeiro. Você vê Faustão, Altas horas, toda hora tem um lutador lá. Não é uma coisa que acontece nos EUA.

Qual foi a razão do seu sucesso no Pride? O que você trouxe para o MMA?
Comecei no Japão numa época em que Brazilian jiu-jítsu já tinha estourado, o pessoal já tinha aprendido um pouco como se defender, principalmente os wrestlers americanos. Comecei a usar outras técnicas, já tinha feito boxe, wrestling. Enganava o cara e levava pro chão para finalizá-lo no que eu faço melhor, que é o jiu-jítsu. Para meu peso, tenho uma velocidade muito boa no chão. Não dá para ser só força bruta, tem que ter leveza.

Você enfrentou caras bem maiores que você, como o americano Bob Sapp, foi bastante castigado, mas conseguiu virar várias lutas. De onde você tira essa resistência, essa superação?
Com foco na luta. Você está apanhando, mas com foco na sua estratégia, concentrado em ganhar como planejou, mesmo apanhando. Enquanto eu estiver acordado, entendendo a situação, faço meu máximo para tentar ganhar, vou morrer tentando. Acho ridículo desistir quando ainda não acabaram as oportunidades de virar uma luta. Não tem sensação melhor do que a vitória, que o dever cumprido. Durante três meses antes da luta eu não faço nada, durmo cedo, me alimento bem, treino duro. Por que vou jogar fora esse tempo todo por achar que não dá? Tem que saber se mostrar no bom e no ruim. Esse é o verdadeiro espírito de um lutador. Eu tenho isso dentro de mim.

“Enquanto eu estiver acordado, entendendo a situação, faço o máximo para ganhar. Vou morrer tentando”

Tem algum lutador que é inimigo pessoal?
Tem o Josh Barnett, um americano superchato, marrentão, que desrespeita legal. É o tipo que fica falando contigo no meio da luta: “É só isso que você pode fazer?”. É aquele babacão americano superpreconceituoso. Um otário. Não sou só eu quem não gosta. Todo mundo comenta. Ele machuca os sparrings que treinam com ele. É tipo o cara mau do filme.

E quem é seu ídolo no MMA?
Eu gosto muito do Anderson (Silva, o Aranha), um brasileiro que representa bem, que tem esse equilíbrio entre o mental e o físico na hora da competição, sempre surpreende o adversário, lida bem com a pressão da invencibilidade. Não é fácil se manter lá em cima por tantos anos. 

Já ouvi gente do meio falando que o Anderson é um gênio da luta, mas que mudou com a fama, enquanto você permaneceu o mesmo. A fama subiu à cabeça dele?
Não. O pessoal que fala isso não conhece o cara como eu conheço. Ele é um cara bom, família. Aqui na academia, depois que termina o treino, ele se oferece para fazer a entrada de queda, que é basicamente ser jogado no chão pelo outro. Ele não precisa disso, mas faz, mesmo com a coluna machucada. A gente tem um projeto social lá na academia, atende as crianças pobres das redondezas. Ele sai do treino e conversa com todos, dá luvas. O problema é que ele quer ter uma vida privada, conversar sem ser atrapalhado, sentar com a filha para comer um negócio. Tem sempre gente em volta. Já vi nego rasgando a camisa dele para tentar conseguir uma foto. O assédio às vezes é demais.

E a história de que o Steven Seagal ensinou aquele chute frontal usado pelo Anderson e pelo Lyoto Machida. É verdade ou é marketing?
Aquele chute os caras já davam. Só que tem um detalhe, uma dica que o Seagal deu mesmo. Em vez de dar o chute vindo de baixo, primeiro você sobe o joelho e depois chuta. O cara pensa que vem o joelho e baixa a guarda. Aí entra o chute. Foi o Seagal que deu a dica mesmo. Já me apresentaram para ele lá no Japão. O cara é enorme, maior que eu. E é igual ao personagem dele, aquela mesma marra. Uma vez eu vi ele pedindo ao Joe Silva, matchmaker do UFC, para arranjar uma luta para ele. E o Silva tirou um sarro: “Já sei! O Jean Claude van Damme!”. O Seagal ficou bravo: “Pô, cara, tô falando sério. I’m a legit!” [eu sou legítimo!]. Ele achava que ia aguentar uma luta [risos].

O Dana White, presidente do UFC, é outro cara polêmico. Qual é a sua opinião sobre ele?
É gente boa. Um cara novo, que já foi boxeador, conhece a vida do lutador. Dá para conversar. Ele e os irmãos Fertita, os donos da liga, pegaram o business quebrado, dava uns US$ 250 mil de prejuízo por evento, e transformaram num negócio bilionário. Virou um dos três esportes mais assistidos nos EUA, depois do futebol americano e do basquete. A marca UFC se tornou mais conhecida do que a sigla MMA, é como se a liga fosse maior que o esporte. Quando digo que sou lutador de MMA, nem todo mundo entende. Mas, se falo que sou um lutador do UFC, todo mundo conhece. A marca UFC é uma moda. Todo mundo quer lutar. Crianças americanas de 7 anos de idade me dizem: “Hey! Eu quero ser um UFC fighter”.

“O MMA é o segundo esporte no Brasil. Muito mais gente assiste a MMA do que a vôlei, tênis, natação...”

Há condições de o Brasil chegar a esse ponto?
Claro. Para mim, o MMA já é o segundo esporte no Brasil, depois do futebol. É a realidade. Muito mais gente assiste a MMA do que a vôlei, tênis, natação, judô. Já é. Além do futebol, é o único esporte que vende pay-per-view no Brasil. Em uma luta do Anderson, do Shogun, minha, do Vitor Belfort, passa na frente de um bar para ver se não está todo mundo assistindo. Tem de garoto de 8 anos a senhor de 65. E muita mulher vê, o namorado começa e ela acaba gostando.

A imagem de carnificina passou?
É um esporte que tem sangue, mas para o praticante não é violento. O cara é preparado para isso. Tem treino em que o cara vai chutar cem vezes, eu vou defender 98 vezes, mas dois vão acertar minha cabeça. Na luta, quando isso acontecer, eu vou estar preparado. Eu treinei aquilo, meu pescoço é maior do que o de uma pessoa normal, meu rosto está preparado para aquele impacto. Não é que nem pegar você e colocar lá dentro do ringue. Para mim, violência é o cara vir a 200 km/h e meter o carro no muro numa prova de stock-car. O cara não está preparado para aquele impacto. Numa competição de bike, um cara cai e caem cem bicicletas em cima dele. Aí é violento também.

Você disse que o esporte se profissionalizou. Isso vale para a relação entre os donos do UFC e os lutadores?
Sim. É uma relação profissional. Não é pessoal. Eles não têm amizade com o atleta. Você não é favorecido porque eles gostam de você. Eles fazem um contrato para quatro lutas. Se você vai bem, renova. Se não vai bem, sai. Se perde duas, eles podem te mandar embora antes. Se tiver uma atitude que não convém, se briga ou é preso, por exemplo, também está fora. Tudo está sob contrato. E todo mundo faz sua parte. Mesmo ganhando por luta, mesmo não ganhando um salário mensal, isso te dá uma estabilidade profissional. O lutador vira o funcionário da firma.

Com essa história de o UFC demitir quem perde várias seguidas, a pressão sobre o lutador piorou?
Essa é uma parte chata. A luta se tornou muito mais um embate para ver a melhor estratégia do que ver quem é o melhor lutador. O cara fica lá se guardando, bate um pouco, na hora de receber porrada se segura no outro, fica um pouco no chão e acaba ganhando por pontos. Deixou de ser aquele embate real que a gente tinha no Japão, os caras se pegavam ali pra valer. Essa pressão acaba tirando a emoção. O lutador pensa: “Ah, já perdi uma, não posso perder outra”. O cara não relaxa, não desenvolve. Por outro lado, se luta bem, eles acabam mantendo na liga, independente do resultado. Se ele perdeu, mas deu show, eles deixam lutar. Por isso tem prêmio para a melhor luta da noite, para a melhor finalização da noite. Essa é a parte boa.

Nas suas últimas três lutas, você sofreu duas derrotas por nocaute. Isso aumenta a responsabilidade de uma vitória agora no UFC Rio, para não correr o risco de sair da liga?
Eu não vou ficar me cobrando tanto, porque essa próxima luta representa uma volta depois de dez meses parado, depois de três cirurgias, no joelho, no quadril direito e no esquerdo. Não sei se essa próxima luta pode ser um parâmetro para minha carreira. “Ah, se eu perder eu vou parar, vou repensar”. Para mim, é um momento de superação. Competi machucado nas últimas lutas porque não gosto de furar compromisso profissional. Mas é horrível, você perde não porque é pior que o outro cara, e sim porque não estava 100%. Não quero definir meu futuro nessa luta. É um retorno.

Você nunca foi finalizado. É uma questão de honra para você terminar a carreira sem que isso aconteça?
Eu faço isso bem, finalizar os outros e não ser finalizado. É a parte em que eu sou melhor, no chão. Se eu conseguir terminar minha carreira sem tomar uma finalização, vou achar isso excelente. É meu plano de carreira. Perdi duas vezes por nocaute, mas nunca caí duro, apagado, de olho virado, de acordar no vestiário depois. Isso não deve ser bom para a cabeça do cara.

Vários atletas de ponta dizem que a pior parte da profissão é lidar com a dor. Como você lidou com as suas?
Nessa fase antes das cirurgias eu chegava atrasado a todos os meus treinos porque era difícil levantar e ir rápido para a academia. Eu levantava, sentia muita dor, tinha que aquecer o quadril. Meus últimos três anos foram assim. Minha primeira cirurgia no quadril foi supertraumática. Eles raspam teu osso do fêmur, fazem microfraturas no teu quadril, usam o sangue para transformar em cartilagem. Depois da operação, fiquei oito meses sem poder colocar o pé no chão. Não podia me abaixar, não podia espirrar, não conseguia me virar, não conseguia fazer nada. Fiquei três dias sem ir ao banheiro. Na mesma época minha mãe caiu no gelo, se machucou e não pôde cuidar de mim. Três dias depois da cirurgia, eu terminei com minha namorada, e ela foi embora. Eu fiquei completamente sozinho, sem poder me mexer.

Bateu a depressão?
Fiquei totalmente depressivo. Tive que me abaixar sozinho, fazer a mala, pegar coisas quando não podia. Me machuquei bastante. Aí graças a Deus veio uma amiga minha para cuidar de mim. Já a segunda operação foi bem melhor. A [fisioterapeuta] Ângela [Cortes] foi aos Estados Unidos para me acompanhar e eu melhorei muito mais rápido.

Para um atleta de ponta, é sempre mais difícil operar, pela responsabilidade de voltar a competir, não?
É uma cobrança maior para voltar o mais rápido possível. Eu já estava com esse pensamento de o UFC vir para o Brasil, não queria perder essa. Ter um objetivo até ajudou, tentamos adiantar um processo que levaria uns dez meses. Só agora em julho é que eu deveria começar a treinar, mas comecei dois meses e meio antes disso. Quando eu tive a ideia de lutar no Brasil, o pessoal da minha equipe disse: “Tá louco, Rodrigo, não vem com essa, não”. Aí eu pedi: me dá um mês que eu vou provar que posso lutar. Estava havia dez meses sem treinar. Depois de um mês, eu já estava treinando bem. Daí o pessoal me apoiou, todo mundo juntou para ajudar.

Como você acha que vai ser a luta contra Brandon Schaub?
Vou pegar um garoto novo, forte, duro, que vem de várias vitórias consecutivas. Ele pediu para lutar comigo. O cara quis me pegar num momento de fraqueza, em que não estou no meu melhor, depois de três cirurgias. Não é que não estou 100%, ele acha que não estou. Estou bem. Mas vou ter que me superar para estar 100%. O Shogun vinha de uma cirurgia no joelho quando lutou contra o Jon Jones e foi derrotado. E eu venho de três cirurgias! Mas meu jiu-jítsu é melhor do que o do Schaub, minha técnica é melhor, tenho um treino que ele não tem, sou um lutador que ele não é. Me acho mais talentoso, mais forte e mais completo que ele. Ele está achando que vai me pegar num momento em que não estou bem, mas vou mostrar que posso vencer. Vou levar para a parte de chão e finalizá-lo.

Você tem algum acompanhamento psicológico?
Não tenho psicólogo esportivo. Já tive, em 2004, 2005, um cara da seleção brasileira de boxe. Ainda faço algumas técnicas que aprendi com ele, desde respiração até visualizar a luta antes, me imaginando entrando no ginásio, apertando a mão do oponente, usando minha estratégia, para não ter a surpresa do primeiro toque. Quando você está prestes a competir, aparecem pensamentos negativos na sua cabeça, é natural. Fazendo a visualização da luta, você consegue cortar esses pensamentos.

Você fala muito de seguir uma estratégia, mas como fica o lado instintivo, a animalidade do lutador?
Claro que o instinto é importante. Não é tudo programado. Tem situações que você precisa extravasar um pouco esse lado, mas não pode deixar a fera tomar conta. Você tem que raciocinar, tem que ter instinto, mas totalmente controlado. Os lutadores que sabem controlar aquela adrenalina têm resultado melhor.

E o medo joga a favor?
Tem que ter medo, o medo te deixa esperto, a adrenalina te deixa ágil. Você não pode entrar totalmente sem medo, aí você se expõe muito. Mas o medo deve ser controlado também. Não dá para chegar apavorado. Tem que ter medo de levar um soco que vai acabar com a luta. Mas não é o medo do soco em si. Não é o medo de se machucar. Porque o corpo está preparado. É o medo de perder.

“No fundo, nao acho o MMA agressivo, talvez porque faço isso diariamente. Pra mim, é como jogar bola”

Você parece ser um cara bem sossegado no dia a dia. Como estimula sua agressividade?
Não estimulo. Quero ganhar a luta, não ser agressivo. No fundo, eu não acho o MMA agressivo, talvez porque faço isso diariamente. Coloco a luva e saio na porrada com meu amigo, às vezes com meu irmão. Para mim, é como jogar bola. Eu preciso apenas ficar mais focado antes das lutas, me fechar mais, sem gente em volta. A concentração me deixa naturalmente mais agressivo. Tem gente que come carne vermelha antes da luta. Eu prefiro comer peixe, quero ser ágil, flexível. A minha agressividade é natural. Eu nasci com isso. É como um dom. Tem quem lide melhor com o stress da competição e mantém a calma quando o cara está batendo. Tem gente que é um monstro treinando na academia, mas não desenvolve na luta com um estranho querendo te bater. Eu sou um competidor. Eu compito melhor do que treino. Eu treino bem, mas no dia da competição em me supero.

Se vencer Brandon Schaub, você volta à rota do título mundial e pode ter que enfrentar seus pupilos Cigano ou Pezão algum dia. Como vai ser isso?
A gente nunca vai lutar entre si. Isso é certo e combinado. Não tem dinheiro que faça isso. Esse tipo de competição não é sadio nem em treino. Meu sucesso é ver o cara ser campeão mundial, seja o Cigano, o Pezão ou qualquer um do nosso time. Isso me deixa tão satisfeito quanto ganhar o título. Eu não lutava contra meu irmão, por que vou lutar com os caras?

Você e seu irmão trocaram de lugar em alguma luta no passado?
Não. Mas teve um episódio engraçado... Na virada de 2004 para 2005, fui lutar na final do Pride lá no Japão contra o Fedor. O evento era meio afastado de Tóquio. O pessoal saiu meio-dia para a luta, que era meia-noite. Mas às dez da noite havia uma apresentação na Fuji TV. Saí do hotel às cinco da tarde, mas tava nevando pra caralho. Fechou o metrô, as ruas. Fiquei numa estação do metrô congelando, e a produção me ligando. Quando eram quase dez horas, eu falei: meu irmão está aí no ginásio, bota um capuz e apresenta como se fosse eu. Ninguém percebeu nada. Mas acabei perdendo a luta: cheguei 20 minutos antes, exausto depois de um dia inteiro congelando no metrô. Foi minha segunda derrota para o Fedor.

“A minha agressividade é natural. Eu nasci com isso. É como um dom”

E de namorada você e seu irmão já trocaram?
Já, já. Na adolescência, eu estava ficando com uma garota que não era muito a fim e que o Rogério achava linda. Eu liberei, e ele foi lá dizendo que era eu. Ficou com ela e depois contou a verdade. Eu já namorei uma mulher que ele namorou um tempo depois, a gente até brigou na época.

De porrada?
De discutir. Mas depois a gente se entendeu.

Com a fama como lutador, aumentou muito o assédio?
Rola muito com o Minotauro. Mas eu procuro separar o Minotauro do Rodrigo. Se eu vejo que a mulher está interessada no cara famoso, eu dou um jeito de escapar.

E as ring girls? Deve ser difícil se concentrar com elas passando na sua frente na hora da luta...
Nem olho para elas. Não faço sexo também antes das lutas. Não bebo quase nunca. E drogas eu nunca usei mesmo. Se você está focado, concentrado, traçou uma estratégia, não pode ficar distraído, pensando em mulher. Depois da luta, tudo bem. Dá para dar uma olhadinha [risos].

“Já morei junto com quatro, cinco namoradas, incluindo a mãe da minha filha. Não deu muito certo”

Você já foi casado?
Morei junto com umas quatro, cinco namoradas, incluindo a mãe da minha filha. Não deu muito certo. Cara, eu viajo muito, sou muito focado no que faço. Com a mãe da minha filha, eu estava numa fase que estava viajando pra caramba. Fui para Abu Dhabi, Japão, me mudei para os EUA. Minha vida é meio desorganizada para ter alguém para casar. Preferi me dedicar mais à minha carreira.

Você consegue acompanhar a vida da sua filha?
Consigo. Ela está com 11 anos. Sempre que dá ela está comigo. Eu não passo dois meses sem vir ao Brasil. Dou um pulo em Salvador, onde ela mora, ou ela vem aqui pro Rio.

Você acha que devia haver lutas femininas no UFC?
Acho que é legal mulher lutando. A mulher não tem tanta força física, então vira um lance mais técnico. Elas já estão no Strikeforce, o campeonato que o UFC comprou. A Cris Cyborg, brasileira, arrebenta lá. Na nossa academia, uns 30% dos alunos são mulheres. Elas costumam praticar esportes em que não conseguem colocar a tensão para fora. No MMA, elas extravasam.

Eu mostrei para algumas pessoas que não acompanham o MMA aquelas encaradas que os lutadores dão antes das lutas e eles acharam meio gay...
A coisa da encarada antes das lutas é um lance de intimidação. Mas tem lutadores que não olham para tua cara, como o Fedor, que olha para baixo e na luta é um monstro. Uma coisa que é normal no jiu-jítsu é a galera se beijar no rosto depois da luta. Eu beijo o Pezão, o Cigano. Quem não está acostumado fala: “Pô, os caras se beijam”. Mas a gente é tão amigo, tem tanto contato no dia a dia, que fica normal. É um esporte de contato físico, o tempo inteiro um cara agarrado com outro. Mas não tem maldade. Eu já dei aula para turma feminina, tinha umas alunas lindas, a gente ficava treinando naquelas posições, a mulher cara a cara comigo. Mas nunca pensei em nada sexual. É natural estar lá com o corpo colado, deixa de ser sensual.

Você conhece algum caso de homossexualidade no MMA?
Não conheço... Tinha um lutador americano, era um peso pesado top quando comecei minha carreira, todo mundo desconfiava que ele era, mas não houve comprovação. Claro, não vou dizer o nome. Ele era bem afeminado fora do ringue, bem estranho.

Mas você tem algum preconceito com gays?
Não. Mas eu não treinaria com gay. Eu não tenho maldade, não acho aquele contato físico sexual. Mas vai que ele tem essa maldade de ter um contato físico comigo, de ficar ali agarrado...Eu não tenho e não gostaria que alguém tivesse, entendeu? Eu não teria problema nenhum de ter um aluno gay na minha academia, mas preferiria não treinar com ele.

Você não conhece nenhum homossexual no MMA, mas metrossexual tem muito, né?
Demais. A vaidade no MMA é pior que no mundo da moda. Tem muitos que se depilam, usam brinco, como o Anderson, o [Fabio] Maldonado, que são do nosso time. Uma vez eu me hospedei com o Maldonado numa casa de um gringo superchato, que pediu para não usar o banheiro pessoal dele. E a primeira coisa que o Maldonado fez foi se depilar no banheiro do cara, com a máquina do cara. O gringo ficou puto. Outra vez, o Maldonado me deu um selinho na boca, só de sacanagem, depois de uma luta na minha terra, em Vitória da Conquista. O pessoal não perdoou, ficou gritando: “Veado, veado!”. O Maldonado é uma figura (risos).

Você aproveitou o sucesso do MMA para juntar um patrimônio?
Tenho quatro imóveis no Rio, um em San Diego, um em Salvador. Tenho academia aqui, outra em San Diego e quatro franqueadas. Eu e meu irmão lançamos há seis meses no Brasil nossa marca de suplemento, baseada na dieta que eu faço no dia a dia, com proteína, glutamina e BCAA [aminoácidos de cadeia ramificada]. E vamos lançar uma série de produtos com nosso nome em associação com a maior marca do mercado americano. Vai ter luva, caneleira, protetor de cabeça, short de luta, saco de pancada, equipamentos funcionais para academia, tudo com meu nome e o do meu irmão. O negócio cresceu muito no Brasil. Eu tinha quatro patrocinadores nos EUA, hoje em dia eu sou patrocinado aqui. Mas, para mim, o mais importante foi ter conseguido montar uma estrutura para nosso time, para nossos alunos. Quando eu mando atletas para treinar nos EUA, eles têm casa, motorista, secretários. E, aqui no Brasil, nossa academia é uma das poucas com um esquema profissional, tem preparador físico, fisiologista, fisioterapeuta, refeitório, alojamento para 12 atletas. Faço coisas para atletas nossos que nunca fizeram para mim.

Os lutadores do seu time com quem eu conversei O chamam de líder, de mestre. Você se vê nesse papel?
Você não se posiciona como líder. Você ajuda as pessoas e acontece naturalmente. Mas eu vejo como uma parceria. Da mesma forma que tive contribuição no sucesso de cada um deles, eles tiveram no meu sucesso. Eu dependo do suor do Pezão para tentar ter um resultado positivo, do suor do Cigano, do Feijão, do meu irmão e do Anderson. E eles dependem do meu.

Você tem religião?
Sou católico pelos meus pais. Mas meu avô, pai do meu pai, era evangélico. Então frequentei a igreja católica e a igreja evangélica. Meu irmão mais velho é kardecista. Já frequentei também o centro espírita dele em Salvador. Tem uma igreja Bola de Neve aqui do lado do meu apartamento no Rio. Já fui algumas vezes. Acho legal seguir religião, acreditar em Deus. Hoje não frequento muito a igreja, mas rezo sempre. Rezo antes das lutas, peço proteção para vencer e para não machucar meu adversário.

Você chora de vez em quando?
Em algumas ocasiões. Chorei quando minha filha nasceu. Quando me machuquei e achei que não fosse mais voltar a lutar. Choro com injustiça em eventos. Naquela vez que lutei com Fedor, que achei que devia ganhar e pararam a luta, fui para o hotel e chorei. Nas derrotas de amigos, nas derrotas do meu irmão. Quando me operei, chorei porque minha mãe se machucou e minha namorada foi embora levando meu cachorro. Sou um cara emotivo.

matérias relacionadas