Betão, zé, bolsonaro e o risco

por Ricardo Guimarães
Trip #282

Apesar da arrogância e ingenuidade de uns, existe muita gente prestando atenção no que está acontecendo de fato no mundo

Caro Paulo,

Depois que o Douglas me avisou que o tema dessa edição era risco, parece que o mundo não fala de outro assunto comigo. Estou igual marido de mulher grávida, que só vê mulher grávida por onde anda. Rs.

Com o tema no radar, cruzei com os meus amigos Betão Pandiani e Zé Eli da Veiga, e com Jair Bolsonaro, a quem mal conheço.

O Bolsonaro eu encontrei nos jornais e nas redes sociais, que noticiavam sua surpreendente intervenção no preço do combustível da Petrobrás, com o respectivo e imediato pedido de desculpas: “Eu avisei! Não entendo de economia!”. Pronto, aí está o risco Bolsonaro: falar e decidir sem conhecimento e fundamento científico, sem aprofundamento sobre a realidade.

O encontro com Betão foi planejado. Lili e eu fomos jantar com ele e Cynthia no excelente Marakuthai para falar da vida. Sou fã de carteirinha dele e, sempre que posso, levo suas palestras para meus clientes saberem o que fazer nestes cenários malucos, como os mares turbulentos que Betão atravessa tão bem em seu pequeno catamarã.

A conversa corria solta. De repente, ouvi o Betão pontificar, do alto dos seus 2 metros de altura e muitos oceanos vencidos: “O segredo é não subestimar o mar nem superestimar suas próprias qualidades”.

Pronto: humildade e respeito, aí está o segredo da excelente gestão de risco do Betão.

Bolsonaro pode voltar atrás e reconhecer o erro, mas não tem respeito pela complexidade da vida como ela é e pelo conhecimento que não tem. Aliás, essa é uma marca de seus filhos e de alguns de seus ministros, que têm mais opinião do que fundamento. O Betão sabe que o oceano é imprevisível, portanto, contratar uma atualização permanente sobre a metereologia e ter uma tripulação que saiba usar esse conhecimento é fundamental.

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Tome tenência

E aí entra meu outro amigo, o professor e economista Zé Eli da Veiga, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, que encontrei semana passada nas páginas do “EU&”, do Valor.

O Zé fala do risco de as pessoas não tomarem tenência do que está acontecendo com o meio ambiente: “Quantos alertas ainda terão de vir do planeta até que sejam ouvidos?”. O Zé sabe muito sobre a realidade e confio no seu olhar. Ele não é pessimista, nem otimista. Reconhece os riscos que estamos vivendo, mas diz coisas do tipo: “Trump não está fazendo nada que favoreça o cumprimento da meta americana (do Acordo de Paris), mas são tantas as prefeituras e Estados engajados que, ainda assim, é capaz que cumpram”.

Apesar da arrogância e ingenuidade de uns, existe muita gente prestando atenção no que está acontecendo de fato no mundo.

Boa gestão de risco tem a ver com informação e ciência, antes de política e religião, que embora sejam perspectivas importantes para nós, humanos, normalmente distorcem a leitura da realidade, pois enxergam o mundo com as lentes do desejo, e não com as lentes da realidade.

Betão sabe o que quer, mas, antes do desejo, vem a realidade do mar, sobre a qual se abastece de boa informação.

Para uma gestão de risco que impeça a gente de evoluir para o óbito, faço uma sugestão: mudar o lugar de Deus e do Brasil no slogan do Jair Bolsonaro.

Tirar o Brasil (que é uma visão política) de “acima de tudo” e colocar “abaixo de tudo”, porque ele é o nosso chão, nossa natureza, nossa riqueza. No lugar do Brasil, colocar a vida (que é uma visão mais científica), uma unanimidade que precisa da ajuda de todos para ser preservada.

Fica assim: A vida acima de tudo. Deus em todos nós. Compartilhe!

Mudar o lugar de Deus é mais complicado, porque mexe com o modelo mental patriarcal hierárquico que dá muita segurança a quem precisa de chefe. Tem gente que fica muito insegura e brava quando a hierarquia é questionada. Assim, com todo o respeito, tenho certeza de que Deus se sentiria melhor para cumprir a sua missão se ele estivesse em todos nós, e não “acima de todos”, como se fosse a atração principal do maior carro alegórico da Escola de Samba Unidos pela Proteção do Homem contra a Mulher, a Serpente e a Natureza.

Eis minha receita para a boa gestão de risco: respeito à vida e humildade diante do outro.

 

Namastê, Ricardo

Créditos

Imagem principal: Arte: Marcelo Cidade. Luto e luta, 2008, vista da exposição "Para ser construídos", Museu de Arte Contemporáneo de Castilla y Leon MUSAC. Cortesia Galeria Vemelho

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