por Ricardo Guimarães

Entre insetos, crustáceos marinhos e roedores subterrâneos estamos nós

Caro Paulo,


Conviver é possível? Eu imagino que você está fazendo essa pergunta por conta do clima de intolerância em que estamos vivendo no Brasil e no mundo. É preocupante sim. Mas a pergunta que me vem em seguida é se “é possível não conviver?”.

Sempre que fico diante de perguntas grandes como essas, corro para o colo da ciên-cia. E entre os cientistas com quem mais me identifico está Edward O. Wilson, biólogo evolucionista, superestudioso de formigas, vencedor do prêmio Pulitzer. Já falei dele aqui várias vezes. Mais recentemente, citei o livro A conquista social da terra, exatamente sobre a evolução da vida no planeta para o estágio do convívio social. Também já falei do pequeno e poderoso O sentido da existência humana.

Os dois livros contam o surgimento da eussocialidade, a organização social presente entre as formigas e as abelhas, por exemplo. Com toda a cautela do bom cientista, ele afirma que apenas 20 espécies evoluíram para essa condição nos últimos 400 milhões de anos. Entre insetos, crustáceos marinhos e roedores subterrâneos, estamos nós, os humanos, que o cientista da universidade Harvard descreve como “o espírito singularmente capaz de espanto e saltos de imaginação cada vez mais deslumbrantes”.

A primeira razão para o convívio foi o ninho e a última, a preservação da espécie. O resultado dessa empreitada foi a inteligência social, que é pautada por cooperação e competição entre indivíduos e entre grupos.

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Pronto. Aí está uma boa resposta e um bom encaminhamento para a nossa pergunta. O convívio social garante melhores condições para a perpetuação de nossa espécie e conviveremos melhor ou pior de acordo com a nossa inteligência social.

Claro que não vou dizer que existem inteligentes e burros sociais, mas afirmo, sim, que há pessoas em estágios diferentes de maturidade com relação ao convívio social. Eu explico isso no vídeo que fizemos com o Grupo Algare, disponível no YouTube com o título Transição e otimismo.

Lá explico minha crença de que o ser humano pode evoluir da anomia (estado bem infantil em que não se reconhece a existência do outro) para a heteronomia (fase jovem em que se reconhece a existência do outro, mas se necessita de um terceiro, que tutele suas relações), até a autonomia (fase da maturidade, quando ganhamos consciência de nossa identidade, reconhecemos que fazemos parte de uma sociedade e nos responsabilizamos pelo destino dela e pelo nosso).

A partir dessa mesma régua (anomia-infância, heteronomia-juventude e autonomia-maturidade) é possível identificar fases da história da humanidade. A atual – de globalização, internet e redes – é de passagem da juventude para a maturidade. Estamos reconhecendo a beleza da identidade e a riqueza da diversidade como sintomas de uma sociedade saudável, com capacidade “de espanto e de imaginação cada vez mais deslumbrantes”.

Estamos aprendendo que a eliminação do outro como solução de conflitos é uma atitude bélica, jovem, imatura e empobrecedora da realidade.

Esta passagem não é tranquila e tem riscos, porque o mundo está ficando cada vez mais diverso e integrado e pessoas com mentes jovens e bélicas que não têm as competências de integração, interação e negociação ficam muito violentas por se sentirem ameaçadas na sua sobrevivência. Daí a intolerância.

Pode parecer que ela é sintoma de que estamos andando para trás, mas não é. É reação de defesa de um pensamento que está entrando em extinção.

Para os pessimistas de plantão, recomendo ainda a leitura de O novo Iluminismo – Em defesa da razão, da ciência e do humanismo, de Steve Pinker; e de Utopia para realistas – Como construir um mundo melhor, de Rutger Bregman.

Por falar em conviver, está na hora de a gente jantar para pôr a vida em dia, e eu queria também falar mal de petistas e bolsonaristas. Em tempo, nada contra Fernando e Jair, que até acho que são boas pessoas.

Abraço do amigo, Ricardo

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