por Ronaldo Bressane
Trip #183

Antes da fama, Alexandre Herchcovitch foi fotógrafo e clicou personalidades brasileiras

Aos 17 anos, muito antes da fama, Alexandre Herchcovitch teve uma breve carreira de fotógrafo só clicando personalidades da cultura brasileira, uma história que a Trip resgata nestas páginas. Mal sabia ele que um dia entraria nessa galeria, como um dos principais nomes da moda brasileira

Ali na curva entre adolescência e idade adulta, sem saber muito bem que carreira abraçar, Alexandre Herchcovitch foi fotógrafo. Ainda no terceiro colegial, entre aulas de caligrafia e sessões particulares de matemática, durante cerca de um ano o estilista paulistano trabalhou para o Jornal da Tarde clicando personalidades. “Comecei a me interessar por fotografia em 1986 e decidi estudar na então escola de fotografia Imagem e Ação. Na época, conheci um amigo de uma prima, o jornalista Hermes Rodrigues Nery (hoje político), que entrevistava personalidades culturais”, lembra ele.

O trabalho rolou mais por curiosidade do que por necessidade de grana. “Não tinha problema com dinheiro: sempre fui de classe média, meus pais pagaram meus estudos e nunca senti vontade de sair de casa para ser independente. Só saí mesmo porque o ateliê de costura que montei na sala estava atrapalhando a vida social da família”, recorda. Precoce, aos 17 anos esse maníaco por Barbies, bolsas e Boy George zanzava pela noite paulistana, surpreendendo o nascente movimento clubber com os modelitos que criava para travestis. Enquanto à noite vestia corseletes em drag queens como Márcia Pantera e Marcelona, de dia despia para suas lentes Jorge Amado, Zélia Gatai, Paulo Autran, Fernando Henrique Cardoso, Ziraldo, Raquel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Fernando Sabino, Nathália Timberg. Fotos francas, espontâneas, P&B sem nenhum glamour. Curioso é que, apesar da proximidade com esses medalhões, Herchcovitch nunca teve intimidade com literatura: “Não consigo me concentrar em um livro! Leio partes, folheio jornal, revista. Nem meu próprio livro eu escrevi [Cartas a um jovem estilista, ed. Campus], foi o Ailton Pimentel”, assume, candidamente.

Herchcovitch jamais reencontrou as personalidades clicadas. Contudo, durante esse período, mantinha um raro cuidado na relação fotógrafo-fotografado. “Enviava uma ampliação para cada personalidade após a matéria ter sido publicada e sempre recebi agradecimentos de volta. Achei que seria legal se essas pessoas tivessem em seus arquivos um retrato tirado por mim... E tentava construir algo sólido nessa relação com eles. Foi instintivo, talvez um agradecimento pela oportunidade de fotografá-los”, conta.

O estilista guardou ampliações, negativos e as cartas dos retratados em uma caixa que se perdeu em uma de suas muitas mudanças – e que ele ainda tem esperanças de reencontrar. Para recuperar a história do Herchcovitch fotógrafo (dica passada à Trip por Renato de Cara, diretor da Galeria Mezanino, instalada na antiga loja do estilista na rua Haddock Lobo, em São Paulo), fomos atrás dos negativos no arquivo do Jornal da Tarde e encontramos fotos de quatro das personalidades retratadas.

As lições da fotografia
Como se pode ver pelas imagens, figurino não estava entre as preocupações do jovem lambe-lambe. Tirando o sempre classudo Paulo Autran, os tiozinhos pareciam ter acabado de sair da máquina de escrever – ou da máquina de lavar. “Nunca me preocupei com o visual deles. Nunca pedi nada. Nem percebiam que eu estava trabalhando. Não fazia barulho!”, descreve. O profissa Autran, aliás, foi o que mais ajudou no clique. “Ele fumou durante toda a entrevista e o cigarro me ajudou a fazer retratos ótimos... O mais difícil foi Fernando Henrique Cardoso. Fomos ao apartamento dele em Higienópolis, se não me engano ele morava no primeiro andar. Eu não usava flash, só luz natural. Aí fiquei desesperado quando cheguei na sala, olhei a janela e vi uma enorme árvore que não permitia que a luz entrasse... tive que fotografar em baixa velocidade, correndo o risco de tremer a imagem. No fim, deu certo”, recorda o ex-fotojornalista.

Costurando cada vez mais por fora, logo Herchcovitch largou o JT para estudar artes plásticas na Faap, onde conheceu Maurício Ianês, parceiro de muitas ideias fashionistas. Em seguida se mudou para a faculdade de moda da Santa Marcelina, usou uma caveira como marca registrada, daí engatou um desfile no finado Phytoervas Fashion... e o resto é história. Hoje um dos mestres do estilo no Brasil, com lojas pelo mundo e sobrenome tatuado em xícaras, tênis e celulares, Herchcovitch vê a câmera como mero hobby. Vez em quando esse fã de Ronaldo Camelo, Bob Wolfenson e Joel Peter Witkin clica ensaios de moda para a revista L’Officiel. Tem uma digital sempre na mochila, já colaborou com a Folha de S.Paulo e expôs na Galeria Mezanino. Mas, 20 anos depois daquele frila da adolescência, ainda não sabe usar flash.

“Abandonei toda a pretensão de ser artista quando troquei a fotografia pelo estilismo”

“Se você tem um olhar, uma ideia, é mais valorizado do que se simplesmente domina a técnica, a qualidade e os processos. E um bom profissional tem que saber formar equipes: se não entendo de luz, chamo um diretor de arte ou um iluminador. Sem problema!” E o que ficou dessa experiência? “Abandonei toda a pretensão de ser artista quando troquei a fotografia pelo estilismo”, afirma, modestamente. “A roupa é a primeira coisa que se analisa em alguém. Você pode ser quem quiser através da roupa: pode mentir, enganar ou se revelar. A prática da fotografia me fez treinar o olhar e uso isso até hoje – perceber nas pessoas traços que dizem o que elas são.”

Agradecimento Banco de imagens do Grupo Estado

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