REDE NACIONAL
Acusada ao longo de décadas de ser o berço mundial da malemolência e da preguiça, volta e meia a Bahia dá mostras de que é, ao contrário, celeiro do melhor entendimento do que de fato é viver a vida
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Acusada ao longo de décadas de ser o berço mundial da malemolência e da preguiça, volta e meia a Bahia dá mostras de que é, ao contrário, celeiro do melhor entendimento do que de fato é viver a vida.
Enquanto paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos debatem, escrevem e lêem, baianos cantam, dançam e contemplam.
Aos poucos, os primeiros esgotam suas teses, preenchem todas as páginas de seus livros e, só depois de muito esforço descobrem que o único sentido da vida é exatamente o que conhecem e praticam desde sempre os baianos.
Como dizia Nelson Rodrigues, os intelectuais brasileiros deviam aprender a bater escanteios. Baianos batem escanteios, cabeceiam e agarram no gol.
Acabo de conversar com um alemão radicado na Bahia há seis anos. Tempo suficiente para aprender o básico da técnica de viver com sabedoria. Em seu chalé a poucos metros do mar, o alemão tem seu reluzente computador, algo ainda tão raro na região onde vive que é alvo de visitas dos estudantes do primeiro grau, que andam léguas para ver de perto a máquina.
Perguntei a ele se e de que forma a rede mundial de computadores havia alterado sua vida. Sem rodeios, o galego respondeu: ‘mudou muito. Antes eu tinha que perder um dia a cada oito para pegar duas horas de barco, mais uma de ônibus, para chegar até o banco, depositar os pagamentos da pousada e outro tanto igual para voltar pra casa. Agora, faço de tudo pelo home banking e tenho um dia a mais para a rede.’
É claro que imaginei que o ariano referia-se a doze horas navegando por sites e portais sem fim. É aí que entra a sabedoria baiana que já contamina suas veias azuis: a rede a que se refere o alemão fica pendurada entre dois postes feitos de dormentes de trem, os mesmos que sustentam a varanda de sua casinha a beira-mar. É nela, com a coluna vertebral completamente amparada, e seus cem quilos transformados em pluma suspensa no ar pela perfeição do design ancestral, que o gringo olha para o céu, vê as nuvens tomarem formas que lhe matam as saudades das montanhas nevadas de sua terra e, quando cai a noite, olha estrelas e constelações mais interativas e brilhantes que o mais moderno site.
Lindo, leve e solto O símbolo deste tão sofrido aniversário de 500 anos do Brasil deveria ser uma rede pendendo entre dois paus. Difícil pensar em algo mais leve, cheio de curvas e ritmo, mais belo e prazeroso, por isso mesmo inspirador a ponto de se alastrar pelo mundo, levado pelas mãos de quem realmente entende não só o que é design, mas o que é a vida. Difícil pensar em algo mais brasileiro.
A rede, a nossa rede, é uma espécie de símbolo de resistência à ansiedade letal, à competição desmedida, às doenças coronárias, aos enfartos, à falência da ética e das relações humanas, às traições que, ao que tudo indica, a outra rede tende a trazer em seu bojo.
Gostei do alemão baiano. Sem saber, ele me aponta uma forma não só possível como perfeita de usar as redes, as duas, em harmonia celestial.
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