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RATINHO É O FUTURO

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Quando você estiver lendo este artigo, VEJA já deve estar circulando com capa estampando o novo ‘talk of the town’, o ex-político, ex-apresentador sertanejo e policial Ratinho. Não li a reportagem porque entrego o texto que está em suas mão na sexta-feira. Também, infelizmente, não vi a entrevista dada por ele a Jô Soares.
Tenho procurado assistir ao ‘Ratinho Livre’ até para poder opinar. Minha opinião a respeito, porém, não é o que gostaria de expressar aqui hoje. Nem sei, aliás, se formei alguma com o pouco que pude ver sobre um senhor que até outro dia era absolutamente desconhecido.
Não saberia resolver o grande dilema que parece pairar sobre as cabeças e mesas de bares nos últimos dias. É populismo barato de quinta explorando feridas, mazelas, crimes, pilosidades excessivas, cancros e outros sofrimentos transformados em atração, ou seria uma nova linguagem, mais popular, coloquial, franca e direta, numa tribuna que abre o fechado e cor-de-rosa mundo da televisão para as pessoas de verdade, que sofrem e fazem a grande maioria neste país?
Ratinho costuma dizer em sua defesa que, demagógico ou não, brega ou não, seu programa salva vidas, cura doentes, viabiliza a recuperação de desencaminhados, alcoólatras e drogados e, em última análise, dá altíssimos índices de audiência porque mostra o que as pessoas querem ver. Como ele mesmo ou alguém já disse, ninguém encosta o revólver na cabeça do telespectador obrigando-o a sintonizar nesse ou naquele canal.
Na verdade, a reflexão a que ‘Ratinho Livre’ e sua repercussão nos obrigam é sobre o futuro da chamada televisão aberta. Devo ter sido um dos primeiros a espernear durante o famoso episódio do latininho, mostrado pela Globo no programa Faustão, e pelos inesquecíveis irmãos lobisomen, mostrados em resposta pelo SBT e seu indefectível Gugu Liberato.
Infelizmente, o processo que já assolou países como os Estados Unidos e alguns da Europa parece estar chegando por aqui e se instalando com desenvoltura e rapidez maiores que o esperado. Quantas vezes você viu e ouviu gente chegando de uma viagem ao exterior proclamar orgulhosamente que ‘a televisão brasileira é a melhor do mundo e que no país A ou B, apesar do alto nível de desenvolvimento, os programas de TV eram de péssimo nível’.
Aparentemente, o que estamos testemunhando é mera e simplesmente um atraso da tecnologia refletido nas grades de programação. O raciocínio é simples. No Brasil, por problemas que são de domínio público, apenas de um curto espaço de tempo para cá começamos a ter esboço de uma abertura política na área de comunicação e acesso à tecnologia.
Em coisa de quatro ou cinco anos, as televisões por assinatura chegaram, instalaram-se, deram todas as cabeçadas a que tiveram direito e foram aos poucos conquistando clientes. A Globosat, pelo que me consta, é líder do segmento, com algo em torno de 2 milhões de assinantes. O ‘cable’, que em países como os Estados Unidos é tão comum nas residências como um telefone ou um liquidificador, vem pouco a pouco conquistando status semelhante no Brasil. A tecnologia, por sua vez, continua galopando, transformada em pequenas antenas parabólicas que disponibilizam a programação dos canais alternativos nos lugares mais improváveis, de favelas a propriedades rurais.
Conseqüência natural? Resta aos canais abertos investir nas chamadas classes C e D. Assim observa-se a repopularização do SBT, novelas mexicanas brotando como cogumelos depois da tempestade, cartas assinadas por Boniss e Marluces oscilando entre broncas e lançamentos de diretrizes no sentido de que a Globo mantenha o padrão mínimo.
Record investindo pesado no próprio Ratinho e em outras atrações populares. Hebe Camargo (até outro dia considerada a matriarca da TV popular e da linguagem sala de estar de classe média) posando de defensora do alto nível da TV, queixando-se das baixarias e arranca-rabos entre os convivas de sua colega Márcia. Serginho Groisman queixando-se à ISTO É sobre a maneira pouco atenciosa como é tratado pela direção de programação do SBT. Programas como o dele e o de Luciano Huck cada vez mais tendendo a Carlas e Sheilas que a debates e reportagem. O próprio jornalismo do SBT sofrendo cortes violentos e sendo MIAMIZADO.
Feras do jornalismo como Ricardo Kotcho deixando a TV aberta e encontrando eco para suas idéias em canais mais focados como 21. A própria Globo, que posa de frente de resistência à popularização,apresenta coisas como o ‘Você Decide’ da semana passada, de uma melosidade e inverossimilhança de fazer inveja à Maria do Bairro.
São sinais evidentes de que daqui a alguns anos teremos a popularização total de canais aberto e televisão de graça (com exceção de grandes eventos esportivos e algumas novelas bem produzidas que consigam cross over entre povão e elite) deverá se converter em dezenas de Ratinhos, Márcias, Faustões, Gugus, Você Decide, Fantasias, Alô Cristinas e outras atrações populares. Quem quiser fingir que mora em Manhattan terá de desembolsar cinquenta cru-crus por mês para ver Pedro Bial entrevistando Ariano Suassuna.
Não é bom nem mau. É assim.

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