por Rafael Antunes
Trip #238

Eles podem não prestar atenção uns nos outros, mas há sempre alguém escutando no plenário

Sessão a sessão, a cena se repete: o parlamentar na tribuna do plenário no Congresso Nacional discursa para as demais excelências, distraídas com smartphones, computadores ou em conversas com seus pares. Discursos que parecem direcionados a uma plateia que não está ali. Arranjar o que fazer enquanto o outro fala parece protocolo entre os 513 deputados e 81 senadores em Brasília. Mas, quando o dono do discurso parece abandonado, um alento: alguém, ao menos, estará ouvindo atentamente cada palavra de seu discurso. Com você, o taquígrafo. Taqui o quê? O taquígrafo atua nos bastidores de sessões e comissões desde o surgimento da Câmara e do Senado, no início do século 19, transcrevendo tudo na íntegra. Ao vivo e à mão. Para isso usa um sistema de símbolos (taquigramas) que agiliza a produção. Uma média de 120 palavras por minuto.

Ao todo, 114 na Câmara e cem no Senado se revezam nas tarefas de taquigrafia, revisão e supervisão. Em poucos minutos, os discursos estão on-line. O resultado é que tudo o que aconteceu no Congresso está transcrito. Se não entre os 815 mil discursos disponíveis na internet, em alguma das 3,5 milhões de páginas dos anais do Congresso, na biblioteca da casa. “É uma maneira de escrever a história do país”, como diz Daisy Berquó, taquígrafa há 17 anos na Câmara dos Deputados. Uma história construída entre discursos e distrações de suas excelências. Tudo está lá. Por isso, parlamentares mais caprichosos consultam os próprios discursos transcritos e alteram quando acham necessário. Mas o que foi dito ao vivo, já era. Rádio e TV sempre gravam. Na dúvida, melhor caprichar sempre. Afinal de contas, ninguém quer aparecer mal na Voz do Brasil, às 19 horas de Brasília.

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