por Sérgio Vaz
Trip #234

Um paralelo entre os protestos do ano passado e a euforia com a Copa, por Sérgio Vaz

O poeta Sérgio Vaz, da Cooperifa, em São Paulo, faz um paralelo entre os protestos do ano passado e a euforia com a Copa

“Em 17 de junho do ano passado, cheguei da rua e escrevi este poema. Neste 17 de junho, vi o jogo do Brasil no bar do Zé Batidão [onde acontecem os saraus da Cooperifa, na zona norte de São Paulo] com amigos. Coisa interessante que na última semana antes da Copa as pessoas começaram a pintar as ruas. A mídia, de forma geral para atingir o governo, criou um clima de pessimismo e algumas pessoas na quebrada foram incorporando. Só que de repente elas foram acordando da hipnose midíatica e pensaram: ‘Que papo é esse de pessimismo? Quem está pessimista é a mídia, não nós. Nossos problemas sempre existiram e vão existir. A paixão do futebol ninguém tira de nós’. Acho que foi esse o espírito. Vai ter Copa, não vai ter golpe. Deixa as visitas irem embora pra gente resolver nossos problemas. Amo futebol de várzea, amo Copa do Mundo, isso ninguém pode tirar de mim. Ninguém vai tirar de nós.”

Somos Nós

Vocês dizem que não entendem

Que barulho é esse que vem das ruas

Que não sabem que voz é essa

que caminha com pedras nas mãos

em busca de justiça, por que não dizer, vingança.

Dentro do castelo às custas da miséria humana

Alega não entender a fúria que nasce dos sem causas,

dos sem comidas e dos sem casas.

O capitão do mato dispara com seu chicote

A pólvora indigna dos tiranos

Que se escondem por trás da cortina do lacrimogêneo,

O CHICOTE ESTRALA, MAS ESSE POVO NÃO SE CALA

Quem grita somos nós,

Os sem educação, os sem hospitais e sem segurança.

Somos nós, órfãos de pátria

Os filhos bastardos da nação.

Somos nós, os pretos, os pobres,

Os brancos indignados e os índios

Cansados do cachimbo da paz.

Essa voz que brada que atordoa seu sono

Vem dos calos das mãos, que vão cerrando os punhos

Até que a noite venha

E as canções de ninar vão se tornando hinos

Na boca suja dos revoltados.

Tenham medo sim,

Somos nós, os famintos,

Os que dormem nas calçadas frias,

Os escravos dos ônibus negreiros,

Os assalariados esmagados no trem,

Os que na tua opinião,

Não deviam ter nascido.

Teu medo faz sentido,

Em tua direção

Vai a mãe dos filhos mortos

O pai dos filhos tortos

Te devolverem todos os crimes

Causados pelo descaso da sua consciência.

Quem marcha em tua direção?

Somos nós,

os brasileiros

Que nunca dormiram

E os que estão acordando agora.

Antes tarde do que nunca.

E para aqueles que acharam que era nunca,

agora é tarde.


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