por Marcos Silva
Trip #210

Como um desconhecido fica famoso da noite pro dia com direito a carros, fã-clubes e balada

Como um joão-ninguém pode frequentar casas noturnas alemãs, dar autógrafos em Los Angeles, destruir Ferraris no rio de janeiro, ter fã-clubes no Brasil e amantes na França? Fácil: é só ser amigo de infância de astros do futebol

Viagens, mulheres, baladas. É a rotina de estrelas pop. E (como o futebol é cada vez mais pop) de boleiros do mundo todo. Na corte em torno dos astros, além das famosas “marias chuteiras”, estão os mais discretos (com o perdão pelo uso indevido da palavra discrição) “primeiros amigos”. São, geralmente, pessoas que os craques conheceram na infância e que funcionam como uma espécie de elo com tempos mais simples e descomplicados da vida dos jogadores.

Não são exatamente uma novidade. Garrincha, quando assinou com o Botafogo em 1953, levou para o Rio dois amigos de Pau Grande, o vilarejo de Magé onde nasceu. Suíngue e Pincel eram parceiros sobretudo na cachaça, mas estiveram ao lado de Mané até a sua morte em 1983. Adriano, dispensado do Corinthians recentemente, é outro que jamais abandonou quem conheceu na infância. Segundo um cartola do São Paulo, o Imperador chegou a irritar um conselheiro do clube ao arrastar para um restaurante cinco estrelas da capital paulista um velho conhecido de Vila Cruzeiro, subúrbio do Rio de Janeiro.

Ronaldo Nazário teve o incentivo do PSV, da Holanda, quando firmou seu primeiro contrato internacional, em 1994. Levou para Eindhoven, a sede do time, a namorada Nádia (futura metade da dupla Ronaldinhas) e família. Ficar sozinho não era a solução – e a receita havia sido ensinada quase seis anos antes por Romário, outro que embarcou jovem para a Holanda.

Os “primeiros amigos” não são novidade. Garrincha levou Suíngue e Pincel para o Rio de Janeiro em 1953. Ronaldo Fenômeno teve incentivo do PSV para levar a namorada e a família dela para a Holanda, para não se sentir sozinho

O Baixinho não economizava com seus parceiros. Em 2008, emprestou até mesmo sua Ferrari F-430, avaliada na época em R$ 500 mil, ao amigo e contador Roberto Machado, o Beto, enquanto participava de uma festa em Niterói. Só não imaginava que o veículo seria rebocado depois de acertar em cheio um poste.

Se Romário ficou bravo? Nada disso! Ele continuou distribuindo presentes e chamando amigos para onde fosse. O fisioterapeuta Fernando Lima, o Zé Colmeia, é um dos mais próximos desde 1991, quando conheceu o hoje deputado em uma pelada entre amigos. “Já fomos para Jamaica, Curaçao, Barcelona...”, lembra o parceiro. Até em briga com torcedores ele se meteu: em 2003, Zé ajudou Romário a bater em um rapaz que atirava galinhas no gramado das Laranjeiras, quando o camisa 11 jogava pelo Fluminense.

Marcelinho Paraíba chegou a alugar duas casas em Berlim: uma para sua família e outra para os amigos

As melhores parcerias, no entanto, aconteciam nas noitadas. “O cara, quando não bebe nem fuma, tem que compensar em algo...”, entrega o fisioterapeuta. “Romário abdicou de muito dinheiro para curtir o momento dele.” Segundo Zé, difícil foi o período em que Romário passou no Catar. Em busca da marca de mil gols, em 2007, o Baixinho rodou por Estados Unidos e Austrália antes de ir parar no Oriente Médio. Mas, contratado para a Copa da Ásia, não pôde jogar por ter chegado depois do prazo de inscrição de jogadores. Passou um mês treinando, sob a orientação de Zé Colmeia. “Como ele não jogava, a gente passeava pelo país. Mas lá as mulheres só usam burca e você não consegue ver nada. Então, nada de balada. Sempre digo que aquela foi a época em que o Romário esteve melhor fisicamente”, brinca.

Xô solidão

Marcelinho Paraíba – hoje no Sport, mas já rodou por França, Alemanha e Turquia – chegou a alugar duas casas em Berlim, uma para a família e outra para os amigos. Mesmo casado, levava a turma para a balada na capital alemã e também pelo Brasil. A justificativa do atleta era simples: ficar sozinho o deixaria deprimido. O jeito era estar rodeado de amigos.

Ronaldinho Gaúcho passou pelo mesmo processo. Negociado aos 20 anos com o Paris Saint-Germain, em 2001, levou para a capital francesa Tiago Oliveira, amigo desde os 8 anos, quando se conheceram nas categorias de base do Grêmio. O dentuço o indicou para o time B da equipe francesa. Quando se mudou para Barcelona, carregou mais uma vez o amigo. Dirigia carros e o acompanhava nas noitadas, mas era, sobretudo, nas seletas partidas de Fifa no PlayStation que Tiago era indispensável. Valendo dinheiro, claro.

Já quando sentia falta de um sambinha legítimo, Gaúcho convocava Guto Paulista, vocalista do grupo Samba Tri. O craque do Flamengo chegou a ser o padrinho no batismo da filha do sambista. “É um caminho que se abriu desde que a gente tinha 15 anos e ele nem mesmo era profissional”, diz Guto. “Quando Ronaldinho foi para Paris, sempre que sentia saudade a gente embarcava para tocar com ele, e ele pagava tudo: hospedagens, passagens. E em festa de boleiro sempre tem muita mulherada.”

Ronaldinho carrega Guto para onde for. Entre a saída do Barcelona e o acerto com o Milan, em 2008, curtiu uma espécie de férias em Jurerê Internacional, em Florianópolis, com o amigo. As milhagens da amizade incluem Las Vegas, Nova York e Alemanha. Durante uma partida de basquete em Los Angeles, chegou a dar autógrafo: “Quando me viram ao lado dele, conversando com o LeBron James [então no Cleveland Cavaliers], acharam que eu era jogador também”, ri.

Quando sentia falta de um sambinha, Ronaldinho Gaúcho convocava Guto Paulista, do grupo Samba Tri, para embarcar para a França. Para jogar FIFA Soccer no Playstation, o escolhido era Tiago Oliveira

Colega de Ronaldo no PSV e Inter de Milão, Vampeta também carregou seus chapas de São Paulo e de Nazaré das Farinhas, sua cidade natal. Em 2008, divertiuse em um jogo beneficente na Jamaica na companhia de Serginho Chulapa e outros amigos. O relato é de que permaneceram a maior parte do tempo bêbados. Sua história mais célebre, no entanto, foi a de quando viajou até Salvador, acompanhado de quatro amigos e do irmão, Ivo, invadiu o hotel Sol Bahia Atlântico, onde a equipe do Bahia se concentrava, e espancou o ex-goleiro do Corinthians Marcelo. A rixa teria sido motivada por um suposto caso extraconjugal.

Amigo também é estrela

Neymar não é apenas o maior jogador brasileiro da atualidade. É também o precursor de um estilo que estende sua fama para os amigos. Gil Cebola, 22 anos, é o mais conhecido deles. Chega ao ponto de ter três fã-clubes. Antes, era usado como ponte até o santista. Hoje, ele é o próprio fim.

A vida do garoto – descrito em seu perfil no Twitter como “assessor esportivo”, mas que conheceu Neymar em um culto evangélico – inclui passeios no iate recentemente comprado pelo craque e muitas baladas para as quais Neymar é convidado. A fama veio depois do craque ter publicado o número de rádio de Gil no Twitter. “Acabou o meu sossego”, disse.

Gil Cebola, o primeiro-amigo de Neymar, tem três fã-clubes. Já o seu cabeleireiro, Cosme, virou MC e lançou um rap em homenagem ao jogador

A turma de Neymar ainda inclui Joclécio, que chegou a atuar no time juvenil do Santos, e o seu cabeleireiro, Cosme, 27 anos (o autor dos inventivos cortes usados pelo craque em campo).

Enquanto ainda arruma o penteado do craque, Cosme abandona aos poucos as tesouras do salão Black and White, na Vila Mathias, em Santos, para se concentrar nas festas para as quais é convidado pelo santista. Ultimamente, adicionou até um MC ao nome e compôs um rap para o amigo astro: “O príncipe da Vila”. “Quando ele não vem, não está sozinho/ Está com Deus e seus amigos.” De repente, quem sabe, MC Cosme vira um astro do mesmo brilho de seu amigo famoso.

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