Presidente superstar
Nosso colunista conta a experiência de se hospedar no mesmo hotel que o presidente da República
Estive hospedado em Belo Horizonte, meses antes do primeiro turno das eleições municipais, no mesmo hotel em que o presidente Lula estava. Foi uma coincidência estarmos juntos no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Na hora que fiz o check-in, o presidente ainda não havia chegado. O ambiente estava calmo, a não ser pela excitação dos próprios funcionários, ansiosos pela chegada de tão ilustre personagem. O rapaz que levou minhas malas para o apartamento repetiu a notícia duas vezes no elevador no trajeto de 11 andares. Uma para mim, outra para outro hóspede. Como se o elevador fosse imenso e nem todos lá dentro ? éramos três ? tivessem compreendido a magnitude da notícia.
No dia seguinte, de manhã bem cedo, tudo tinha mudado um pouco. Da janela do apartamento dava para ver a movimentação lá fora. Alguns batedores, com suas espeta-culares motos estacionadas, uma atrás da outra, conversavam animadamente. Seguranças andavam de um lado para o outro, e o número de carros pretos no estacionamento tinha aumentado consideravelmente. Dos quatro elevadores, apenas um funcionava para os hóspedes normais. Os outros três estavam reservados para o staff da presidência. Demorei meia hora para poder descer até o primeiro andar e tive de passar pelo mesmo cordão de isolamento que mantinha afastados a imprensa e o resto dos mortais, que esperavam a passagem do presidente.
Finalmente consegui chegar até o salão onde se servia o café-da-manhã. A mesa que me deram proporcionava uma vista privilegiada, tanto do saguão do hotel como dos elevadores panorâmicos, que subiam e des-ciam até o último andar. Enquanto tomava café pude assistir, tranqüilamente, a toda a movimentação palaciana. Pude contemplar em contraluz como os seguranças com walkie-talkies e fones de ouvido se comunicavam e faziam todo o possível para não deixar que a circulação de carros empacasse na entrada do hotel. Uma espécie de mestre de cerimônias cuidava para que o fluxo de hóspedes se mantivesse tranqüilo.
Pop star
Alguns ministros esperavam o presidente de pé. O ministro [Luiz Fernando] Furlan, por exemplo. De braços cruzados e vestindo um terno impecável, prestava atenção ao que outros dois personagens lhe contavam. Os câmeras de televisão testavam as luzes para que os repórteres ? algumas caras conhecidas, outras não ? estivessem prontos para transmitir ao vivo o acontecimento. Constantemente, as cabeças olhavam para cima, em direção ao elevador que deveria trazer o presidente. Pelo frisson que pairava no ar, parecia que um astro de rock ou um cantor sertanejo estava pronto para aparecer a qualquer momento.
A eletricidade no ar aumentou e, finalmente, apareceu o presidente Lula acompa-nhado de dona Marisa, do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, e de outras pessoas que não consegui identificar. Caminhando um pouco mais atrás, vinha o ministro da Casa Civil, José Dirceu. A comitiva seguia o ritmo do presidente, que parecia de bom humor e bem-disposto. Parecia também que ele mordia uma bala. Parou para falar com alguém.
Uma moça de cabelos encaracolados, que lhe pediu para tirar uma foto com ela. Flash. Dona Marisa o puxou carinhosamente pelo braço. Um rapaz de camisa cor-de-abóbora, bastante emocionado, pediu uma foto também. Flash. Outra moça de cabelo curto e terno preto, com algum tipo de crachá, também pediu outra foto. Flash. Sorrisos. O presidente fez algum comentário e todos os presentes sorriram. Tudo suave. Pompa e circunstância, mas sem abuso. Dona Marisa puxou, gentilmente, o presidente de novo pelo braço. Finalmente, depois de alguns acenos, mas sem perder tempo, a comitiva partiu.
O carro do presidente atrás dos batedores. O segundo carro era dos seguranças. Um deles carregava uma AR-15 novinha. Depois, seguiram os ministros, os secretários e os outros. Alguém recolheu o cordão vermelho VIP e o hotel voltou, em poucos mi-nutos, ao movimento normal. No dia seguinte, li no jornal que um dos carros da comitiva ? não o do presidente ? tinha atropelado um aposentado de 80 e poucos anos durante o trajeto do hotel ao lugar onde o presidente era esperado.
*J. R. Duran, 52, é fotógrafo e observador do cotidiano, quase tão rápido no gatilho quanto os batedores do presidente Lula. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br
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