PRÉ-CONCEITO
Todo rio corre para o mar. Toda mulher nasceu para amar. Na lua cheia tem o luar. Homens gostam de carros.
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Todo rio corre para o mar. Toda mulher nasceu para amar. Na lua cheia tem o luar. Homens gostam de carros. A última frase pode ter estragado a rima, mas carrega uma verdade tão ou mais irrefutável quanto as anteriores. Não importa a idade, a classe social ou a raça. Podem variar as intensidades, mas é impossível encontrar um exemplar de bípede racional do sexo masculino que não tenha ao menos uma quedinha por uma máquina dessas.
É ululante que não é apenas pela utilidade de seus produtos que a indústria automobilística tem representantes em qualquer lista decente das maiores empresas do mundo.
Fazendo arte
Sabendo então do fascínio que exercem sobre os colegas do lado de lá das pranchetas, os designers de automóveis passaram este século exercitando a arte de fazer o povo babar e ir marchando às concessionárias. Um dos instrumentos mais interessantes desta eterna sedução chama-se CONCEPT CAR ou carro conceito se você prefere o idioma pátrio.
O c.c. é uma espécie de tela de metal em branco, na qual os designer e projetistas soltam suas habilidades e projetam seus sonhos.
Os carros conceitos estão para a indústria automobilística assim como a ficção científica está para a literatura. Não são produzidos com a função literal de antever o futuro, mas, através de exercícios livres de criatividade e observação, acabam determinando boa parte dos passos a serem dados em seguida.
Assim, vítimas desse amor incondicional potencializado pelo marketing, em boa parte do planeta, nós, homens, ridículos, limitados e que só usamos 10% de nossas cabeças animais, nos matamos para ter e manter um ‘tomóvinho’.
ENQUANTO ISSO
Enquanto isso, como mostrou semana passada em SP o documentário OS CARVOEIROS, exibido durante a Mostra Internacional de Cinema, mão de obra semi escrava trabalha no Centro-norte do país derrubando com tratores, arrastando correntes de aço, quilômetros e quilômetros de mata centenária. Marcos Prado, José Padilha e sua equipe mostram sem narrador, pelas palavras, olhares e vidas dos próprios protagonistas desta história, o absurdo de vidas subumanas cuja função é derrubar e cozinhar as árvores que vão virar carvão e servirão às siderúrgicas que forjam o famoso ‘ferro gusa’. Usado em inúmeros tipos de lâminas de ferro e aço que acabamos, na ponta do processo, utilizando na forma de gabinetes de televisão, geladeiras, móveis, portas, janelas e, é lógico, muitos e muitos carros.
O trabalho faz brilhantemente a mais nobre das funções: jogar luz sobre o desconhecido e fazer refletir a respeito de uma daquelas situações que exigem atitudes e decisões dificílimas, como reduzir o conforto nas grande cidades ou pagar mais por coisas que a tecnologia vinha barateando mês a mês.
Vale a pena procurar ver este trabalho que documenta (denuncia) o tenebroso ciclo IGNORÂNCIA > ANALFABETISMO > SUBEMPREGO > DEVASTAÇÃO > IGNORÂNCIA. A estréia do filme já provocou muito espaço na mídia e, logo depois da projeção, foram reunidos alguns privilegiados para debater sobre o tema. Presidente da Abrinq, diretor corporativo da Volkswagen, jornalistas, um bom debate, que certamente gerará frutos.
Cada vez mais a tecnologia permite que alguns talentos isolados dediquem o que têm e o que não têm por causas fundamentais como essa. Tinha que haver um lado bom nisso tudo.
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