Posso falar?
Quem nunca se deparou com um(a) usuário(a) compulsivo(a) da indefectível expressão acima?
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Não faz muito tempo, meu colega do caderno de Variedades do Jornal da Tarde, Ricardo Freire, fez uma coluna muito interessante e divertida tratando da febre do gerúndio que invadiu o país. Com uma sucessão impagável de ‘vamos estar fazendo’, ‘vamos estar verificando’, Freire nos fez rir não só do mau uso da língua, mas, e talvez principalmente, de nossa própria ignorância. É ela que nos faz pensar que enrolar os outros pode trazer algum tipo de benefício. Tenho para mim que mora muito mais aí a paixão pelo gerúndio. Não se emprega essa forma a torto e a direito só para empolar a fala. Me parece, também, uma ferramenta eficiente para velar a arte de enrolar e sonegar o serviço ou a informação solicitada.
Mas não vou me atrever aqui a retomar o assunto esgotado de forma tão clara, que o artigo de Freire ganhou via internet, espaço nas mais distintas listas de e-mails, sinal óbvio de que conseguiu tocar aquela região do pensamento coletivo que, de tão latejante, só precisa de um empurrão para ganhar espaço nas conversas de todos os tipos de rodinhas, da Bolsa de Valores ao vagão do metrô. Ao contrário, inclusive quero fornecer nova munição a Ricardo, para que possa, eventualmente, se julgar pertinente, produzir outra de suas colunas saborosíssimas.
É que tenho dado de cara com hordas monumentais de ostrogodos detonando e violentando o vernáculo de outras formas. Quem nunca se deparou com um(a) usuário(a) compulsivo da indefectível expressão ‘Posso falar?’. Em geral, os dois insuportáveis vocábulos vem precedendo algo realmente dispensável, o que ensejaria a resposta ‘Não’, que dificilmente é acionada em nome da boa convivência social.
Mas é um tal de ‘Posso falar?’ para cá e para lá, que Ricardo poderia se quisesse, preencher páginas inteiras do jornal, repletas das situações e diálogos mais irritantes. Segue apenas um que ouvi numa fila de ingressos recentemente, a título de ilustração: ‘Posso falar? Meu, aquele cara é um puuuta mané. Meeu, ele não tem naaada a ver com você…’.
Cabeças evoluem
‘Meu, posso falar? Você é muuuito invejosa. Não pode me ver ficando com ninguém que já sai pondo defeito… Dá um tempo meu… cabeças evoluem…’ Nem todas, pensei com meus velcros, apreciando a cena das duas patricinhas absortas em seus mundinhos ‘Posso falar?’. Se Maurícios e Patrícias parecem ter se identificado com o infeliz ‘Posso Falar?’, aparentemente, a turma ‘Espaço Unibanco’ aparentemente, optou por outras duas expressões quase tão insuportáveis e que aos poucos vão se tornando cantochão oficial, pontuando a cada trinta segundos toda e qualquer conversa, seja sobre o assunto que for.
Trata-se de ‘Na verdade’ e ‘Enfim’. Por alguma misteriosa razão, essas expressões teriam a curiosa propriedade de fazer a absoluta ignorância ou um chute digno de Dadá Maravilha soarem como reflexões Sartreanas. Abaixo, mais um pequeno extrato de conversa pinçado no balcão de espera de um cultuado restaurante da Ministro Rocha Azevedo:
‘Na verdade, a questão do Oriente médio… Enfim, não tem solução…’
‘Não sei,os judeus, os palestinos… na verdade, enfim…, não é fácil…’
Enfim… Ricardo, são todos seus.
Se tiver um tempinho preste mais este serviço à humanidade, o.k.?
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