por Redação

Como pode um pai arriscar a vida de duas crianças na garupa de sua motocicleta?

por J. R. Duran*   ilustração Abiuro

 

Matthijs van Boxsel, em seu livro A Enciclopédia da Estupidez, diz que a estupidez somente acontece com sucesso quando não é reconhecida. Mesmo assim, algumas pessoas insistem em enterrar a cabeça na areia como se fossem avestruzes da imbecilidade. Não existe pior cego do que o cretino que não quer ver.

Um exemplo. Aconteceu em um sábado de manhã na avenida Sumaré, aqui em São Paulo. Um senhor de uns 40 anos pilota, a uma velocidade moderada, uma moto. A moto tem várias cilindradas, não é de motoboy, é de fim de semana. Alemã e importada. Daquelas que rodam pouco e só em dias de sol. Sonho de uma juventude que desapareceu no horizonte do passado. Caprichos de um executivo bem-sucedido e mal resolvido. Ele usa um capacete novinho em folha que imita um daqueles bem antigos, que parecem uma tartaruga. Esse senhor, que durante a semana, vestindo terno e gravata, toma decisões importantes, se conver-terá em poucos instantes em um assassino perigoso.

Ele pilota a moto com um certo cuidado entre os carros da avenida. E sabe por que ele tem mais cuidado do que o normal? Não é porque não sabe pilotar a moto. É porque o filho-da-puta transporta duas crianças. Pois é, meus caros: duas. Uma na frente, outra atrás. O menino menor, sentado sobre o tanque de gasolina quadrado. A menina, um pouco maior, não tem mais de oito anos, está com os bracinhos agarrados à barriga do imbecil, que põe a vida dos filhos em perigo de uma maneira estúpida.

As crianças também usam capacete, mas isso quer dizer apenas que esse pai monstruosamente cretino planejou sua estupi-dez com todo cuidado e capricho já que algum dia foi a uma loja e encomendou dois capacetes. E a mãe dessas crianças também é uma babaca insensível porque não acho que ele tenha escondido dela os capacetes. Esses meninos não têm avós? Vizinhos? Não cruzaram com nenhum guarda, nenhum PM? As leis são feitas para serem respeitadas. Porém muitas não são porque, aparentemente, não fazem o menor sentido.

Mas o que é surpreendente, fascinante e deprimente, é que uma situação como essa possa ser praticada por uma anta tão perigosamente motorizada. Os carros que passam em alta velocidade não se interessam pela estupidez alheia, mesmo que envolva duas crianças inocentes. Tento alcançar o pai cretino e motoqueiro para explicar que a vida não é assim, que a estupidez cobra pedágio dos frágeis. Ele, a moto e as crianças, que vivem por um fio, desaparecem em um contorno na contra mão. Apesar do que Matthijs van Boxsel disse, esse homem é um estúpido bem-sucedido, mesmo reconhecido a distância.

 

*J. R. Duran, 52, fotógrafo, é observador atento da estupidez humana. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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