por Daniel Lisboa

Padre gaúcho responsável pela mais antiga “casa liberal” do Brasil em atividade quer virar vereador

Se o assunto é política, fica difícil imaginar um país com candidatos e/ou campanhas tão bizarras quanto o Brasil. Esse fato foi até descoberto por jornais gringos e agora muita gente lá fora sabe que temos aqui candidatos com nomes de super-heróis e até com o de “Elvis não morreu”. "Sinal da força da nossa democracia", cravou um dos periódicos. O que diria a imprensa internacional se soubesse que, em Porto Alegre, um padre já próximo de se tornar sessentão circula pela cidade em um ônibus acompanhado de duas ninfetas vestidas de diabinhas, pedindo votos para se eleger vereador?

Seu nome é Roque Rauber e sua campanha de roupagem erótica não é mera apelação. Ao contrário, tem tudo a ver com o porquê do padre ter se tornado uma figura conhecida: ele é o fundador e dono do Sofazão, provavelmente a casa de swing (troca de casais) em funcionamento há mais tempo no país. Longe de ser uma figura obscura para a mídia – ao longo dos vinte anos em que comanda seu negócio, já apareceu em diversos jornais, revistas e programas de televisão – Roque finalmente conseguiu, após duas tentativas frustradas, emplacar uma candidatura. Seu partido é o Democrático Trabalhista (PDT).

“Não tenho dúvidas de que, nas outras vezes, não consegui sair candidato por preconceito contra o meu negócio”, diz Roque. Não à toa, o mote de sua campanha é “combater a hipocrisia da sociedade”. Uma missão adequada para alguém que decidiu ser padre aos sete anos de idade, deixou o interior gaúcho para passar seis anos isolado em um seminário na Espanha, virou de ponta-cabeça o mundo e os valores que conhecia e se tornou proprietário de uma casa liberal. Ou, mais do que isso, um promotor do sexo livre das tradicionais toneladas de culpa, receio, ciúmes e derivados.

“Eu não vou aceitar menos que vinte mil votos”, declara Roque. Em seu escritório no Sofazão, separado apenas por um biombo do balcão onde clientes, ainda com expressões tímidas, acertam as contas antes de se aventurar, ele explica que, em Porto Alegre, são necessários cerca de sete mil votos para se eleger vereador. “Sou muito conhecido na cidade e tenho visto o sucesso da minha campanha. O pessoal fica louco quando passo com as diabinhas”, ele conta.

 

“Não tenho dúvidas de que, nas outras vezes, não consegui sair candidato por preconceito contra o meu negócio”

 

Dentro do Sofazão, uma das “meninas da casa” não compartilha do mesmo otimismo. Apesar de demonstrar afeto por Roque, ela está descrente quanto à eleição do padre. “As pessoas podem se divertir quando ele passa com as meninas, mas acho que a grande maioria ainda é conservadora e, na hora de votar, isso vai pesar.”

O Sofazão

O estabelecimento do candidato, aliás, é provavelmente um dos lugares mais curiosos deste planeta. Na prática, um misto de casa de swing com boate onde, mediante pagamento de uma taxa, o cliente pode entrar desacompanhado e se divertir com absolutamente todas as meninas “da casa”. Ou seja, um buffet libertino ao melhor estilo “entre e coma à vontade”.

As garotas estão à disposição dos clientes que optaram pelo combo “R$100 + sexo”, identificados por uma pulseirinha verde e devidamente munidos de camisinhas fornecidas pela casa. O resultado são quartos apinhados de caras de toalhinha amarrada na cintura esperando a vez para “experimentar” as meninas do Sofazão. Para esquentar o rala-e-rola, shows eróticos apresentados pelo próprio Roque incentivam a galera a tomar a iniciativa. Tudo isso, vale esclarecer, para os desacompanhados: os casais têm, no segundo andar, um local reservado exclusivamente para eles. Lá, homens acompanhados por meninas “da casa” não entram.

Ex-padre

Roque explica que, oficialmente, não existe “ex-padre”. O que há é uma autorização da igreja para que o clérigo deixe de seguir as condutas e obrigações que lhes seriam obrigatórias. Assim, Roque faz questão de se apresentar como padre em sua campanha, o que segundo ele, reforça seu discurso anti-hipocrisia. Ele não explica que tipo de medida poderia tomar, na prática, para combater os tais valores hipócritas da sociedade caso seja eleito. Mas é possível imaginar que só a presença da sua figura no meio político seja suficiente para levar uma ou outra pessoa a refletir. Afinal, aquele senhor de cabelo branco, fala mansa, amistoso e bem-articulado é um dos pioneiros do swing no Brasil e não tem medo de meter sua cara em flyers e cartões que dizem coisas do tipo “prazer na ousadia” e “contamos sempre com a presença de gatinhas muito sacanas, além de lindas e safadinhas casadas”.

Visivelmente satisfeito em inaugurar mais uma noite de muita sacanagem, Roque se vira para este repórter e, agradecendo o interesse e atenção para com a sua causa, avisa que é hora de partir. “Hoje cedo tenho batizado da minha netinha”, revela.

 

Atualização: Padre Roque teve apenas 583 votos e não conseguiu se eleger vereador por Porto Alegre. Não foi dessa vez!

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