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PM e PMs

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Há mais de dois anos ocupo este espaço do Jornal da Tarde e procuro preenchê-lo com observações, levantamentos e, muito especialmente com opiniões sobre aquilo que vejo por aí. Quem se dá o trabalho de passar os olhos sobre o que escrevo, sabe que não sou exatamente um defensor das instituições. Não por gosto mas por coerência com o que sinto, feliz ou infelizmente tenho criticado infinitamente mais do que elogiado as ‘autoridades’ que povoam esquinas, becos e palácios desta terra.
Muitas vezes o assunto ou a história que resolvo abordar nestes artigos, caem em minha frente sem o menor motivo ou razão lógica. Muita gente, de crentes a estudiosos de física quântica, nega que existam coincidências. Estas pessoas costumam creditar episódios que desafiam nossa compreensão a fenômenos que chamam de diferentes nomes.
O conceito do inconsciente coletivo me parece um dos mais interessantes. Certos assuntos desejos e curiosidades estariam vagando ao mesmo tempo pelos corredores escuros do lado desconhecido dos cérebros humanos e, de repente, por razões que ainda não entendemos bem, são liberados e vem à tona ao mesmo tempo por todos os lados. Acho que tive a sorte diversas vezes de fazer desta coluna, um dos primeiros canais a soltar as amarras de alguns temas e reflexões comuns a muita gente e que andavam acorrentadas nas cabeças. Foi assim com as baixarias dos programas de Faustão e Gugu, que apontei aqui, uma ou duas semanas antes de virarem discussão nacional com direito a capa de Veja. Foi assim recentemente com o assunto ‘Autoridade dos marronzinhos’, que abordei bom tempo antes de se transformar no lamentável assassinato em discussão nacional e, desta vez, capa de Vejinha (Marronzinho, ruim eles, pior sem eles).
Não sei exatamente porque, semana passada, me pus a escrever mais uma vez sobre fardas, policiais e outras autoridades e servidores públicos. O título, para quem não leu, era ‘Autoridades mal vestidas’. Num trecho do artigo arvorei-me a analisar as fardas e paramentos dos PMs, que vestem uniforme cinza cor de rato e coturnos negros quentes e de cano alto, que, imaginava serem pesados, desconfortáveis e principalmente pouco eficientes em situações de fuga e perseguição.
Outra vez a coincidência ou a física quântica se preferir, me pegou na esquina. Na noite de segunda-feira, dia em que o tal artigo circulava pela cidade estampada ao lado das belas de Luciano Huck e, cerca de uma hora depois de o Jornal Nacional ter veiculado as imagens do vídeo que horrorizou boa parte do planeta, parei meu carro no sinal que organiza o cruzamento da Avenida Pompéia com Turiassú. Antes que pudesse pronunciar as sílabas da palavra Turiassú, três ‘elementos’ saltaram das trevas e, de forma muito rápida e agressiva, abriram a porta do carro, trinta e oito em punho, bradando entre frases desconexas, palavras que procurei processar rápido. ‘Dá o relógio, dinheiro, cheque’, ‘Vamos estourar vocês’, ‘Dá logo’. Entreguei rápido, em movimentos contínuos e sem tranco, as três coisas enquanto conseguia ver com o canto dos olhos, as fisionomias tornadas de três moleques aparentando uns dezoito ou vinte anos. Felizmente, satisfeitos com o resultado da ação, saíram andando, o sinal abriu, acelerei o carro.
A adrenalina é uma substância de efeitos interessantes. Na primeira meia hora, o que resta fazer é observar seus efeitos e tentar dominá-la. Parei o carro em lugar seguro, contabilizei o prejuízo e festejei em silêncio a sorte de estar ileso. Entreguei o carro a um manobrista de estacionamento e caminhei um pouco degustando cada passo e sorvendo o prazer indescritível da saúde e da integridade física, aquele do qual só costumamos lembrar quando machucados ou doentes. Estava em frente à casa de shows Olympia, onde encontraria duas pessoas que me esperavam para discutir assuntos de trabalho.
Na porta, observando o movimento, uma clássica viatura branca e preta com vidros escuros e cinco letras pintadas em preto na parte branca do carro: GARRA.
Resolvi arriscar. Acenei ao policial sentado no banco da frente, pedi licença e expliquei o que acabara de rolar. Enquanto contava imaginava qual seria a reação. Talvez um gracejo irritante. Talvez me ignorassem ou me mandassem discar 190. ‘Negativo’. Mais que cordiais, competentes, abriram a porta de trás, pediram mais detalhes, apagaram as luzes da sirene e saíram imediatamente procurando pelas ruas escuras da Lapa, alguém que correspondesse à descrição dos três ladrões.
Infelizmente, depois de meia hora procurando, com a experiência de quem conhece a bandidagem, um dos dois policiais de quem, infelizmente não me lembro o nome, disse: ‘Esses caras assaltam e pegam o primeiro ônibus. Acho que dessas vez a gente não vai arrumar nada’. Agradeci impressionado ao mesmo tempo com a inesperada eficiência e prestatividade dos profissionais e com a precariedade do equipamento e do carro que tinham para trabalhar. Fiz o que tinha de fazer, registrei a ocorrência pelo telefone 190, cancelei cartões de crédito e voltei para casa ainda tentando dar conta da adrenalina que jorrava borbotões pela coluna vertebral.
Eram duas da manhã. Tentava ler enquanto sentia saudades do relógio Girard Perre Gaux que ganhei do meu pai quando tinha uns dez anos de idade e que àquela altura, deveria estar sendo vendido por dez ou vinte reais ou trocado por uma pedra de crack em algum lugar do Parque Regina. Surpresa. O telefone toca. A voz educada do profisional do Bradesco encarregado do cancelamento de cartões de crédito. ‘senhor Paulo, por favor entre em contato com o soldado Justino pelo telefone tal, no 4º Batalhão da PM. Os assaltantes que levaram suas coisas estão presos.’
Próxima cena: pátio do posto da PM ao lado da 7ª DP. Dois moleques safados algemados de cabeça baixa, jeans de griffe, camiseta surfwear e Nike da hora. Em volta oito ou dez PMs, nitidamente cumprindo ordens de um sujeito de óculos e cara boa, que podia fácil, não fosse a farda, ser o dentista do bairro ou o dono da video locadora, ou o engenheiro responsável. Era na verdade o tenente Henrique Jr., que, vim saber depois, é considerado um dos melhores policiais militares da cidade, respeitado até pela Polícia Civil que muitas vezes torce o nariz para qualquer militar.
A equipe do tenente conseguiu prender dois dos três vagabundos graças a um garotão chamado Pedro Henrique, um piloto da Aeronáutica que assistiu o assalto do outro lado da Av. Pompéia. Indignado com a violência, Pedro seguiu o ônibus em que se enfiaram os assaltantes e ligou do celular para a PM. Segundo ele, em menos de cinco minutos surgiu uma viatura que interceptou ônibus. Pedro reconheceu os dois com facilidade, ajudado por um outro PM, o soldado Marcos, que a paisana, ia no ônibus para a escola e farejou com sua experiência, pela movimentação dentro do ônibus, tratar-se de ladrões dividindo dinheiro e a féria. O terceiro ladrão se misturou com o povo que estava no ônibus e, sem ser reconhecido, conseguiu ir embora. No pátio do batalhão, depois de conhecer as testemunhas e a equipe que fez a prisão, tive de passar pelo antiquado e perigoso processo de reconhecimento dos ladrões, os dois menores de idade que, borrados de medo, subitamente deixaram de ser valentões e destemido e entregaram o endereço do companheiro, um certo Jardim Vista Verde em Pirituba.
Quatro da manhã, quebrados de Pirituba, entre lanternas, medo, metralhadoras, latidos de cachorro e olhares amendrotados pelas frestas, vi como trabalha uma equipe séria da polícia. Organizada, em comandos precisos e ações coerentes, sem espalhafato, com o domínio da situação.
Duas horas depois algumas casas, barracos e endereços falsos devidamente vasculhados, chegamos à casa do terceiro, este maior de idade, com passagens pela Febem e polícia.
A pobre mãe do fulano entregou fotos e documento do cara, reconhecido rapidamente pelas duas testemunhas, Pedro Henrique e o soldado Marcos.
No meio do caminho da maioria e deu acesso a conforto e consumo a muita gente que até pouco tempo atrás tinha de se contentar com uma água de coco no quiosque a beira-mar, o que, diga-se de passagem, não é nada mal comparado ao lazer da maioria dos brasileiros pobres. Exemplo: Na quinta-feira à noite, dois shows competiam entre si pelas atrações da moçada na noite carioca. Briga de titãs. Aliás, de Shakira, a rainha do pop latino contra os titãs ‘Themselves’.
Os dois shows, pelo que sei, estavam abarrotados. Li que o show de Shakira recebeu 7.500 pagantes com ingressos a 20 reais. Coisa impensável para um show no Rio até algum tempo atrás. Nos anos 80, nem uma jam session de Elvis Presley e Jimi Hendrix com Jesus Cristo nos backing vocals seria capaz desta façanha.
Até o Copacabana Palace, que andava triste e decadente, está branquinho e reluzente, com pintura nova e tudo. Parece-me que a melhor coisa para a cidade foi não conseguir sediar as Olimpíadas. Há ainda muito que fazer, um enorme percurso antes de mergulhar nesta aventura. Quem sabe 2020?
Falando em shows, estive no Olympia num desses dias e assisti, literalmente de camarote, à cena lamentável presenciada por dezenas de outros espectadores. A uma certa altura, já no meio do espetáculo que se processava na casa, um elemento alto de barbas brancas e corpo magro entra no camarote da ponta e no mais puro estilo Fonseca’s Gang, interpela os espectadores instalados em seus sofás. ‘O senhor sabe onde está? Pode sair já, este é o camarote do prefeito e a filha dele chegou. Vamos saindo!’ Fui descobrir depois que o ajudante de ordens abrindo alas para a mini-primeira dama (atualmente com a posição em risc-) que aguardava, nariz em pé, na porta do camarote, era na verdade o vereador José Izar. É cada vez mais ampla ao que parece, a função do legislativo paulistano.

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