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PERMANENTE PRIMAVERA

O amor se confirma quando preferimos que o outro tenha todo o lucro que a relação possa trazer

em 21 de setembro de 2005

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FOTO ARQUIVO MARCIO SIMCH


Tudo parece composto de paz. A vida dorme neste instante, sossegada e pura na madrugada. A noite vai alta, e as estrelinhas brilham lá em cima. Eu queria falar de amor. Acordei agora com o coração inteiramente desperto para amar. Acho que o amor é a mais profunda ce-lebração do relacionamento humano. Expressa uma cons-ciência de que não existimos plenamente sem o outro. No diálogo, que é a manifestação mais lúcida do amor, na acolhida, na busca do entendimento do outro, nos tornamos inteiros.


O amor também é ter fé de que as outras pessoas são capazes da impossível lealdade, da irrealizável fidelidade. É acreditarmos que, em recebendo nosso amor, nossa confiança, a pessoa ultrapasse toda possibilidade, vença as fronteiras do comum e se constitua nossa esperança de verdade e felicidade. E temos fé porque em nós percebemos a realização desse milagre inteiramente humano de ser, quando apaixonados.


Então amar é tentar o impossível para fazer todo o possível. O impossível está no tempo a se transformar em possível, e por que não agora? Essa tremenda emoção não pode ser esse pobre tumulto provisório que abala nossos sentidos, endurece ou molha nosso sexo, ou alguma ilusão do imaginário. Antes, é uma floração de nós que vive em permanente primavera. Em que toda a força de nosso corpo, a energia de nosso sexo e a coerência do nosso pensamento estão unidas no que forma nosso sentimento.


Amar aquele que nos odeia e persegue é aceitar que ele, como nós, seja capaz de libertar-se do ódio, esse inimigo cruel. O amor confirma-se quando se prefere o outro a nós mesmos. Quando preferimos que o outro tenha todo o lucro que a relação possa trazer. Principalmente quando não temos a pretensão de responder a todas as necessidades e esperanças do ser que amamos. Nos julgamos onipotentes quando apaixonados e podemos perder a noção da realidade. É sempre um risco. Amar, em si, é um risco. Um confiar cego, um entregar absoluto e desarmado. Ficamos vulneráveis e fáceis, por isso as desilusões do amor doem tanto.


Amamos quando queremos que o ser a quem devotamos nosso mais profundo sentimento seja primeiro fiel a si mesmo. Mesmo que isso signifique angústia e dor. Não somos capazes de ter amor se não formos capazes de conquistá-lo. Como um ramo de uma árvore, o que sentimos, o que nos move ao outro, não pode ser arrancado pela convivência. A claridade que nos submete o coração e que direciona nossa vida está no que sentimos. É sempre preciso exceder nesse tempo, tão longamente quanto sejamos capazes.


 


*Luiz Mendes, 50,  há três anos escreve para a TRIP. Mendes cumpriu a pena máxima prevista pela justiça brasileira, 30 anos, por assalto e homicídio, e hoje vive em São Paulo. Seu e-mail é: l.mendesjr@ig.com.br

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