por Sergio Crusco
Trip #229

Na música, na moda, na arquitetura, na gastronomia, na vida, o passado é o novo preto

Medo do futuro? Reação à overdose de referências, num presente em que todas as modas convivem? Ou saudade de um tempo (talvez um tanto idealizado) em que tudo parecia mais simples? Na música, na moda, na arquitetura, na gastronomia, na vida, o passado é o novo preto

“As pessoas buscam outros valores porque se cansaram do frenesi dos centros urbanos” Aline Souza, jornalista

João Carlos Bottcher, restaurador de bicicletas paulista que atua em Santa Catarina, é um nostálgico assumido. “O que é moderno não me atrai muito”, diz o fã de Led Zeppelin e Ray Conniff que há alguns anos vive de recuperar modelos vintage de bikes para uma larga clientela interessada em reviver momentos felizes. Bottcher estudou história e preparava-se para seguir carreira de professor quando reformou sua primeira bicicleta, uma Caloi Sportíssima dos anos 70. Amigos e conhecidos começaram a requisitar seus serviços e a brincadeira de fundo de quintal foi virando profissão. Como ele, seus clientes têm um pé no passado. “Muitos são colecionadores, mas boa parte é de pessoas mais jovens que querem pedalar a bicicleta que foi do avô, do pai, ou um modelo idêntico”, conta.

Para além do desejo de resgatar estéticas de um tempo que hoje enxergamos como mais glamouroso, transgressor ou bonito, movimentos contemporâneos têm sugerido um tipo bem específico de nostalgia: a saudade de um passado em que se vivia de forma aparentemente mais simples, ao menos no que diz respeito às formas e à velocidade da vida.  Para a jornalista Claudia Visoni, ativista paulistana do grupo Hortelões Urbanos – que propõe a criação de espaços de cultivo em espaços públicos da cidade, como praças, parques e canteiros –, não é exatamente o desejo de voltar ao passado que move grupos como esse, mas a busca de resgatar algo que ficou para trás.

Não somos passadistas”, diz, enquanto reflete sobre as motivações do movimento. “Nós nos afastamos

demais da concretude da vida. Hoje compramos tudo: roupa, comida, até experiências prontas. O papel que nos sobra é o de consumidor. Mas o homem é um fazedor. Capinar uma horta coloca tudo no lugar, nos apazigua do ponto de vista emocional e espiritual. Preenche esse buraco, esse banzo que não sabemos dizer de onde vem.” O contato com a natureza e seus ciclos – ver uma planta brotar, crescer, murchar, cair – nos conectaria com a história de nossas vidas: a infância, a juventude, o viço, a esperança, a decadência, o fim. “Acho sintomática essa volta ao passado. A revolução dos costumes jogou muita coisa fora. Além do que não prestava, jogou também raízes que são muito importantes para nós. É como a criança adotada que, por mais que seja amada por sua família, precisa saber de onde veio, quer reconstruir sua história”, completa a jornalista.

João e Claudia são expoentes de uma tendência facilmente observada no mundo contemporâneo: de formas que variam muito, o passado está na moda. Seja alimentando o modismo duradouro que há alguns anos populariza termos como retrô e vintage – originalmente, esta última palavra designa a melhor porção de uma produção clássica de moda, e não qualquer coisa antiga –, seja na onda nostálgica que faz grupos e gente avulsa reviverem estilos e ideias do passado. Muitos por assumida saudade de um tempo que consideram melhor; outros porque se identificam mais com estilos consagrados do que com os contemporâneos; outros, ainda, para resgatar valores que pareciam em baixa nas últimas duas ou três décadas.

"O presente do pop está povoado pelo passado" Simon Reynolds, jornalista inglês

As manifestações são as mais variadas. No Rio de Janeiro, um restaurante – sintomaticamente batizado Volta – serve pratos que foram famosos nos anos 60 e 70, como coquetel de camarão com molho rosé e arroz de forno, enquanto turmas promovem encontros para dançar lindy hop, estilo acrobático importado da era do swing. Em São Paulo, os anos 50 dão o tom à decoração e ao clima de diversos lugares da moda, do recém-reaberto Riviera ao Cine Joia, enquanto grupos como os Hortelões Urbanos tentam recriar a paz do tempo em que se cultivava a própria comida.

No Facebook, uma página brasileira atrai 600 mil seguidores desencavando cacarecos que foram populares no passado e caíram no esquecimento: o Guaraná Caçulinha, a ficha telefônica, a fita cassete. Na TV, novelas como Água viva e Dancing days, dos anos 70 e 80, voltam ao ar e viram assunto. No rádio ou nos clubes, não há hit pop internacional que não faça referência a períodos mais efervescentes da cultura pop: psicodelia, punk, hip-hop, techno.

Se parte dessa onda retrô pode ser atribuída ao vaivém normal da moda – comprimentos, padrões e manias de décadas passadas sempre voltaram para nos assombrar (ou divertir) –, o que caracteriza o passadismo atual? E o que está por trás de tanto saudosismo? A explicação mais óbvia é que buscar referências nostálgicas nunca foi tão fácil. Na era da internet, não há o que não se ache: a história da moda, da crinolina à Mary Quant, no Pinterest ou no Google; as bandas obscuras do krautrock alemão, nos blogs que compartilham sons esquisitos; os passos do hully gully e do boogaloo ensinados no YouTube. Até a foto que você acaba de fazer no viaduto do Chá ganha um jeitinho amarelado com algum filtro romântico do Instagram.

Mas há quem ache que a explicação está longe de se esgotar por aí. “As pessoas vão em busca de outros valores porque estão cansadas do frenesi dos grandes centros urbanos”, arrisca a jornalista Aline Souza, que organiza a Tweed Ride carioca, versão local para a moda (que se propagou desde a Inglaterra) dos passeios ciclísticos realizados por grupos trajando roupas de época. “Elas procuram um certo glamour que havia em outros tempos.” É em busca disso que seus amigos se reúnem para passear de bicicleta vestindo roupas de tweed, como se estivessem no século 19, por recantos nostálgicos do Rio, apreciados no passado para passeios, como a Quinta da Boa Vista e a Ilha de Paquetá.

Ninguém entende um mod

A zona leste paulistana viu crescer, nos últimos dez anos, um revival do estilo mod inglês dos anos 60, com cabelo cuia, jaquetas e lambretas. “Beatles e The Who são referências importantes, mas pesquisamos timbres de bandas de garagem dos anos 60, ouvimos muita Tropicália, ficamos fascinados pelos afro-sambas de Baden Powell e de Vinicius de Moraes e por Lanny Gordin”, conta Pedro Bizelli, do quarteto mod Os Skywalkers. “Não acredito que sejamos nostálgicos. Essa busca pelos timbres antigos nos fez descobrir coisas realmente novas para nós”, diz.

 

Dancing queen

A cantora Mari Moraes tocava numa banda de baile com Diego Sena, Jheff Saints e Patricia Andrade quando teve a ideia de criar o ABBA History, com covers do grupo sueco, maior sucesso de seus sets. De cara, lotaram um teatro de 800 lugares em Porto Alegre. Hoje tocam no Brasil inteiro para cinquentões saudosos. Até aí, nada de muito novo: bandas cover não são exatamente um fenômeno desta década. O que impressiona é a quantidade de adolescentes nos shows. Há fãs ardorosos, como o menino de 15 anos que tem tudo do ABBA (que fez sua última aparição na formação original em 1982) e ajudou na pesquisa de figurinos. Para Mari, a explicação mais plausível é que “a música do passado era melhor”. “A beleza das letras e a riqueza de melodias ficaram de lado na música moderna. Os artistas do passado cantavam com garra e emoção”.

"No novo milênio, olhar para o futuro deixou de ser uma experiência positiva" Dario Caldas, Sociólogo

Você é linda

Se pudesse, Eve Almeida, 24 anos, viveria na Swinging London dos anos 60. Desde adolescente, é apaixonada por Beatles, The Who, Rolling Stones, David Bowie, Linda Eastman, Marianne Faithfull e Twiggy. Foi de tubinho, botas e franjinha existencialista que conheceu num show o marido, o músico Reinaldo Almeida, que encarna Paul McCartney na banda cover ZoomBeatles. “O gosto pela moda do passado ajudou a gente a se entender”, explica. “Acho que é nostalgia, saudade de uma época que não vivi”

Em muitos casos, a motivação é mais estética. Sócio da Barbearia 9 de Julho, salão com decoração anos 50 que cuida de cabelos e barbas à moda antiga, e que já tem seis unidades em São Paulo, Anderson Napoles conta que, aos 15 anos, não via graça na música que vinha do rádio, achava o grunge dos anos 90 de virar o estômago e odiou o techno “na primeira batida”. Só encontrou sua turma quando as duas irmãs começaram a namorar rockers, que viraram seus ídolos. Cultivou um topete e encontrou em Elvis Presley, Eddie Cochran e Gene Vincent seu veneno antimonotonia.

Teve a ideia do negócio próspero com o sócio Tiago Cecco. A primeira barbearia, aberta na rua Augusta, atraiu moderninhos e hipsters e, mais tarde, mauricinhos e executivos, com decoração charmosa e serviço à moda antiga – os clientes adoram especialmente as toalhas quentes que envolvem o rosto para abrir os poros, antes de fazer a barba. A iniciativa tem tudo a ver com o fato de Anderson ter adotado o estilo rocker como modo de vida. Assim como a escolha da parceira romântica, a estilista Larissa Montagner, que ele conheceu em uma festa rockabilly e com quem casou em Las Vegas, com pastor fantasiado de Elvis. Dona de uma grife especializada em vestir pinups e rockers, e ela mesma adepta do look saia rodada, cintura marcada, pérolas, laços, anáguas e babados, Larissa tenta resumir a mania que pauta a vida dos dois. Não é que falte qualidade estética ao presente, acredita. “Simplesmente nos identificamos mais com o estilo dos anos 50.”

Em seu livro Retromania, o jornalista inglês Simon Reynolds analisa o fenômeno nostálgico em um campo em que ele é particularmente forte: a música dos anos 2000. Para Reynolds, os primeiros dez anos do novo século são a redecade, a década do revival, do relançamento, do remake. Viu a soul music renascer (na perfeita tradução de Amy Winehouse), bandas aposentadas se reunirem, álbuns históricos serem relançados em luxuosas caixas com CDs e vinis, velhos roqueiros escrevendo memórias, filmes e musicais


Segundo ele, o pop sempre personificou o presente, o agora; e é aí, justamente, que mora a mudança. “O presente é o domínio do jovem e o jovem, em princípio, não tem razão para ser nostálgico, até porque não conta com um catálogo extenso de recordações preciosas”, escreve. O pulsar do agora, porém, foi perdendo a força: “O presente do pop é cada vez mais povoado pelo passado”, afirma.revivendo grandes

Para cientistas ingleses, a nostalgia conforta

Reynolds coloca uma boa dose da culpa pelo fenômeno na internet – o compartilhamento de arquivos e a

enciclopédia do YouTube fomentaram como nunca a nostalgia. Mas também aponta o dedo para o fetiche passadista da geração hipster. “Em vez de serem pioneiros e inovadores, eles pegaram o papel de curadores e arquivistas”, escreve. Concluindo o estudo, lança uma pergunta interessante: “A nostalgia impede a cultura de ir adiante ou somos nostálgicos porque nossa cultura não consegue mais ir para a frente?”.

ideia de um vazio estético é recorrente, quando se trata de tentar explicar o passadismo do novo século. Nessa visão, prevalece a sensação de que não há mais o que inventar na costura, na música, no cinema, nas artes plásticas, no design, na arquitetura. Para o sociólogo Dario Caldas, diretor do Instituto de Pesquisa de Tendências Observatório de Sinais, essa falência, que chama de “esvaziamento de caminhos”, é uma leitura possível. A arquitetura foi responsável por detonar nos anos 80 o pós-modernismo, bastante caracterizado por essa volta ao passado. E a moda, no final do século 20, foi precursora da colcha de retalhos que vemos hoje. 

“É o historicismo como método de recriar, reinterpretar e reler as décadas passadas”, acredita. Para ele, o fenômeno tem muito de consumista, como sugere Reynolds, e um quê conservador. “Talvez o que se perca seja o caráter transgressor. Para transgredir, é preciso ter ideias”, diz Caldas.

Mais relevante, acredita o sociólogo, é ler nesse passadismo um certo temor ao futuro. Se um tempo tão focado no presente como o nosso, em que tudo é registrado e compartilhado em tempo real pela rede, abre janelas para o passado, é justamente porque o que está em crise é o futuro: “Do começo do milênio para cá, olhar para o futuro deixou de ser uma experiência positiva. O mundo é perigoso, inseguro, não sabemos se vamos ter emprego e ainda por cima chegamos à conclusão de que destruímos o planeta”, diz.

Essa visão pode ter um paralelo interessante na ciência, que vem descobrindo efeitos positivos em um sentimento que sempre foi considerado nocivo à psicologia e à alma humanas: a nostalgia. Os estudos de um grupo da Universidade de Southampton, na Inglaterra, têm mostrado que cultivar boas lembranças não produz apenas conforto emocional – sensação de felicidade, autoestima aumentada –, como também conforto físico. Testes realizados pelos cientistas britânicos sugerem que pessoas induzidas a relembrar momentos gostosos – o doce preparado pela avó, a música da adolescência, uma viagem feliz em família – têm maior resistência ao frio, porque sua temperatura corporal tende a subir (junto com o astral). Conclusão: a nostalgia ajuda muita gente a lidar com as vicissitudes da vida.

Como sua avó

Produtos que contam a história de uma comunidade são cada vez mais apreciados pelos consumidores”, diz Luciana Stein, da Trendwatching, empresa que estuda e monitora tendências de consumo. No Brasil, um caso emblemático é o da Casa Granado, empresa de perfumaria fundada no Rio de Janeiro em 1870. A partir de 2004, a marca começou a resgatar fórmulas e embalagens antigas e a criar linhas com ares vintage. O sucesso revela nos consumidores um componente nostálgico: são adolescentes que acham o look antigo charmoso ou idosas que acreditam ser “do seu tempo” um sabonete lançado mês passado.

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