Outras Palavras – Maconha: manual de instruções
Outras Palavras Maconha: manual de instruções Por Ricardo Guimarães ILUSTRAÇÃO: NÚ-DËS/BILLY-BLEQUE/MARCELO ROSAURO Caro Paulo, Quarta feira durante o almoço, falando de eleições e de amigos legais que podiam ser eleitos você me alertou: ‘É. Vamos ver se o poder não os corrompe!’ Falamos também do D2, Marks traficante e para completar a viagem cheguei na agência e li uma matéria sobre o coitado do Rafael do Polegar. Fui abatido por uma tristeza e uma incredulidade profunda e me deu vontade de falar mais sobre poder e maconha com o meu amigo e os nossos leitores. Você sabe que sou a favor da descriminalização. E da educação da maconha. Maconha é poder. Poder de alterar. Assim como o álcool que altera seu estado, o trator que altera o solo, o dinheiro que altera sua liberdade e a energia nuclear que altera a vida. Maconha é muito bom, assim como o álcool, o dinheiro, o trator, a energia nuclear e o poder político. São poderes que podem fazer a vida melhor, mais divertida, mais inteligente e segura. Ou podem foder tudo. Por isso tem que descriminalizar e educar. Como na reforma agrária. Você já viu um agricultor pobre e ignorante sentado em cima de um trator? Movido pela necessidade de alimentar sua família ele é capaz de heroicamente destruir uma floresta e acabar com um rio que são os obstáculos para ele obter o sustento da família. Eu vi isso e é difícil explicar para ele a burrice e o atraso de vida do que ele estava fazendo. Para ele era progresso. E justo. É isso: põe a maconha na mão de neguinho cheio de insegurança e precisando se afirmar socialmente e veja como ele enfrenta os obstáculos que a vida coloca para ele crescer. Florestas e rios serão destruídos, com certeza. E ele vira um ser devastado como o Rafael do Polegar. Paulo, você sabe que não tenho compromisso com o mainstream nem com a vanguarda nem com o marginal. Não vejo nada essencialmente diferente em nenhum desses lados mesmo porque não passam de lados da mesma coisa- não são outras coisas. Escolhas Para mim o babaca-fumando-charuto-tomando-whisky-na-frente-da-TV que o D2 lembrou não é muito diferente do mano-queimando-erva-tomando-cerva-na-frente-do-mar se os dois estiverem igualmente entorpecidos, anestesiados, fazendo hora para essa vida cheia de problemas passar logo. São escolhas. Eu estou fora! Outra coisa é ver a maconha como uma conquista, um direito . Não uma conquista jurídica, descriminalização- esse é um processo social e tem seu tempo para amadurecer e eu sou todo a favor, já disse. Mas falo do âmbito pessoal, de um recurso a mais que alguém conquistou para usar e se levar a um outro estado. Isto é, precisa ter uma certa maestria, uma certa senioridade para usar a maconha ou qualquer outra droga justamente pelo poder que ela confere ao indivíduo. Quando o cara usa a maconha antes de estar pronto para usufruir de tudo que ela pode dar parece que se está colocando um chantily muito bom em cima de um bolo que tiraram do forno antes de assar direito: estraga o bolo e o chantily. É preciso estar maduro, com trabalho definido, afetividade satisfeita para então a erva ter o efeito de expansão. Antes disso é roubada. Maconha devia ser prêmio e não meio de vida. Acho uma pena o estrago que a maconha faz na produtividade e na perseverança de algumas pessoas talentosas, assim como acho muito bom o adianto que a maconha faz na cabeça de pessoas que ainda não sacaram o tamanho e a beleza da viagem que temos por fazer. Acho pobre a idealização da maconha e a estética desencanada inconsequente que ela cria. Esta estética revela uma ética corrompida de não se importar nem se abalar com as coisas mais chatas e difíceis da vida como se fosse possível passar por esta vida com esta insustentável leveza do ser. Se tem uma bandeira que vale a pena carregar nesta história não é a da maconha – que até acho legal apoiar para questionar e oxigenar o sistema mas não como causa em si- mas a bandeira da consciência que é uma coisa cada vez mais necessária para que todo esse poder colocado em nossas mãos não destrua nossas cabeças, nossas relações e nosso planeta. Maconha, trator, dinheiro e energia nuclear corrompem como o poder político. Se o indivíduo não está preparado, é o fim, é a corrupção. Como saber isso antes de experimentar? Infelizmente, Paulo, acho não temos outra alternativa do que correr o risco da experiência. Às vezes eu fico querendo ter o poder para alterar o mundo e colocar tudo no seu devido lugar e garantir a evolução sem o risco da devastação. Mas este poder não existe. O que existe é um caminho a caminhar. Em todo caso, se meu depoimento pode fazer alguma diferença e diminuir o risco, aí está. Fica com o abraço saudoso do amigo, Ricardo out. 98 Ricardo Guimarães é diretor da agência Guimarães Profissionais, que cuida da comunicação de marcas como Natura, Reebok, Tilibra e Yázigi, entre outras. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br
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