OS PASTORES E A FERA
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
É surpreendente. O programa 25ª Hora voltou a ser apresentado pelo principal coadjuvante do fatídico vídeo divulgado em dezembro por Roberto Marinho.
O pastor Dedine, que no tal vídeo mostrava-se um dedicado aprendiz de feiticeiro imerso na absorção das técnicas de subtração de verba dos fiéis, ativa seu pote de brilhantina, capricha no pancake, manda engomar seus ternos do saldão da V.R. e ataca novamente.
Quem não assistiu ao fatídico vídeo, ou não leu nenhuma das centenas de matérias que ele desencadeou, chegaria até a acreditar se tratar de mais um inocente útil, realmente convencido de sua missão de clarear o caminho do rebanho.
É certo, porém, que qualquer observador razoável seria capaz de perceber entre as falas patéticas proferidas pelo apresentador, um pequeno sorrisinho de canto de boca, um olharzinho de cúmplice que escapa aqui e ali.
Se você se lembra do desenho Corrida Maluca, aquele que reunia Dick Vigarista, Penélope Charmosa e outros figuras em corridas intermináveis, pode tentar visualizar o sorrizinho cúmplice de Mütley, o cachorro sacana, cúmplice eterno de Dick Vigarista em suas permanentes tentativas de explodir os carros dos oponentes. Ali está escarrado o sorrizinho do pastor.
Gente inteligente já disse que a luta contra a ignorância é inglória e dela resultará sempre uma amarga derrota, não importa a arma que se use.
A experiência na maioria das vezes confirma a tese. Assistindo ao 25ª Hora semana passada, tive a impressão nítida de que há uma esperança de vitória nesta difícil batalha.
E não se trata de nenhuma arma biológica ultra-moderna, nem de qualquer nova técnica de asfixia mecânica desenvolvida pelo clã dos Gracie.
O tema era ‘o homossexualismo’. Compunham a mesa, Irede Cardoso, uma senhora combativa e ágil ligada à política, o velho e bom personagem do folclore nacional Adilson ‘Maguila’ Rodrigues, um elemento ligado à Igreja Universal que se apresentava como teóloga e de cujo nome não me lembro (era J. alguma coisa). Na outra ponta, em posição diametralmente oposta física e ideologicamente, o jornalista Leão Lobo, uma pessoa que conquista o respeito de seus colegas e do leitorado pela maneira digna e ética com que exerce o difícil ofício de reportar com classe os bastidores de programas de televisão e do dia-a-dia de artistas e outros famosos.
Entre outras atitudes elegantes e extremamente dignas que tem protagonizado, Leão assumiu publicamente há anos sua opção homossexual de uma forma tão natural e autêntica, que lhe permite exercer uma carreira de exposição pública sem grandes problemas, em plena selva de preconceitos que nos cerca. Foi ali, entre ataques de telespectadores furiosos e do tal teólogo visivelmente nervoso e agressivo, que Leão mostrou aos telespectadores a tal arma.
Como trabalha com televisão, Leão deve ter assistido filmes de artes marciais orientais. Como um exímio artista de Tai-Chi-Chuan, se esquivou com classe e estilo dos golpes duros e secos que recebia. Em troca dos socos e cuteladas, devolvia sorriso, delicadeza e palavras positivas de esperança. Enquanto os pastores tentavam fechar um livro, Leão se ocupava em abrir dezenas de outros, iluminando outros caminhos para aqueles que se imaginavam num beco escuro.
O que Leão Lobo conseguiu foi mostrar a todos que um homossexual nada mais é que alguém cujo corpo e mente ajudou a refletir e estudar muito sobre amor. Acabou virando especialista na matéria.
Quanto ao bom Maguila, só fez provar que alguém pode nutrir a inteligência mesmo dentro de uma carcaça bruta e rodeado de ignorância de todos os lados. Aos ‘pastores’ só um destino cabe: entregá-los aos Leões.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu